AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Lei da Noite

24 de fevereiro de 2017 - 11:00 - Flávio Pizzol

Um mafioso perdido em subtramas, sentimentos e acontecimentos históricos


Ben Affleck nasceu na Califórnia, mas permite que sua paixão incondicional pelo universo criminoso de Boston exerça uma enorme influência em sua filmografia. Com exceção de Argo, todos os seus trabalhos por trás das câmeras lançam um olhar particular sobre o crime na cidade, então não é tão surpreendente assim que A Lei da Noite se torne um de seus projetos mais pessoais ao rechear essas relações violentas de acontecimentos históricos e elevá-las a um nível quase épico.

Também não é nenhuma surpresa que o diretor se contente em emular outros grandes filmes de máfia durante a trajetória de Joe Coughlin em busca de poder e vingança. As tomadas abertas remetem ao magnífico trabalho de Sergio Leone em Era Uma Vez na América, os pequenos planos sequência passam por Scorcese em Os Bons Companheiros, alguns tiroteios repetem a dinâmica explorar por Brian de Palma em Scarface e as tentativas de legalizar o trabalho como mafioso lembram uma parte da discussão moral estabelecida em O Poderoso Chefão. É uma colagem repetitiva que, pelo menos, exala um pouquinho do amor de Affleck pelo gênero em questão.

No entanto, sua visão como diretor possui um potencial muito grande e, definitivamente, não merece ficar restrita a meras referências cinematográficas. Ele sabe colocar a nostalgia em enquadramentos elegantes, aproveitando a fotografia de Robert Richardson (Os Oito Odiados) e a reconstrução impecável da década de 20 nos cenários e figurinos. Alguns momentos isolados, como o carro em chamas no meio do rio, são realmente poderosos e deixam aquele gostinho de quero mais que o roteiro não consegue satisfazer.

A grande questão é que a adaptação – cheia de problemas – do livro de Dennis Lehane (autor de Sobre Meninos e Lobos, Medo da Verdade e A Ilha do Medo) também foi feita pelo próprio Ben Affleck. E, nesse quesito, fica impossível ignorar a narração redundante, os diálogos completamente expositivos entre os mafiosos, as revelações óbvias e as reviravoltas que aproveitam o maior combo de Deus Ex Machina possível. Chega a ser frustante ver um dos “vilões” voltar sem nenhuma justificativa durante terceiro ato, enquanto o protagonista encontrou (naquele mesmo momento) uma foto específica que pode desestabilizá-lo. É simplesmente forçado.

Além disso, o filme não consegue focar em apenas um objetivo principal. A Lei da Noite ora quer ser um filme de máfia nos moldes clássicos, ora quer fazer uma remontagem histórica do crime no início do século XX. O longa quer incluir um pouquinho da velha disputa entre as máfias italianas e irlandesas, Ku Klux Klan, imigração dos cubanos, Lei Seca e apostas em cassinos, mas na real não se aprofunda em nada disso. Os discursos religiosos emitidos por Loretta Figgis e as disputas raciais, por exemplo, entram do nada na trama, levam o personagem para um lugar específico e saem como se outro grande nada tivesse acontecido.

Esse movimento cria uma legião de subtramas descartáveis e personagens irrelevantes, desperdiçando grandes atores em papéis sem desenvolvimento, carisma ou tridimensionalidade. Os dilemas internos que tentam refletir a necessidade da crueldade nos dois lados da guerra ficam restritos ao óbvio, enquanto Chris Cooper (Beleza Americana), Elle Fanning (Demônio de Neon), Brendan Gleeson (Na Mira do Chefe), Robert Glenister (Close to the Enemy), Chris Messina (The Newsroom), Sienna Miller (Sniper Americano), Zoe Saldana (Guardiões da Galáxia) e Clark Gregg (Agents of S.H.I.E.L.D.) não fazem nada além de recitar frases sem conteúdo ou impacto. Nem o próprio Ben Affleck (Argo) consegue passar alguma credibilidade com um personagem tão insosso que nem merecia estar no centro de toda essa confusão.

Esse amontoado de problemas prejudica a narrativa de uma forma que as acertadas escolhas estilísticas de Ben não conseguem mais salvar. São milhares de assuntos abordados sem um pingo de aprofundamento, muitos personagens presos em sentimentalismos baratos e uma discussão moral que se perde em personagens e diálogos mais do que caricatos. Os últimos minutos de A Lei da Noite são extremamente forçados e ainda insistem na ultrapassada sugestão de que o bandido precisa sofrer, deixando claro que o próprio Ben Affleck já conseguiu analisar a criminalidade e suas consequências com mais honestidade e força em seus trabalhos anteriores. Mais sorte na próxima, caro Benjamin…


OBS 1: Ben Affleck reclamou com a imprensa que ninguém assistiu o seu filme, mas colocou um filme pesado e lento de máfia para competir com Rogue One e Moana em pleno Natal. Aí fica difícil…

OBS 2: A Warner mudou a data de estreia e fez uma campanha razoável para colocar o longa no Oscar, mas vou ser bem honesto. A Lei da Noite só merecia uma vaguinha em Figurino e olhe lá!