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Filmes

Crítica: Kong – A Ilha da Caveira

11 de Março de 2017 - 15:07 - Flávio Pizzol

Ajoelhem-se perante o rei!


Os monstros gigantes surgiram no cinema como uma metáfora para a natureza que demonstra sua força quando precisa confrontar seres humanos. Aquela sensação de que o mar tem poder suficiente para retomar uma cidade aterrada é um elemento presente nas várias adaptações desse subgênero, mas as mudanças de pontos de vista nunca foram capazes de impedir seu desgaste natural com o passar dos anos. Tudo parece ter mudado um pouquinho depois que a Legendary Pictures abraçou todas as franquias desse tipo para criar o seu próprio – e colossal – universo expandido que já inclui Círculo de Fogo, Godzilla, A Grande Muralha e agora Kong – A Ilha da Caveira.

A vez do nosso gorila gigante favorito (que ainda não é rei) chega quando satélites americanos localizam uma ilha inexplorada no Oceano Pacífico. Aproveitando o fim da Guerra do Vietnã e os conflitos gerados pela Guerra Fria, um grupo de cientistas embarca em uma missão para descobrir os segredos do lugar, levando na bagagem mistérios do passado, um comandante que não sabe fazer nada além de vencer batalhas e um pelotão do exército que só quer voltar para casa.

O roteiro escrito por Dan Gilroy (O Abutre), Max Borenstein (o já citado Godzilla) e Derek Connolly (Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros) segue essa trama da forma mais simplificada possível, incluindo alguns clichês recorrentes, viradas de trama que não tem a pretensão de serem grandes plot twists e personagens construídos sob arquétipos ou estereótipos clássicos dos filmes de guerra. Temos o herói de passado misterioso, a mocinha que não aprova a guerra, o piloto que só quer voltar para encontrar o filho, o cientista que acredita no desconhecido, o jovem que não se alistou por suas crenças, o comandante que ainda sofre com as consequências do campo de batalha, o companheiro que se sacrifica e até o soldado desaparecido nos confins da selva.

O longa já deixa praticamente estabelecido que não pretende arriscar ou fugir desses elementos óbvios, porém não abre mão de atribuir arcos próprios para cada personagem enquanto recria (superficialmente) as críticas sobre os efeitos da guerra e a banalização bélica dos EUA que marcaram os anos 70. Os protagonistas interpretados por Tom Hiddleston (Thor) e Brie Larson (O Quarto de Jack) estão bastante deslocados e alguns soldados não ganham tempo suficiente para serem marcantes, mas a tendência é que o público crie alguma relação com a maioria deles. Nesse quesito, o destaque fica para o antagonismo exagerado de Samuel L. Jackson (Os Oito Odiados), a indecisão crível de Thomas Mann (Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer) e o alivio cômico perfeito de John C. Reilly (O Lagosta).

No entanto, eu posso garantir que isso tudo isso é completamente jogado para escanteio quando o verdadeiro dono da porra toda aparece (ao contrário do que acontece em Godzilla, ele precisa só de uns dez minutos para dar as caras). E, pra melhorar, a aposta dessa vez é em um Kong mais jovem, mais gigantesco e muito mais imponente, que acaba contrastando sutilmente com o design quase pré-histórico dos outros seres que habitam a ilha. Como já era de se esperar, os efeitos especiais dão um show particular, criam sequências de luta inesquecíveis e ajudam o público a entender os motivos que colocam o personagem no posto de líder da ilha.

A maior parte desse mérito merece ir para Jordan Vogt-Roberts (do independente Os Reis do Verão). Ele tem um jeito energético de comandar a mise-en-scène, explorar ângulos e planos que tentam fugir do comum sempre que possível, brincar com as cores saturadas de Larry Fong (Super 8), aplicar a câmera lenta de forma consciente e alternar o tom do filme de acordo com a necessidade do próprio desenvolvimento. O longa aposta na tensão e na ação em grande escala durante a maior parte do tempo, mas também aproveita seus momentos mais singelos para arrancar risadas e sustos sem soar estranho ou quebrar o ritmo do longa.

Essa “mistureba” bem planejada de Kong é fruto principalmente das referências de primeira linha que o diretor aplica ao seu trabalho. Kong combina um pouco das aventuras de Steven Spielberg com a divisão por fases dos games, os ângulos dos quadrinhos, os universos fantásticos doa animes, as motivações de Platoon e, obviamente, a poesia visual que Apocalypse Now conseguiu extrair da guerra. O clássico de Francis Ford Coppola está no nome do protagonista, na iluminação dos vôos de helicóptero, no formato do barco usado pelos sobreviventes e até em algumas soluções narrativas. Só não rola um trechinho das óperas de Wagner porque a trilha sonora é preenchida por uma seleção de músicas setentistas de tirar o fôlego.

No entanto, tudo isso só funciona por um motivo muito simples: Vogt-Roberts quer fazer um verdadeiro filme de monstro. Ele não se arrisca, porém sabe como aproveitar a simplicidade do roteiro, deixar o espectador ligado por duas horas de projeção e levar o subgênero para lugares nunca explorados anteriormente. O segundo ato pode até ser um tanto arrastado e os protagonistas pouco desenvolvidos, mas não existe recompensa melhor do que ver King Kong bater no peito, chamar a responsabilidade de rei para si e preparar o terreno para um delicioso confronto. Meus ingressos já estão comprados para tudo que a Legendary fizer com esse universo!


OBS 1: Até os planos do rádio no helicóptero e o reflexo da bomba nos óculos do soldado são homenagens diretas a Apocalypse Now. Só ficou faltando o personagem do Samuel L. Jackson mandar um “eu adoro o cheiro de napalm pela manhã”.

OBS 2: A sonoridade e a imersão proposta pelo 3D são elementos importantíssimas para o filme, então procure uma sala de primeira linha.

OBS 3: O filme tem uma cena pós-créditos que prepara justamente o terreno para o tão comentado confronto contra o Godzilla e outras espécies que já dominaram a Terra…