AODISSEIA
Filmes

Crítica: Manchester à Beira-Mar

28 de Janeiro de 2017 - 11:00 - Flávio Pizzol

O luto em sua forma mais dolorosa


Dizem que só existe uma certeza na vida: todos nós iremos morrer em algum momento e, consequentemente, alguém vai acabar sofrendo nesse momento. No entanto, saber que isso vai acontecer não faz com que o luto seja menos doloroso e cada pessoa acaba lidando com esse processo de uma forma muito pessoal e particular. Manchester à Beira-Mar lida com algumas dessas formas para criar um conto íntimo e poderoso sobre tristeza, culpa, família, mágoas internalizadas e, quem sabe, um pouquinho de perdão no final das contas.

O roteiro – muito bem construído estruturalmente, por sinal – acompanha o retorno de um zelador amargurado para sua cidade natal após a morte do seu irmão mais velho. Ele precisa lidar com as dificuldades do enterro em pleno inverno e decidir o futuro de seu sobrinho, enquanto enfrenta o retorno de fantasmas do passado que habitam aquelas vizinhanças.

Kenneth Lonergan (roteirista de Gangues de Nova York) conduz tudo com uma calma e um cuidado fora do comum: o desenvolvimento é lento como tem que ser, os flashbacks se encaixam perfeitamente, o humor extremamente sutil quebra o clima pesado nas horas certas e todos personagens tem o seu próprio arco dramático nesse contexto de perdas. É um processo de construção lógico que já começa nos primeiros minutos com algumas pistas sobre o passado e praticamente obriga o espectador a sentir algo por aquelas pessoas (mesmo que seja pena) antes de entregar uma reviravolta chocante e um dos clímax mais pesados dos últimos anos. Menos explosivo do que o esperado, mas não menos poderoso e angustiante.

Ao mesmo tempo, sua direção honesta acompanha os aspectos mais pacatos e simplistas da vida dos personagens sem chamar atenção para presença da câmera, deixando claro que a força do longa está no texto e nas atuações. Dentro disso, a edição oferece a precisão necessária para impedir que o filme fique arrastado e a trilha musical apoiada em canções orquestradas surge para reforçar os momentos de puro drama. Um recurso bem típico de dramalhões que funciona muito bem aqui graças ao casamento com a montagem e o conteúdo.

Além disso, a fotografia quase sempre gélida e azulada chama atenção por transformar a cidade em personagem, refletir os sentimentos dos personagens e demarcar o afastamento que percorre quase todas as relações humanas vividas ali. É um caminho contrário ao realizado pelo texto ou pela preferência de Lonergan por enquadramentos mais próximos dentro dos ambientes fechados, mas o encontro entre as possibilidades enriquece as interpretações e revela momentos de grande esperança quando os poucos raios de sol brilham.

Entretanto, como eu já disse, o filme não esconde em nenhum momento que pretende ser lembrado por seu elenco e são justamente essas atuações principais que mantém todas as engrenagens em dia. Casey Affleck (Gerry) faz um trabalho absurdo na construção de um Lee Chandler que internaliza todas as suas emoções, mas parece estar sempre prestes a explodir. Ele até parece colocar um pouco do seu ódio para fora nas brigas de bar ou na bebedeira constante, porém deixar de jogar o telefone longe, quebrar uns pratos na parede ou acertar suas contas passadas cria marcas profundas que o ator expressa com um olhar.

Mesmo sem aparecerem tanto quanto o protagonista, Kyle Chandler (O Lobo de Wall Street) e Michelle Williams (Sete Dias com Marilyn) também dão um show a parte. Ele tem a presença necessária para justificar a personalidade do seu personagem e o fato do filme girar em torno dele, enquanto ela garante sua merecida presença no Oscar com uma cena simplesmente desoladora. Quem não sentir nada durante o último encontro dela com Lee pode ir correndo pro hospital para ser diagnosticado como psicopata ou coração de pedra.

E, por fim, o jovem Lucas Hedges (O Grande Hotel Budapeste) segura bem a peteca e faz um trabalho decente na representação de um luto completamente diferente, apesar de não chegar ao pés dos seus colegas de elenco. Eu não o indicaria ao Oscar por esse motivo, mas seria injusto afirmar que ele não merece alguns elogios perdidos nesse texto. Além disso, eu preciso admitir que senti falta de um confronto franco entre ele e o tio, mas entendo que a dos dois precisa ser mais ligada a aceitação e ao restabelecimento dos laços para incluir alguma dose de perdão e lirismo na conclusão.

Mesmo assim, Manchester à Beira-Mar entrega uma história conduzida com maestria, prende a atenção espectador por mais de duas horas com um bom ritmo, emociona com doses cavalares de tristeza e ainda trabalha com atuações maravilhosas. Não é fácil de ser assistido (admito) justamente por seguir os ideais de seu protagonista e conter toda a dor e culpa que cercam o filme, mas deixa claro que nada chega ao final antes da verdadeira luz no fim do túnel – ou do mar.