AODISSEIA
Filmes

Crítica: Minha Vida de Abobrinha

25 de fevereiro de 2017 - 16:27 - Flávio Pizzol

Uma animação forjada em torno de opostos


Ao contrário do que muita gente acredita, o Oscar de Melhor Animação também acolhe – uma vez ou outra – longas voltados muito mais para o público adulto, como As Bicicletas de Belleville, O Mágico, Anomalisa e As Memórias de Marnie. Em 2017, essas vagas para maiores foram ocupadas por A Tartaruga Vermelha e pelo stop-motion francês Minha Vida de Abobrinha (ou Ma vie de Courgette, no original).

O nome fofinho e algumas piadas físicas que surgem durante os primeiros cinco minutos podem passar uma sensação diferente, mas não se engane: todas as temáticas que cercam a obra são adultas. A narrativa é construída em torno das dicotomias entre tristeza, felicidade, abandono, abrigo, esperança e desilusão, enquanto traça outras discussões pontuais sobre ambição, suicídio, bullying, família e amizade. Fica muito pesado quando toca em alguns desses assuntos, porém as relações pessoais desenvolvidas na trama também criam um ambiente leve para o protagonista e o espectador. Como eu disse, é um jogo de opostos muito bem construído que se estende para vários aspectos do longa.

O visual é um deles, já que filmes em stop-motion costumam passar uma falsa ideia de simplicidade na produção. Minha Vida de Abobrinha é exatamente aquele filme onde o visual pode passar despercebido, apesar de utilizar técnicas complexas para animar as massinhas (no mesmo estilo Fuga das Galinhas) e esconder vários detalhes sobre os personagens nos cenários. Aceito que o conteúdo da história tem muito mais impacto do que o visual em si, mas as cabeças exageradas e os olhos arregalados que poderia ter saído de um trabalho de Tim Burton combinam perfeitamente com a saga de alguém que se culpa pela morte da mãe. O design de produção brinca com outros estilos, se arrisca na terceira dimensão em uma cena específica e sustenta todos os paradoxos que mexem com a cabeça daquelas crianças.

Além disso, a maioria dos personagens que cercam Abobrinha durante sua trajetória são tridimensionais e possuem motivações complexas para estarem ali, destacando o protagonista e seu amigo Simon. O primeiro precisa conviver com uma carga dramática assustadora gerada pela saudade do pai, sua culpa interior, um amor que chega de surpresa e um bullying inicial muito perverso. Já Simon usa os trejeitos clássicos de valentão para se proteger e vai revelando várias camadas emocionais no decorrer da narrativa. É um processo recorrente que também passa por Raymond, Camille e outros com mais timidez.

Pra melhorar, a construção emocional desses personagens passa credibilidade e ainda foge de alguns esterótipos perdidos pelo caminho. A diretora do orfanato, por exemplo, pode parecer uma pessoa amargurada à primeira vista, mas sempre acredita e apoia as crianças acima de tudo. O mesmo pode ser dito do orfanato em si: ele surge com o costumeiro peso dramático de um lugar que recebe crianças abandonadas ou órfãs, mas recebe uma ressignificação muito mais positiva na foto que encerra o longa.

No fim das contas, Minha Vida de Abobrinha acompanha o dia a dia de crianças com proximidade, porém usa esse olhar ingênuo como ponto de partida para examinar os temas adultos que recheiam seu subtexto. É só observar que uma piada boba como a do Raymond sendo molhado pode arrancar risadas pelo seu humor físico e também conter um background que não deveria ser constante na vida de um ser tão jovem. São os opostos marcando presença e resultando em uma longa singelo, intimista e tocante. Uma animação diferente e encantadora que merece seu lugar entre os indicados, mas deve passar despercebida pelo grande público. Infelizmente.