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Crítica: Liga da Justiça – Sem Spoilers

Enquanto isso, antes da Sala de Justiça...

15 de novembro de 2017 - 10:04 - Tiago Soares

Aaron Sagers, editor do site SyFy Wire disse no seu twitter que Liga da Justiça é um episódio longo do desenho  Liga da Justiça Sem Limites – aquele que víamos na hora do almoço no SBT. É um prazer afirmar que ele está correto. Afinal a desconfiança era visível, até nos fãs mais fervorosos da DC Comics. A primeira dúvida era saber que tom o filme abordaria. Iria para o lado mais aventuresco e despretensioso de Mulher-Maravilha, ou seria mais denso como Batman vs Superman? Encontraria o meio-termo?

Na redação, a dúvida sempre vinha à medida em que novos pôsteres do filme saiam, já que eles apresentavam tons distintos de um para o outro – ficando meio coloridos – igual a um filme de equipe recente da própria Warner que não citarei.

As notícias também não animavam: tivemos a troca de diretor nas refilmagens (Zack Snyder teve que se ausentar por conta de uma calamidade), com Joss Whedon (Os Vingadores) assumindo à produção (recentemente sabe-se que ele refilmou 20% do filme) – as várias notícias de personagens cortados – as incertezas do universo expandido da DC (Ben Affleck fica ou não como Batman? Os filmes continuarão sendo interligados?) – e por aí vai.

A trama é simples – Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), um dos Novos Deuses – vêm à Terra com seus Parademônios em busca das Caixas Maternas, unidades necessárias e que contém o poder (aquela motivação clássica do vilão megalomaníaco, neste caso apenas um capanga para algo maior).

As 3 caixas (uma com os atlantes, outra com as amazonas e uma perdida com os homens) precisam se unir para que revelem seu verdadeiro poder. Cabe a Batman (Ben Affleck), cumprir a promessa que fez a Superman e proteger a Terra de ameças externas. Para isso, ele e Diana (Gal Gadot) se unem para recrutar “pessoas com dons” dispostas a ajudar nesta tarefa.

Liga da Justiça vence a desconfiança muito por causa de seu elenco talentoso. Os dilemas de seus personagens se unem para um bem comum e os atores funcionam sozinhos e em equipe – o casting está perfeito. Apesar de pouco menos de 2 horas, o filme consegue trabalhar as motivações, deixar uma faísca de interesse em produções futuras (principalmente no núcleo de Atlântida) e tem um ritmo fluído – não deixando a peteca cair – mantendo sempre o nosso interesse.

Sabe-se que a sala de edição da Warner é um dos grandes vilões dos filmes, mas aqui os cortes abruptos ficam menos aparentes. Não há problemas de ritmo gritantes, mas um trato maior em certos momentos que mereciam mais destaque (Superman Lives) seriam bem-vindos. Aliás, o filme contém alguns furos de roteiro, não dentro da obra em si, mas envolvendo o todo, com outras coisas ficando esclarecidas.

As piadas funcionam, não sendo forçadas em momento algum e nós temos em Liga da Justiça um ritmo bem mais leve e descontraído. É uma grande mudança para quem acompanha os filmes da DC, e alguns fãs puristas podem não gostar da nova abordagem, tanto em comparação com as HQ’s, como na versão do Batman piadista.

Quem fica com a maior parte da veia cômica é o Flash, e a escolha de Ezra Miller é um grande acerto, muito pela naturalidade do ator. O contraste dele está em Ciborgue (Ray Fisher– mais sério – o personagem ainda não mostra a que veio, e não justifica o filme solo que a DC queria fazer do mesmo (ideia já descartada), a presença dele no filme solo do Flash seria melhor.

O meio termo talvez esteja no Aquaman de Jason Momoa que tem uma abordagem totalmente diferente do conhecido desenho dos Super Amigos. Tanto Momoa como o núcleo dos atlantes foram suficientes atraentes para que eu queira ver mais deste universo e confesso que estou ansioso para ver o que James Wan fará.

A Mulher-Maravilha de Gal continua maravilhosa e tem menos tempo de tela, para que os novos personagens sejam trabalhados e aproveitados – inclusive a tão esperada volta do Superman (Henry Cavill), que têm uma decisão de roteiro imprevisível e gera o melhor momento do filme. No mais, Liga da Justiça tem o que a maioria dos filmes de equipe tem: a união necessária para um bem comum e maior do que eles mesmos.

Não é um filme que traz consequências significativas, tanto para o universo, como para os personagens, já que alguns deles saem exatamente como chegaram. Uma das grandes vantagens é o foco. Não existe tantos desentendimentos entre os membros da equipe, e eles vão direto ao ponto que cá entre nós, já estou cansado deste formato.

Mas, o filme possui erros, muitos deles na produção do que na própria execução, já que a direção de Snyder é segura, e o visual dele está presente, pelo menos nas cenas de ação. É possível sentir a mão de Joss nas partes de interação entre a equipe, que não soam nada forçadas. É um filme de dois diretores distintos, mas que mantém um tom único.

O CGI exagerado é algo já recorrente nas batalhas finais, mesmo que possa parecer chato na repetição é algo que deve ser lembrado. Tirando os embates ideológicos entre os membros da Liga durante a batalha, não há uma cena de ação memorável, (com exceção da já citada volta do Superman) e a maioria já foi apresentada nos trailers (apesar de que falando de Snyder, brotam em tela lindos wallpapers).

O vilão, Lobo da Estepe, apesar de um rápido background (com direito a homenagens, easter eggs e vibrações na sala do cinema) é muito fraco. A Warner ou Whedon (o mais provável), perceberam isso e deram pouco tempo de tela ao vilão de videogame feito por captura de movimento – que não é dos melhores – visualmente falando.

Uma decisão acertada, já que o filme se chama Liga da Justiça, sem nenhum subtítulo levando o nome do vilão, o foco está na equipe e sua formação. A última – não menos – importante está no dilema recente de Superman e seu bigode.

Pra quem não sabe, Henry Cavill é o vilão de Missão Impossível 6, e o seu personagem possui um bigode, algo redigido em contrato, o qual ele não poderia tirar em hipótese alguma. O problema é que as regravações de Liga casaram com as gravações de MI6 e foi usado CGI para apagar o bigode do rapaz. Algo que pode passar imperceptível pra alguns, mas é horroroso depois que se nota. Um Superman barbudo ou até mesmo de bigode seria bem vindo.

Danny Elfman entrega uma trilha sonora segura, mas contida demais. Se destaca em alguns momentos (principalmente quando mistura os temas clássicos), mas some em outros. Divertido, fluído e fazendo o “feijão com arroz” dos filmes de equipe, Liga da Justiça opta pelo simples e acerta justamente por não se arriscar tanto. A preocupação é se os filmes da DC daqui em diante continuarão com a mesma pegada, mas eu gostaria de ver uma leque maior, com os diretores tendo a liberdade de focar em gêneros e nuances, algo presente até nos personagens.

As incríveis cenas pós-créditos (uma em forma de referência e outra que dá margem para produções futuras e sem dúvida aquela que mais empolgou o público), dão uma sensação de “até logo” e um gostinho de quero mais. Que venha Liga da Justiça 2, que venha Darkseid!