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Crítica: O Justiceiro – 1ª Temporada

Poderia ser muito melhor!

28 de novembro de 2017 - 10:03 - Tiago Soares

O fato desta crítica sair tardiamente aqui comparada a outros portais, evidencia um fato: Justiceiro não é uma série para fazer maratona, não pela questão do ritmo lento ou pelos 13 episódios habituais que já estou cansado de falar sobre as séries da Marvel/Netflix, mas porque geralmente cada episódio termina com um gancho ou uma nova pista, o que funcionaria melhor semanalmente.

 

Este texto contém spoilers da 1ª temporada

Justificativas à parte, Justiceiro começa insana e cercada por violência como deve ser – para que na metade do episódio – Frank Castle queime seu uniforme. Sério Marvel? Isso tudo é vergonha de apresentar um herói com uniforme? Já não basta Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro?

Aliás, Justiceiro abre com um acerto e um erro ao mesmo tempo, e faz o personagem voltar a fita, apesar de atormentado e cercado por pesadelos, Frank Castle abandona o manto e não é nem sombra do personagem apresentado em Demolidor, pelo menos no início.

Sobre a alcunha de Pete Castiglione, Frank volta a ativa após um vídeo divulgado  do assassinato de um policial, em uma operação chamada Cerberus, que nem existia oficialmente e servia apenas para traficar heroína. Cabe a Frank descobrir se isso tem alguma ligação com o assassinato de sua família, ao mesmo tempo em que procura vingança por aqueles que o afastaram da mesma.

Família que é o principal combustível de Micro (Ebon Moss-Bachrach), um hacker que trabalhava para a NSA e divulgou o tal vídeo, tendo que morrer no processo ou fingir pelo menos. Micro contacta Castle e ambos começam a trabalhar juntos, unindo a a mente e o corpo, ação e conhecimento. Aliás, a química dos dois é genuína e uma das melhores coisas da temporada, é uma amizade construída por duas pessoas que não confiam uma na outra de início, mas que sabem que precisam trabalhar juntas.

A outra trama está em Madani (Amber Rose Revah), a agente da Segurança Nacional a par da investigação junto com seu parceiro Sam (Michael Nathanson). Começando como uma personagem fraca, Madani ganha força na reta final da produção, justamente quando interage com o protagonista. Mais uma trama paralela é a de Lewis e Curtis (Jason R. Moore). O primeiro vive o estresse pós-traumático da guerra, e o outro serve como conselheiro em um grupo de apoio a veteranos.

Toda a discussão do assunto, seja sobre o abandono dos EUA aos seus soldados, ou sobre a política de armamento de civis (com Karen Page tomando um lado surpreendente) – é bem-vinda – mas percebam que eu descrevi 4 tramas paralelas, que seguem separadas pelo menos nos 6 primeiros episódios. Uma total perda de tempo, já que todas parecem vagas, até irem de encontro ao seu protagonista.

O principal erro das séries Marvel/Netflix que vieram antes era ter um bom início, um miolo horroroso e um final satisfatório pra alguns e pra outros não. Aqui em Justiceiro é diferente, pois temos um início bem lento, que poderia ser copilado em 3 episódios facilmente – apesar de violento (nos primeiros 3 episódios) – inclusive uma bela sequência na guerra ao som de Bruce Springsteen.

A série enrola no desenvolvimento das tramas paralelas, para que depois tudo se justifique, nos fazendo pensar se valeu a pena todo o trajeto até o ponto em que ela queria chegar. Por um lado é aceitável, pois todos os outros heróis têm seus trabalhos e vidas de civis. Demolidor é advogado, e acompanhamos suas duas vidas. Jessica Jones é investigadora, e também acompanhamos ambas. Frank Castle é apenas O Justiceiro.

Por isso é colocado constantemente com a família de Micro fazendo serviços como encanador, mecânico e pai de família, formando um forçadíssimo triângulo amoroso, fazendo com que muitas vezes, Frank Castle saia da ação principal, e a série acaba deixando-o quase como coadjuvante de sua própria história. Ao manter os momentos tensos nas tramas de Lewis e Madani, O Justiceiro esquece de seu personagem principal.

O episódio 7, é a mudança de ares que a série sofre e desde então tem uma crescente considerável aonde a narrativa fica fluída e nem sentimos o tempo passar. Temos dois vilões: Rawlins (Paul Schulze), ex-chefe de Castle que comandava a operação Cerberus – claramente corrupto – Rawlins tem suas rugas com Castle e não o perdoa por feridas que vão além do físico. Mas o principal deles é Billy Russo (o clássico vilão Retalho das HQ’s do Justiceiro).

Na série ele ganha uma história pregressa ao lado de Frank, se tornando um irmão para ele e tem uma pincelada em seu passado, inclusive com um elemento familiar inserido na história, parecido com aquilo que aconteceu na primeira temporada de Demolidor com a mãe de Wilson Fisk. O vilão é bom e Ben Barnes (o Logan de Westworld) se sai muito bem no papel.

O único ponto fora da curva seja seu envolvimento com Madani, o que enfraquece mais ainda a personagem, que ao descobrir a verdadeira índole do vilão, se sente a amante traída. Como já disse, ela se sai melhor quando interage com seus superiores e entra de fato na trama principal. Outra personagem feminina de destaque é Karen Page (Deborah Ann Woll) que ganha sua curta e melhor participação no universo das séries Marvel/Netflix.

Toda a a antipatia que sentia pela personagem se foi aqui e sua relação com Castle não é romântica e nem tenta ser, apenas com um olhar é possível sentir o carinho e o respeito que um tem pelo outro (a cena do elevador que o diga) e a personagem não cita nenhuma vez o advogado de sua série, fazendo com que O Justiceiro seja a série que tem menos conexão com todo o universo dos Defensores.

Daniel Webber como Lewis é outro que consegue entregar um personagem conturbado e que ainda sofre todos os horrores da guerra. O personagem traz uma discussão válida sobre o pós-guerra e seus soldados, mas que apesar de ter competência, demora para encontrar o protagonista e quando encontra já está em um caminho sem volta, ganhando um fim motivado pelo próprio Frank em um belo monólogo.

Mas quem de fato rouba a cena para si é Jon Bernthal. O Shane de Walking Dead já perdeu o posto de ter feito apenas um personagem e é o Justiceiro definitivo da TV e porque não do cinema? Ele é badass quando tem que ser, mas encontra contornos dramáticos em sua jornada, principalmente em flashbacks e sonhos que envolvem sua família – a cena do Dia de Ação de Graças é a mais bem trabalhada do ator – ele mistura ódio, raiva e tristeza – sem som – apenas em sua expressão facial.

A violência é algo que O Justiceiro traz de melhor. Frank Castle é um soldado. Ele não é um ninja experiente em artes marciais, não tem super força, é indestrutível ou é o imortal Punho de Ferro. As cenas de ação são cruas, beiram ao realismo – tanto aquelas com armas ou porrada – e são menos noturnas do que eu imaginava. Talvez O Justiceiro seja a série que use melhor a cidade em que está inserido. É possível sentir Nova York e a ação acontece diante dos nossos olhos, sem escuridão.

O gore é real e desde cenas com tiros na cabeça, ossos quebrando e de tortura são de virar os olhos. Se Tarantino assistisse a série (o mesmo declarou em entrevista recente que não usa a Netflix), estaria orgulhoso com a quantidade absurda de sangue – inclusive em uma cena que faz clara referência a Game of Thrones. O embate final com o inimigo que não deixa a desejar comparado a Castle – deixando uma ponta solta para a construção do verdadeiro retalho  – é psicologicamente e fisicamente angustiante e apesar do pouco tempo , é satisfatória.

Enfim, O Justiceiro é uma boa série, mas a frustração acontece por conta de um início que poderia ter sido melhor, e um final que reseta tudo outra vez. Porque não deixar o personagem agindo? Para que recontar então sua origem se ele volta ao status quo? E a referência a Mama Gnucci (matriarca mafiosa clássica vilã dos quadrinhos)? O Justiceiro termina como se não buscasse novos horizontes, fechando parcialmente sua história, essa que tinha potencial para ser muito melhor.