AODISSEIA
Filmes

Crítica: Logan

2 de março de 2017 - 14:00 - Flávio Pizzol

Os brutos também amam, choram e se despedem em grande estilo


Antes de mais nada, já vou deixar avisado: esse não é um filme de super-herói. Não quero, nem posso negar a importância dos X-Men para a indústria dos quadrinhos e para o começo do gênero em questão lá em 2000, mas Logan encontra seu espaço justamente por abraçar certos aspectos do universo, sem cair naquela loucura fantástica que Bryan Singer chama de filme. O que temos aqui é um faroeste que bebe das fontes distópicas de Filhos da Esperança (2006), brinda com Clint Eastwood em Os Imperdoáveis (1992) e reverencia Shane (1953) mais de uma vez, enquanto lança o espectador em uma roadtrip das mais melancólicas e cruéis.

O longa se passa em um futuro não muito distante onde os mutantes foram praticamente extintos e os poucos que sobraram (representados à princípio por Logan, Xavier e Caliban) estão sobrevivendo como podem, lidando com uma decadência física e mental. Tudo começa a mudar quando uma faísca de esperança surge na figura da pequena Laura – a primeira mutante detectada pelo professor depois de muito tempo – e sua perigosa jornada em direção ao Éden.

Sem se preocupar com o desenvolvimento lento, o roteiro de James Mangold (Johnny & June), Scott Frank (Irresistível Paixão) e Michael Green (Blade Runner 2049) nos apresenta e constrói cada passo dessa “nova” versão do universo com uma simplicidade narrativa que cai muito bem na trama. Acredite quando eu digo que a história não foge do que já havia sido mostrado no trailer e segue cada passo clássico (ou clichê, se você preferir) dos filmes de viagem, adicionando de forma certeira um forte senso de família e amizade que sempre fez falta nos relacionamentos entre os mutantes apresentados até aqui.

Esse é o grande trunfo de um filme que não aproveita a liberdade criativa como desculpa para surtar ainda mais, e sim para estruturar-se em torno de um trio de protagonistas que convivem com dramas críveis e poderosos – no sentido emotivo da palavra. James Howlett (ops) sente o peso de todas as mortes diretas ou indiretas que preencheram sua vida e Hugh Jackman encontra a sua melhor atuação desde Os Suspeitos (2013) na passada arrastada, nas olheiras e na respiração pesada que revelam muito sobre o personagem. Já Charles Xavier sofre com o descontrole da sua mente e os impactos disso no passado, mas Patrick Stewart (Green Room) mantém uma esperança que se revela como um alívio cômico inesperado e muito certeiro.

E, por fim, Laura coloca sua busca pela própria identidade no centro disso com uma interpretação de tirar o fôlego da novata Dafne Keen. A menina fala muito pouco, porém se revela como uma força da natureza que emociona, arranca cabeças e injeta uma nova quantidade adrenalina na trama desde sua primeira aparição. Além disso, querendo ou não, ela é a força motriz que coloca o longa em movimento ao conectar a fuga constante de Wolverine com a perseguição implacável dos Carniceiros, muito bem representados e liderados por Boyd Holbrook (Narcos).

A violência visceral e realmente sangrenta que sempre acompanhou os quadrinhos do carcaju também é uma novidade muito bem-vinda, mas funciona justamente por não ser apenas um artifício aleatório. O longa possui uma narrativa profunda e brutal que merece – e até precisa – ser acompanhada por alguns litros a mais de sangue, garras atravessando crânios e confrontos que realmente colocam vidas em risco. Logan finalmente atende um dos pedidos mais frequentes dos fãs, porém não deixa que o vermelho ocupe a tela de forma caricata, nojenta ou “tarantinesca” demais. É importante que cada gota derramada tenha um peso que o espectador sinta tanto quanto os personagens.

James Mangold (Os Indomáveis) entende tudo isso com perfeição e cria o clima perfeito para última jornada do protagonista. Ele sabe como aproveitar os aspectos de western urbano”, injetar intensidade nas cenas de ação e capturar momentos de pura intimidade com muita sutileza. Momentos esses que, por sinal, parecem justificar a existência do filme muito mais do que as cenas grandiosas. É só observar como sua câmera se movimenta com uma calma absurda, deixando Logan sentir a aridez da fotografia de John Mathieson (O Som do Coração), a imponência dos cenários construídos por François Audouy (Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros) e a tensão presente na trilha quase sempre sintetizada de Marco Beltrami (Águas Rasas).

O terceiro ato me incomoda um pouquinho ao apostar em questionamentos ou situações que já foram exploradas anteriormente, incluindo uma conexão forçada com a origem do herói e uma espécie de clone-robô que me remeteu tanto a X-Men Origens: Wolverine quanto ao Samurai de Prata do segundo longa. São lembranças amargas que me perturbaram até a emoção voltar com brutalidade, Laura ressignificar um dos melhores diálogos da história do cinema e a última cena deixar claro que tudo aquilo ali era apenas um artifício. Nada mais do que um recurso para nos lembrar que estávamos vendo um filme sobre famílias, perdas e relações paternais.

E é justamente essa atmosfera que faz essa jornada de redenção e encerramento ser tão inesquecível. A ação e o sangue marcam sua presença de forma impressionante (não se preocupem…), mas é esse subtexto pouco explorado pela franquia que deixa os olhos marejados e a cabeça em transe. É claro que eu também senti falta do uniforme clássico e tantas outras promessas feitas ao longo dos anos, no entanto entendo que esse contexto poderia nos carregar para uma conclusão parecida com a dos filmes anteriores. Logan escolhe não abraçar esses riscos para entregar uma despedida fechada, dolorosa e emocionante para um personagem que esteve em nossas vidas por quase 17 anos.


OBS 1: Um dos amigos que estavam sentados do meu lado classificou Logan como um daqueles filmes que faz a barba crescer. Vai que…