AODISSEIA
Filmes

Crítica: La La Land – Cantando Estações

17 de Janeiro de 2017 - 12:27 - Flávio Pizzol

O nascimento de um clássico instantâneo


Lá vou eu começar mais um texto falando que não sou um grande fã de musicais, mas dessa vez preciso esclarecer que meu preconceito está quase todo direcionado para aqueles longas em que os personagens substituem os diálogos por canções. La La Land – Cantando Estações não faz parte desse grupo nem se apoia nas músicas em si para existir, mas entrega uma história romântica, divertida e emocionante que tem tudo para ficar marcada nos autos desse gênero tão consagrado no início da indústria de Hollywood.

Assim como já vimos em Rock of Ages, Glee e tantas outras produções, a trama gira em torno de Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling), dois jovens sonhadores que buscam realizar seus respectivos sonhos na tão disputada Los Angeles. Após uma série de encontros inesperados e pouco cordiais, eles acabam se apaixonando de forma arrebatadora e dividindo esse caminho cheio de pedras – e música – em busca de algum sucesso na cidade das estrelas.

Um ponto de partida bastante clichê que, superficialmente, pode fazer com que o longa seja interpretado como um romance comum e antiquado que resolve alguns questionamentos da maneira mais corrida possível e entrega um final um pouquinho apelativo. Até concordo que tudo isso aparece em doses homeopáticas, mas La La Land passa a ser muito mais quando reúne comédia, romance e drama com perfeição, entrega músicas recheadas de originalidade, brinca com o próprio mercado em que está inserido e ainda discute temas simbólicos como a busca incessante pela realização de um grande sonho. Fruto de mais um trabalho primoroso de roteiro e direção do jovem Damien Chazelle (Whiplash: Em Busca da Perfeição).

Em seu segundo trabalho de grande destaque, o diretor leva o público para uma viagem cheia de referências a produções clássicas, nostalgia e um toque oportuno de modernidade. Os personagens estão sempre citando outros longas da era de ouro e as sequências musicais remetem incessantemente a filmes do gênero, enquanto a câmera reflete esse dicotomia entre antigo e moderno nas próprias escolhas cinematográficas. Chazelle se apropria de longos takes sem cortes para acompanhar os personagens, dar fluidez para as coreografias e passear pelo cenário com leveza, mas não perde algumas chances de inserir a câmera de mão, transições próximas dos clipes da década de 80 e alguns cortes bruscos que se tornaram comuns em longas mais novos, como Chicago e Os Miseráveis.

E essa discussão que percorre o filme ainda ganha contornos inesperados e atravessa a barreira da metalinguagem quando os personagens enfrentam um dos dilemas mais velhos do cinema clássico: aderir a modernidade ou manter o seu apego apaixonado pelo tradicionalismo. Aqui os alvos são o teatro, o cinema e, principalmente, o jazz e sua possibilidade de conquistar os jovens ao misturar batidas eletrônicas muito mais populares. A resposta encontrada faz sentido, mas esse é um tópico que sempre chama minha atenção pela sua importância nesse contexto cultural cheio de transições.

Fora isso, os aspectos técnicos do longa também merecem muitos aplausos. A sonorização é simplesmente brilhante, a fotografia de Linus Sandgren (Trapaça) utiliza cores diferentes para realçar as estações e a própria cidade, a edição de Tom Cross (vencedor do Oscar por Whiplash) encontra a fluidez necessária e a trilha musical – banhada por muito jazz – composta por Justin Hurwitz (também de Whiplash) já ganha o título de mais viciante do ano. As letras possuem importância narrativa, as sequências entram nos momentos certos e as coreografias – quase todas filmadas em incríveis planos-sequência – são mais do que encantadoras.

E, pra finalizar, a escolha de elenco casa perfeitamente com as propostas do longa. Emma Stone (Birdman) e Ryan Gosling (Dois Caras Legais) convencem como dançarinos, cantores e pianistas, possuem carisma para carregar o filme nas costas e ainda repetem uma química que já funcionou em outras duas oportunidades. O respectivo desenvolvimento dos personagens pode até ser colocado em cheque em alguns momentos, mas a força do casal acaba se sobressaindo, conquistando o público e despedaçando os corações mais carentes com um final inesperado.

A condução de todos esses aspectos afasta o filme dos clichês, envolve o espectador de uma forma poderosa a cada sequência musical e passa uma quantidade de boas vibrações que renova as esperanças de qualquer um. É quase impossível sair da sessão sem rir, cantar City of Stars, se emocionar, torcer pelo sucesso dos protagonistas ou, pelo menos, voltar a acreditar nos seus sonhos. La La Land é aquele filme que já nasce pronto para brilhar, hipnotizar, figurar as listas de melhores do ano e levar prêmios mais do que merecidos na temporada do Oscar.


OBS 1: As participações de J.K Simmons e John Legend são muito bem vindas e divertidas.

OBS 2: Damien Chazelle merece vários prêmios de direção só pela coordenação daquela quantidade absurda de dublês e dançarinos no plano-sequência de abertura. Incrível!