AODISSEIA
Filmes

Critica: Noé

5 de abril de 2014 - 00:40 - Flávio Pizzol

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Podem existir várias maneiras de interpretar ou denominar o novo filme de Darren Aronofsky. Noé pode ser um blockbuster autoral, uma reinterpretação/renovação da história bíblica ou um épico bíblico nos moldes dos filmes de Cecil B. DeMille. Como tudo isso marca presença no filme, este deve dividir o público.

A história não precisa ser contada, já que, mesmo com todas as mudanças, o mote principal do filme é o mesmo presente na Bíblia. Noé é um homem justo que é escolhido por Deus para construir uma arca e abrigar seres humanos (sua família) e animais durante um dilúvio que vai destruir o planeta.

O roteiro do próprio Aronofsky, em parceria com Ari Handel, usa alguns elementos pontuais da história contada na Bíblia no desenvolvimento do filme, principalmente no começo da história, mas depois deixa a imaginação tomar conta do filme. Obviamente, como era de se esperar, algumas coisa acabam funcionando e outras não.

O roteiro, que tem alguns furos, adiciona os Guardiões, elementos fantásticos dignos da Terra Média, que se movimentam como um Transformer e foram retirados do Livro de Enoque (livro apócrifo que não faz parte da Bíblia católica). Os gigantes de pedra tem sua origem explicada em uma cena muito bonita e ainda são responsáveis por algumas cenas de ação no filme. Afinal, esse não seria um filme hollywoodiano sem a ação espetacular e fantasiosa.

Outra adição – ou reinterpretação – que funciona é a utilização de Tubal-Cain, um rei descendente de Caim, que funciona como um completo oposto de Noé. Uma adaptação cinematográfica precisa de ter heróis e vilões e é isto que Tubal-Cain é para Noé. Os dois agem e pensam de maneiras completamente opostas, trazendo pontos de vistas diferentes para dentro do filme.

Por outro lado, a briga interior travada por Noé quando se depara com as dificuldades da tarefa dada por Deus não funciona. O problema é que boa parte desse plot poderia ter sido facilmente evitado, já que nada disso consta na história original. Não estou reclamando da adaptação, mas acho que esta foi uma saída que não funcionou.

Esta saída está relacionada ao fato de que os filhos de Noé não deveriam levar mulheres para a Arca porque os homens não deveriam sobreviver ou se multiplicar no novo mundo, de acordo com uma visão do profeta. Toda essa história abre espaço para um drama forçado que poderia ser evitado por uma cena, afinal de contas, a própria Bíblia fala claramente que Noé deveria entrar na arca com sua mulher, seus filhos e as mulheres destes para repovoar o mundo.

A direção de Aronofsky é muito boa e não podíamos esperar menos do nome por trás de Réquiem para um Sonho, O Lutador e Cisne Negro. Ótimos movimentos de câmera são acompanhados por belíssimos efeitos especiais, fotografia e direção de arte. Além disso, algumas decisões criativas abrem espaço para algumas cenas bonitas e inspiradas.

Exemplos desses momentos são as visões de Noé, que substituem as “conversas” com Deus. A visão onde os animais saem nadando é linda, assim como as cenas das chegadas desses animais à arca. Mesmo que algumas imperfeições possam ser identificadas, a decisão de produzir os animais em computação gráfica também se mostra acertada por possibilitar a criação de cenas em escala gigantesca.

Outro momento intensamente criativo e poderoso acontece quando Noé conta a história da criação. A montagem das cenas, que lembram os documentários da BBC, é muito bonita, principalmente a parte em que as sombras de Caim e Abel mudam para uma sequência de mortes que retratam vários momentos da história moderna. Esse momento ainda exala mais um pouco da imaginação do filme ao misturar o Criacionismo com pitadas do Evolucionismo de Darwin (o momento dos animais) e teorias ambientalistas (estas são defendidas por Aronofsky na vida real).

Todas essas cenas são gigantescas, representando com firmeza o lado blockbuster dessa obra autoral e filosófica que persegue Darren desde sua adolescência. Infelizmente, muito do lado moral da história acaba se perdendo ou soando forçado, fazendo com que os efeitos se sobressaiam e chamem mais atenção.

Esse drama forçado também se reflete nas atuações do elenco principal. Russell Crowe mistura todos os seus personagens épicos – de Gladiador até Robin Hood – para tentar bancar o Charlton Heston do momento, mas não consegue dar a profundidade necessária ao personagem principal. Sua atuação funciona em alguns momentos, mas pega muito mal em outros mais profundos.

O mesmo pode ser notado em Jennifer Connelly. Ela está muito bonita, mas parece não tentar ter uma atuação acima da média e acaba soando unidimensional na maioria dos confrontos com o restante do elenco. Ela está melhor do que Crowe, mas não surpreende. Mesmo com alguns problemas, nenhum dos dois prejudica muito o resultado do filme.

Ainda pensando no elenco mais experiente, o filme conta com Ray Winstone e Anthony Hopkins. O primeiro está bem como o vilão humano do filme, Tubal-Cain, enquanto o último atua sem fazer nenhum esforço em sua pequena participação. Obviamente, Anthony Hopkins é sensacional, mesmo sem querer atuar.

No elenco mais jovem, o único destaque é Emma Watson. Ila, sua personagem, é quem tem o drama menos forçado e melhor desenvolvimento do filme. Com Ila, Emma continua mostrando que o seu talento não terminou na saga do bruxo inglês e faz com a história da sua personagem seja tocante e pouco artificial.

Por outro lado, Cam, filho de Noé, tem um desenvolvimento importante para a história, mas não é apoiado pela atuação fraca e unidimensional de Logan Lerman. Este não é um ator ruim, mas tem uma atuação decepcionante nesse filme.

Enquanto Logan e Emma tem destaque (mas lidam com este de maneiras diferentes), Douglas Booth faz Sem, o outro filho de Noé, sem ter destaque ou nenhum momento para demonstrar seu talento. Justamente no clímax, que poderia ser o momento do seu personagem, ele é nocauteado e só volta depois que o principal perigo acabou.

Um filme problemático, mas que consegue superar algumas dificuldades, geradas pelo roteiro e pelas atuações, com a direção talentosa de Darren Aronofsky e uma produção épica e grandiosa. Mesmo se arrastando em alguns momentos, Noé é poderoso, bonito e ainda faz o público pensar em alguns momentos pontuais, desde que a mente deste esteja aberta para as mudanças e adições realizadas na história.

OBS: Não assisti o filme em 3D, mas alguns momentos aparentavam funcionar bem com esse efeito, mesmo sendo este adicionado após a produção.