AODISSEIA
Filmes

Crítica: Kubo e as Cordas Mágicas

15 de outubro de 2016 - 13:00 - Flávio Pizzol

Quem tiver que piscar, que pisque agora


kubo-e-as-cordas-magicasEssa é a frase que (literalmente) começa o filme, enquanto a tela está ainda está preta e o público disperso em suas conversas cotidianas. Isso já impressiona e chama bastante atenção, mas ninguém faz ideia do quão importante é isso até entrar de cabeça nessa belíssima fábula desenvolvida em stop-motion e apoiada nos milenares ensinamentos orientais. É um envolvimento tão mágico que eu vou te avisar mais uma vez: pisque antes da sessão, porque vai ser impossível fazer isso quando Kubo e as Cordas Mágicas começar.

Nessa animação, acompanhamos um menino simples – o Kubo do título – que vive para cuidar da mãe doente, enquanto conta as histórias para os moradores da sua vila durante o dia. No entanto, ele desconhece a verdade por trás desses contos e, depois de quebrar uma das regras criadas por sua mãe, precisa iniciar uma jornada muito perigosa para encontrar uma armadura misteriosa e indestrutível.

Apesar de basear uma grande parte da sua trama na clássica (e tantas vezes repetida) jornada do herói, o roteiro de Marc Haimes e Chris Butler (ParaNorman) não se limita a isso e o resultado é simplesmente maravilhoso. A dupla mostra que sabe como conduzir bons momentos de aventura, piadas e dramas familiares complexos, no entanto realmente acertam em cheio ao fazer tudo isso com uma sutileza fora do comum. O protagonista ajuda a mãe a viver com um tipo de Mal de Alzheimer, lida com a morte mais de uma vez durante a projeção e enfrenta outros problemas incomuns em filmes infantis, mas as motivações e o desenrolar são tão sensíveis que conseguem emocionar pessoas de todas as idades.

Cada momento acontece naturalmente e o fato do protagonista ser um contador de histórias que não consegue chegar ao final também contribui muito com isso. Através dessa bela sacada, Marc e Chris conseguem utilizar o misticismo de uma forma mais orgânica, entrecortar a trama principal com outras histórias curtas que muitas vezes funcionam com alivio cômico e ainda coroar tudo com um contexto autorreferencial que acompanha o filme do início ao fim.

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A química entre o Kubo, a Macaca (a textura dos pelos dela são incríveis) e o Homem-Besouro prende a atenção com maestria e todas as conexões entre as histórias vão sendo reveladas aos pouquinhos, culminando em um terceiro ato que me deixou sem palavras. Apesar de uma das surpresas ficar bem óbvia a partir de um certo momento do filme, você pode ficar tranquilo porque nada é o que parece no filme. Desde do sino que toca na vila nos primeiros minutos até as lanternas mágicas, tudo tem outros significados e funções na amarração do filme.

Além disso, o é visualmente impecável. A direção – a cargo de iniciante Travis Knight – conduz as cenas de forma exuberante e cria momentos gigantescos com o stop-motion, enquanto se situa em um cenário saído diretamente das produções de Akira Kurosawa. É um trabalho complexo e minucioso (revelado em parte nos créditos finais) que cria seus personagens em torno das xilogravuras e origamis tradicionais do Japão, entrega um jogo de iluminação perfeito e preenche a sala com uma trilha sonora simples e quase toda apoiada no violão de três cordas (shamisen) do próprio Kubo.

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Pra completar a dublagem brasileira faz um trabalho decente, considerando que estavam substituindo nomes como Charlize Theron, Matthew McCounaghey, Rooney Mara e Ralph Fiennes. As vozes podem soar um pouco infantis em alguns momentos, mas não é suficiente para tirar o foco de um filme praticamente perfeito. Kubo e as Cordas Mágicas é uma experiência mágica e imersiva que conquista todos os públicos com cores vibrantes, cenas de ação bem coreografadas e vários ensinamentos sobre família. Que a Disney me perdoe, mas Kubo é uma produção preciosa e diferenciada que tem potencial de ser a melhor animação do ano.


OBS 1: Eu me surpreendi bastante com a forma como os ensinamentos e a cultura japonesa entram na trama, principalmente como suporte para o crescimento espiritual nos momentos de drama.

OBS 2: As vilãs interpretadas por Rooney Mara tem um visual particularmente assustador.

OBS 3: Eu tenho quase certeza que eles usaram carne de peixe de verdade na cena da pesca, porque é impossível conseguir aquela textura artificialmente.


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