AODISSEIA
Filmes

Crítica: O Apartamento

23 de fevereiro de 2017 - 13:01 - Tiago Soares

Asghar Farhadi e seu típico suspense “doméstico”.


Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, O Apartamento ficou marcado recentemente pela polêmica envolvendo o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que proibiu a entrada de refugiados provenientes de 7 países do Oriente Médio (Irã, Iraque, Síria, Líbia, Iêmen, Somália, Sudão). Isso impediu, consequentemente, a viagem do diretor Asghar Farhadi e da atriz Taraneh Alidoosti aos Estados Unidos, já que os iranianos eram esperados na cerimônia do Oscar. O cineasta e a protagonista da obra já anunciaram que não irão mais aos EUA, nem que uma permissão especial seja concedida para sua viagem ou que o veto seja revogado. A mídia internacional já especula que a Academia pode dar a vitória ao filme como uma forma de protesto.

Polêmicas a parte, O Apartamento conta a história do casal de atores Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti), que estão encenando a peça “A Morte de um Caixeiro Viajante“, de Arthur Miller. Um dia ambos são obrigados a deixar o apartamento que moram, já que o prédio corre risco de desabamento, devido a uma obra próxima a ele. Eles vão morar no apartamento de um amigo, até que um estranho entra no recinto, enquanto Rana está no banheiro, fazendo com que a mesma tome um susto e se machuque gravemente. Aquele infortúnio aparentemente bobo, acaba mudando a vida deles ali por diante.

É interessante a maneira como Asghar Farhad trabalha em seus suspenses “domésticos”, iniciando o filme com um belo plano sequência com câmera na mão, fazendo com que o apartamento desabando, seja o retrato de uma relação desgastada do casal, já que nenhuma demonstração de afeto é vista entre os dois. Apesar de estar retratando uma sociedade proeminentemente machista, Farhad não faz nenhum esforço em torna seu protagonista amigável, pelo contrário, faz de Emad uma espécie de escroto babaca, e que não mostra nenhum apoio a Rana depois do acidente. A vergonha de Rana, por não querer ir a polícia para admitir que “facilitou” a entrada do homem, se acovarda perante a do marido, que viu sua “honra” ameaçada, já que além da agressão, um abuso é sugerido.

Farhad que sempre valorizou a figura feminina nesse cenário, parece mudar o foco desta vez. Experiente em dramas envolvendo casais comuns, aonde atingiu seu ápice no ótimo A Separação, o diretor parece refém da fórmula que aparentemente criou, apesar de suas simbologias aqui serem bem melhores, mostrando um desgaste de Emad, com semelhanças com o personagem de Mario em O Silêncio no Céu, algo refletido nas atuações de ambos na peça que encenam e na sua profissão de professor.

Tendo um último ato baseado na tensão e na inclusão de um novo personagem, O Apartamento aposta na total imersão aos costumes do Irã, tocando na honra de uma família, e até onde isso é importante para as pessoas que vivem naquele meio, trazendo uma espécie de vingança, ou justiça divina. A atitude de Rana perante o seu agressor pode até parecer difícil de engolir e Farhad ainda força nele uma certa humanização, mas acerta em fugir do esteriótipo, fazendo com que toda a sequência final doa, assim como doeu em Emad e Rana.