AODISSEIA
Filmes

Crítica: O Matador

O cangaço assumindo seu papel de velho oeste brasileiro. Finalmente!

11 de novembro de 2017 - 12:36 - Flávio Pizzol

 

Uma das coisas que mais me incomodam no cinema brasileiro – e já repeti isso em diversas críticas – é o fato das produções nacionais apostarem muito pouco em longas que fujam da trinca formada por comédia, drama e biografias. O Matador, primeiro longa brasileiro produzido pela Netflix, faz o caminho oposto e abraça um dos gêneros mais específicos e importantes da história do cinema: o faroeste. Em terras manchadas de sangue por um cangaço pouco aproveitado nas telonas, isso é mais do que o suficiente pra me conquistar logo de cara.

 

Marcelo Galvão – uma das revelações mais talentosas dos últimos anos – apresenta uma trama cheia de detalhes que prendem a atenção do espectador ao passo que a direção se apropria das principais características do gênero pra construir um registro histórico do Nordeste no começo do século XX. Apesar de se apoiar em várias idas e vindas no tempo que poderia complicar o seu desenrolar, a história é absolutamente simples, esconde poucos segredos e funciona bem o bastante como uma construção cultural do sertão. Vale destacar a forma como o texto ainda se apropria da literatura de cordel, fazendo com que o conjunto da obra exalte uma região extremamente rica e constantemente esquecida do país.

 

 

No entanto, é o trabalho de Galvão por trás das câmeras que surge como o grande trunfo da obra. O diretor comprova mais uma vez (o ótimo A Despedida já tinha feito isso comigo) ter um amplo domínio da linguagem cinematográfica ao brincar com os clichês do gênero, como aquele típico plano fechado na cintura, sem permitir que o filme perca seu toque brasileiro. O clima revisionista – típico dos longas de Clint Eastwood – assume as rédias da narrativa em certo momento do terceiro ato e as similaridades que tornaram o faroeste um gênero universal são escancaradas, mas o cenário árido capturado de forma belíssima pela fotografia, as figuras históricas mais rocambolescas que as do Oeste americano (muitos são personagens inspirados nos próprios cordéis) e a trilha sonora ritmada principalmente com instrumentos de percussão dão conta de lembrar que O Matador se passa no Brasil.

 

É verdade que o longa não escapa de uma fórmula batida que não exige muito esforço, mas, entre donos de boteco fofoqueiros, fazendeiros intimidadores, prostitutas e pistoleiros que parecem existir em qualquer lugar do planeta, Galvão consegue, acima de tudo, entregar um filme que entretêm e prende a atenção do seu público com muito drama, violência extrema e poeira. A edição carregada ajuda a aumentar o drama sem que o roteiro abuse de grandes monólogos, assim como acontece com a tensão que preenche quase todas as cenas de uma produção recheada de perigos latentes. O sertão é perigoso por si só e o longa sabe como usar essa característica a seu favor.

 

 

Além disso, eu gosto da forma como Marcelo Galvão resolve inúmeras situações com o mínimo de diálogos didáticos e forçados possíveis. Os planos escolhidos fazem o trabalho de ambientação e complemento narrativo com primor e, quando isso não é o suficiente, ele terceiriza o trabalho para os cantadores (um deles é responsável pela ótima apresentação do quadro histórico nos primeiros minutos) ou para um narrador que encontra seu espaço dentro da estética literária assumida pelo texto, e se integra à trama através de uma reviravolta minimamente funcional.

 

Nada disso, incluindo a minha paixão à primeira vista pela proposta, significa que a história de Cabeleira, o maior matador que Pernambuco já viu, seja impecável, porque ela não é. O ritmo do segundo ato é bastante problemático (principalmente quando deixa o protagonista de lado), muitos personagens são poucos desenvolvidos ou viram meros adereços de cena, as atuações acabam sendo apenas razoáveis e os efeitos especiais caricatos escorregam aqui e ali, mas os méritos de O Matador são muito maiores que seus defeitos, sem nenhuma dúvida. Fica, infelizmente, o gosto amargo de saber que uma multinacional midiática teve que pisar em novas terras e, como desbravadores, apostar em um longa que tem uma identidade tão brasileira. Mas se esse é o preço que precisamos pagar pra ter um faroeste com nossa cara e acima da média, que paguemos com Turmalina da Paraíba então.