Crítica: O Círculo

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Um episódio chato de Black Mirror


A expressão “Isso é muito Black Mirror” tomou as redes sociais durante o boom da 3ª temporada da série da Netflix. Desde então, qualquer assunto sobre tecnologia, nos faz lembrar da famosa série, mesmo que The Circle (no original), seja baseado no livro de Dave Eggers de 2013. O Círculo conta a história da empresa homônima que domina o mercado tecnológico mundial. Acompanhamos a trajetória de Mae Holland, recém contratada pela empresa, com a ajuda da amiga Annie – bastante empolgada, a jovem começa a adentrar nesse mundo, tanto para ajudar a família e o pai doente, ao mesmo em que os reais objetivos da empresa com ela são mostrados.

A direção é de James Ponsoldt e logo no início, ele deseja gerar um desconforto, não apenas na cena da entrevista de Mae, mas em todo o processo de incursão da garota na empresa. A abordagem excessiva, seguindo de perto os passos dela – e a cobrança pelo convívio social – são fatores que o roteiro – também do diretor e do escritor do livro – trabalham bem, sendo o primeiro ato o melhor da produção, pois conhecemos esse mundo juntamente com Mae. Por isso a empatia com Emma Watson (A Bela e a Fera) no papel é imediata, apesar de já ser uma mulher, a atriz tem o rosto dócil, e tem as mesmas reações que teríamos naquele mundo confuso.

Em seguida, todo o crescimento de Mae dentro da empresa, é confuso e metafórico demais. Bailey, um dos donos da empresa vivido por Tom Hanks (Inferno) – interpretando Tom Hanks – é uma imitação barata de Steve Jobs, e é isso que o filme se torna. Palestras seguidas, apresentando novidades, que dão origem a aplausos efusivos da plateia, dez minutos depois outra palestra, e o ciclo se repete, fazendo com que apenas Mae tenha um destaque maior, e sua vida é exposta ao mundo – o que acaba se tornando prejudicial – algo óbvio dada as circunstâncias da narrativa. É como se estivéssemos acompanhando um filme de terror, com seguidos “não faz isso que vai dar merda”, e adivinha: dá.

Apesar de tocar em assuntos bastante urgentes, como a falta de privacidade, a necessidade de interação excessiva para se tornar relevante e até a chance de recomeçar das pessoas que cometeram algum crime no passado, O Círculo aborda tudo de maneira muito superficial. São assuntos que geram um debate dentro de nós, na medida em que são citados, mas o filme nunca se aprofunda em nenhum deles. Culpa do roteiro, que só atiça nossa curiosidade, sem desenvolvimento algum. Além disso, não aproveita bons atores como John Boyega (Star Wars VII) e Karen Gillan (Guardiões da Galáxia), apresentando-os  como pessoas importantes, mas nunca mostrando o que fazem. Cinema é imagem. Apesar de entender as motivações da protagonista por conta da família, falta personalidade a mesma, que é influenciável e literalmente levada a todo corredor escuro por um estranho.

O Círculo peca por ser ambicioso, a começar pelo elenco fantástico, mas que pouco faz aqui. Mae pouco evolui e muito menos a narrativa – com as coisas que acontecem em seguida – principalmente com o personagem de Ellar Coltrane (Boyhood) subaproveitado e muito mal desenvolvido. Com exceção do primeiro terço da obra, o filme quer caminhar pelo suspense, mas não consegue, em alguns momentos quer fazer rir, mas também falha. Visualmente, todas as inserções tecnológicas em tela, já foram usadas em outras produções. Resta lamentar mais uma boa ideia, com execução ruim.


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