AODISSEIA
Filmes

Crítica: O Rastro

No rastro do bom cinema de gênero

19 de maio de 2017 - 15:30 - Flávio Pizzol

Eu já repeti em alguns textos que o cinema brasileiro é muito maior do que as comédias e dramas autobiográficos de grande repercussão, porém ainda existe uma carência gigantesca de filmes que mergulhem em gêneros mais específicos. Longas desse tipo produzidos lá fora levam muita gente para as salas de exibição com o mínimo de orçamento (vide Atividade Paranormal), mas as pratas da casa precisam encarar a falta de divulgação e o preconceito do próprio brasileiro. O Rastro enfrenta a síndrome de vira-lata com orgulho, chega aos cinemas com pompa de grande produção e, mesmo contando com alguns erros, representa um novo horizonte para a nossa indústria cinematográfica nacional.

 

Resultado de míseros oito anos de pré-produção, a trama acompanha a história de João, um médico escolhido para desativar um antigo hospital carioca e coordenar a transferência dos pacientes para outros locais. Durante esse processo, uma menina desaparece sem deixar nenhuma pista, levando o médio ao limite da loucura. Como sempre rola em filme de terror, os mistérios ficam mais obscuros sempre que ele parece estar perto de descobrir a verdade.

 

Eu gosto muito da forma como o roteiro de Beatriz ManelaAndré Pereira (Mato Sem Cachorro) se desenvolve a partir da crise de saúde no Rio de Janeiro. Mesmo gravado há algum tempo, essa realidade continua atual e segura muito bem o primeiro ato do filme, junto com o desenvolvimento do núcleo familiar – uma necessidade do cinema nacional que consegue ser utilizado de forma satisfatória. É fácil acreditar na relação entre João e Leila, nas dificuldades do hospital, na falta de preocupação dos políticos. Por total acaso do destino, me lembrou um pouco a forma como Corra! (que também estreou no dia 18) usa a crítica social pra construir seu plano de fundo.

 

A diferença entre os dois longas de terror é que Jordan Peele consegue inserir o mistério dentro da crítica social, enquanto O Rastro sofre com a falta de cuidado nessas transições entre real e sobrenatural. A principal reviravolta parece ser bastante surpreendente no papel, mas sua execução abre espaço para várias dúvidas conceituais. A partir daí, o terror é deixado de lado em prol de um suspense mais realista (e muito coerente com o momento político do Brasil), porém volta sem muito sentido alguns minutos depois. O problema fundamental é que nenhuma das subtramas é descartada complemente, nem conectada de forma clara.

 

 

Eu fiquei com a sensação de que as aparições fantasmagóricas e os delírios também tinham um pé na realidade, possuindo uma espécie de ligação tênue com o stress pós-traumático ou com a culpa dos personagens. A última cena – gravada em um ótimo plano-sequência no Aterro do Flamengo – poderia confirmar essa teoria, mas sua presença no filme acaba sendo apenas uma forma de explicar demais uma revelação extremamente óbvia. Um mistério que o filme tenta esconder muito mais do que o necessário, visto que os todos pontos se conectam pelo menos uns dez minutos antes.

 

Por outro lado, o visual do filme é simplesmente sensacional. Reconhecido no meio publicitário há um bom tempo, o pernambucano J.C. Feyer sabe como utilizar planos pouco usuais, lentes desfocadas e planos-detalhes para construir um clima verdadeiramente claustrofóbico. A direção de fotografia – quase toda natural – e o design de som se apropriam da sala de cinema como um todo e criam o cenário perfeito para o medo e a tensão coexistirem. Tem uma cena em particular que ficou na minha cabeça graças a união de vários sons internos e externos, os detalhes de um tique do protagonista e o volume subindo aos poucos. Trabalho de primeira linha sem nenhuma dúvida.

 

Os sustos em si dependem de alguns jump scares meio batidos, mas a a construção da ambientação eleva – e muito – as possibilidades. E, nesse caso, a realidade funciona totalmente a favor do longa. Leandra Leal está realmente grávida de sua própria filha, os efeitos visuais são prioritariamente práticos e boa parte das gravações realmente aconteceram em um hospital desativado no Rio. O lugar parece vivo (lembrando um pouco a mansão de A Colina Escarlate) e estar ali dentro, mesmo separado por uma tela digital, se torna uma experiência marcante.

 

 

Pra finalizar, o talento do elenco pode contar como um ponto positivo pro longa. Cláudia Abreu (Os Desafinados), Felipe Camargo (Ponte Aérea), Jonas Bloch (Nossa Vida Não Cabe Num Opala), Alice Wegmann (Tamo Junto),  Érico Brás (Ó Paí, Ó) e Domingos Montagner (Velho Chico) cumpre seu papel com eficiência, enquanto a maior parte da carga dramática recai sobre o casal de protagonistas. Leandra Leal (Justiça) e Rafael Cardoso (O Tempo e o Vento) entregam os personagens mais bem desenvolvidos, recebem a torcida do espectador e parecem estar bem mais inseridos psicologicamente na história.

 

Tudo isso é suficiente pra criar uma imersão acima da média e até um bocado de medo, mais do que qualquer outro exemplar do gênero no Brasil. Apesar dos erros de roteiro, O Rastro é uma boa tentativa de fazer algo diferente dentro da nossa indústria e eu sempre vou aplaudir essas iniciativas. Por isso, a minha dica é que você também vença o medo e vá conferir um exemplar digno do gênero aqui no país. Os primeiros passos foram dados e a audiência é o que pode garantir outros longas de terror (ou ação, faroeste, etc..) no mercado nacional. O Rastro merece companhia!