AODISSEIA
Filmes

Crítica: Lion – Uma Jornada para Casa

14 de fevereiro de 2017 - 11:01 - Flávio Pizzol

Uma busca forjada pelo Google e pela emoção


Certos acontecimentos tem o poder de influenciar o passado, o presente e o futuro de uma pessoa, gerando buscas incessantes (e, às vezes, inconscientes) por redenção ou conforto. Muitas pessoas não conseguem se libertar das lembranças, encontrar sua identidade e andar para frente antes de colocar esse ponto final. Lion – Uma Jornada para Casa se aproxima dessas discussões ao apresentar uma história que nasce no meio das 80 mil crianças que desaparecem por ano na Índia.

Saroo é um menino de apenas cinco anos que entra para essa estatística assustadora ao dormir dentro de um trem e se perder do irmão mais velho. Ele não consegue voltar para casa e passa a viver nas ruas de Calcutá até ir para um orfanato, onde acaba sendo adotado por um casal de australianos. Depois de 20 anos, mesmo sem ter nenhuma pista concreta, ele decide iniciar uma busca pela sua família com a ajuda de um milagroso programa chamado Google Earth.

O roteiro escrito por Luke Davies (Life: Um Retrato de James Dean) divide o desenvolvimento da história entre essas duas fases de uma forma bem linear: a primeira apresenta a família de Saroo e seu desespero até o momento da adoção, enquanto o segundo já acompanha as emoções e decisões que levam o protagonista de volta ao seu país natal. Indo além da temática emocional que cresce na segunda parte, essa decisão abre espaço para o longa explorar sem pressa nenhuma uma realidade palpável e dolorosa através dos olhares perdidos e encantadores do ótimo Sunny Pawar em seu primeiro trabalho.

A belíssima fotografia de Greig Fraser (Rogue One) mostra sua força no contraste das duas partes entre o caos das lotadas estações indianas e a calmaria das águas australianas durante a transição. Longe de reforçar uma visão simplesmente estereotipada, sua colaboração com o diretor Garth Davis (da série Top of the Lake) aproxima o espectador com o uso da câmera de mão, entrega as angústias do menino sem perder a intensidade e cria paralelos visuais extremamente sensíveis para refletir os sentimentos confusos do próprio Saroo.

A edição comandada por Alexandre de Franceschi (O Despertar de Uma Paixão) também mergulha nessa confusão na segunda metade ao inserir muitos devaneios com o passado do protagonista e picotar as cenas mais do que o necessário. Os personagens tomam várias decisões, brigam e mudam de ideia sem que o público consiga compreender as causas de tudo aquilo, gerando um incômodo muito grande. No entanto, a chegada de um terceiro ato mais arrumadinho e verdadeiramente emocionante acaba revelando que a proposta de Lion não passa pela razão, e sim pela conexão emocional entre os eventos.

Eu preciso aceitar que o fio condutor fica muito perto de perder o seu rumo por completo, mas a empatia criada no primeiro ato e o posterior mergulho nos sentimentos de Saroo levam o espectador para uma incrível viagem sensorial, que só funciona graças as atuações de Dev Patel (Quem Quer Ser um Milionário?) e Nicole Kidman (Os Outros). Ele abraça todos os sentimentos de Saroo e impede que Lion perca o ritmo na maior parte do tempo, enquanto a veterana guarda sua última cartada para um monólogo poderoso e cheio de significado nos últimos minutos. Indicações ao Oscar merecidas para ambos.

No final das contas, Lion – Uma Jornada para Casa é um filme sobre passado e identidade que propõe um mergulho completo nos sentimentos mais profundos do protagonista. Pode até ganhar ares de anúncio do Google Earth em certo momento, mas merece ser apreciado por seu relato sensível, poderoso e cheio de contrastes sobre uma realidade cruel e uma busca realmente emocionante. Talvez deixe alguns espectadores perdidos no meio ou fique muito difícil de assistir em algumas sequências, porém vale o ingresso pelos quinze minutos finais e pelas cartelas que ainda guardam cenas e informações que mexem com qualquer coração de pedra.


OBS 1: A Rooney Mara funciona dentro do possível, porque o roteiro não entrega nenhum conteúdo digno pra sua personagem.

OBS 2: Existem grandes chances de você ficar lembrando do rosto de Sunny Pawar gritando “Guddu” por muitas noites. É tão triste e, ao mesmo tempo, tão fofo!

OBS 3: O longa foi indicado a seis Oscars e vários outros prêmios de suporte. Até o momento, levou as estatuetas de melhor fotografia e melhor direção estreante nos respectivos sindicatos. Será que pode surpreender no dia 26 de fevereiro?