Crítica: O Novato

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Quando a naturalidade é o bastante


O Novato é um filme francês de 2015 que passou por aqui no Festival Varilux, mas só este ano estreou comercialmente no Brasil. Quem me conhece sabe que sou um grande fã do cinema francês, e apesar de nem todos os filmes serem obras primas, muita coisa boa que vem de lá mal chega aqui – e fica escondida – como um diamante procurando por lapidação. Uma das coisas que mais amo nas produções francesas é a naturalidade e a simplicidade com que cada diretor ou ator aborta os fatos. Pequenas coisas do dia a dia, são filmadas de maneira grandiosa – e até uma direção feijão com arroz como a de O Novato, alcança seus objetivos, através de um texto cheio de sutilezas.

O filme conta a história de Benoît (Réphaël Ghrenassia), um jovem que muda de cidade e consequentemente precisa mudar de colégio. Acompanhamos toda a sua saga ao tentar fazer amigos nesse novo ambiente – seja ganhando-os pela barriga – seja levando-os até a sua casa e sendo ofendido nela ou fazendo uma festa que quase ninguém vai. O interessante é que todo mundo se identifica com Benoît , seja na escola, no trabalho ou mais particularmente no meu caso ( que já mudei de cidade 3 vezes) – todos já passamos por isso – então, a empatia que sentimos pelo personagem, até nas suas atitudes mais babacas, é real.

O elenco de atores novatos (se você pesquisa-los no IMDB vai ver que nenhum deles têm foto) é a grande surpresa do filme. O roteiro e a direção do também novato Rudi Rosenberg é corajoso ao mostrar os pais de Benoit apenas no início e depois afastá-los completamente. Não há espaços para adultos na produção – sejam eles pais, professores ou irmãos mais velhos – o único a dar o ar de sua graça é o tio de Benoit, Greg (Max Boublil), um verdadeiro crianção, daqueles que ensina piadas ofensivas aos jovens e as trata de igual pra igual – sem hierarquia – se tornando um dos melhores personagens do filme.

Como disse anteriormente, todos já passamos por isso e tivemos amigos assim – o gordinho estranho Joshua (Joshua Raccah), a menina novata que possui uma deficiência e dificuldade para arrumar amigos Aglaée (Géraldine Martineau), o nerd esquisito que sonha em formar o coral da escola Constantin (Guillaume Cloud-Roussel) e a primeira paixão, a menina estrangeira Johanna (Johanna Lindstedt). O amor não correspondido, a primeira festa, as inimizades, aqueles primeiros amigos que parecem que vão ficar pra toda vida – O Novato é esse emaranhado de clichês – que juntos funcionam – e não são de forma nenhuma prejudiciais para a trama.

Com uma história simples, um elenco simples e filmado de forma simples, O Novato é um retrato de qualquer época da vida de qualquer pessoa. É um retrato imediato da infância e adolescência – um formador de caráter – que infelizmente não foi ou é tão conhecido – e seus poucos 80 minutos precisam ser vistos.


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