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Filmes

Crítica: LEGO Batman – O Filme

17 de fevereiro de 2017 - 11:00 - Flávio Pizzol

Melhor filme de super herói da DC?


Nós estamos vivendo tempos sombrios marcados por discursos voltados para a intolerância, ataques incontroláveis de violência, chamados “desesperados” pelo Batman vindos daqui do Espírito Santo e muitos problemas internos que arriscam a continuidade do atual universo compartilhado da DC . E, no meio de toda essa confusão, vale assistir um filme de super-herói que sabe tirar sarro de si mesmo, construir um plano de fundo levemente dramático e, acima de tudo, divertir o seu público. LEGO Batman entrega tudo isso acompanhado por uma deliciosa sopa de palhaço-cobra.

Seguindo o livrinho de regras para produzir um bom spin-off, o longa parte de vários conceitos já estabelecidos no universo LEGO para construir uma nova história em torno de um Homem-Morcego dedicado a impedir os planos de dominação do Coringa, o seu suposto arqui-inimigo. Quando Barbara Gordon assume o posto do seu pai na polícia com o objetivo de acabar com o crime de uma vez por todas, o herói precisa tomar algumas decisões que mexem com seus medos mais profundos.

A construção visual comandada por Chris McKay (co-diretor e editor de Uma Aventura LEGO) segue basicamente o mesmo padrão blocado, colorido e cheio de detalhes na animação das pecinhas. Isso não é nenhum problema, já que parte da graça dos filmes está justamente na forma como a movimentação de cada pequena parte se aproveita muito bem do 3D nas incríveis sequências dentro de Gotham City. As cenas de ação também são muito bem dirigidas, porém McKay parece utilizar todas as possibilidades com alguma moderação para dar espaço ao maravilhoso timing cômico da trama.

Logicamente, o roteiro escrito pelas muitas mãos de Seth Grahame-Smith (Orgulho e Preconceito e Zumbis), Chris McKenna (Community), Erik Sommers (Homem-Aranha: De Volta ao Lar), Jared Stern (Detona Ralph) e John Whittington (When We First Met) tem pleno conhecimento disso na hora de conduzir um texto que agrade todos os públicos. Muitas piadas parecem feitas sob medida para arrancar gargalhadas das crianças, enquanto uma dose de humor muito inteligente aquece os corações dos adultos nas brincadeiras com Marvel, DC, Adam West, Esquadrão Suicida e outras franquias de sucesso da Warner. Quase todo mundo que pertence ao estúdio dá as caras, incluindo até uma referência completamente inesperada aos clássicos do mestre Alfred Hitchcock.

Ao mesmo tempo, o maior acerto do roteiro está na forma como a sua construção narrativa gira em torno de um elemento presente constantemente nas HQ’s do Batman: a solidão. É claro que o filme traça uma caricatura do herói e traduz todo esse contexto com um olhar puramente cômico, no entanto isso não impede que os melhores momentos passem pela adaptação desse aspecto solitário pouco explorado em outros filmes ou pelos ótimos relacionamentos com Alfred, Barbara, Robin e Coringa. Este último, inclusive, é um bromance da melhor qualidade que abre espaço para as lições de moral sobre amizade que são quase obrigatórias nas animações.

Tudo isso ainda junta com a ótima dublagem nacional e culmina em um filme praticamente perfeito. A única coisa que faz falta aqui é aquele subtexto de aceitação social e manipulação midiática que enriquecia o discurso de Uma Aventura LEGO como poucos filmes conseguiram fazer na época. Por outro lado, LEGO Batman – O Filme sabe como reunir uma história simples, um visual espetacular e um rol de piadas magníficas em uma animação movida pela zoeira. Quero muito que a Warner acerte a mão no seu universo sombrio e realista, mas (por enquanto) o mundo das pecinhas animadas nos presenteou com o melhor filme de um herói da DC desde O Cavaleiro das Trevas.


OBS 1: A Warner já está preparando um derivado da franquia Ninjago e uma continuação para Uma Aventura LEGO para os próximos anos. Ou seja, o estúdio não é um idiota total quando o assunto é construção de universos…

OBS 2: Mesmo gostando bastante da dublagem nacional, eu preciso assistir esse filme legendado para conferir os trabalhos de Will Arnett, Michael Cera, Rosario Dawson, Ralph Fiennes, Zach Galifianakis, Jenny Slate, Adam Devine, Conan O’Brien, Eddie Izzard, Seth GreenJemaine Clement, Channing Tatum, Jonah Hill, Mariah Carey e muitos outros atores talentosos. É muita gente boa reunida no mesmo trabalho!