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Filmes

Crítica: Kingsman – Serviço Secreto

9 de março de 2015 - 23:50 - Flávio Pizzol

 

Eu já tinha assistido uns 20 minutos desse filme na CCXP e tinha ficado bem impressionado. Entretanto, mesmo se não tivesse tido esse primeiro contato, eu teria corrido para assistir esse filme simplesmente para ter o prazer de assistir uma violência cartunesca nada comum, Colin Firth protagonizando cenas de ação ensandecidas e uma homenagem – ou paródia em alguns momentos – aos filmes de espionagem que fazem tanto sucesso. Essa mistura vale a pena, supera as expectativas e faz desse um dos possíveis melhores do ano.

 

O filme conta a história de um grupo de espiões ligados ao setor privado e inspirados nos Cavaleiros da Távola Redonda que atuam no mundo inteiro desde a Primeira Guerra Mundial. Depois que um dos membros morre, eles iniciam a busca por um novo membro e Galahad sugere que o filho problemático de um ex-agente entre para o teste ao mesmo tempo em que um vilão louco tenta botar em ação seu plano genocida.

 

O roteiro do filme – como era de se esperar – é recheado de clichês e situações batidas, mas isso não incomoda nem um pouco. Pelo contrário, isso acaba sendo um dos aspectos mais ricos e interessantes do texto, porque está a serviço da mais simples e pura zoeira. É daqui que saem as melhores tiradas cômicas do filme, as referências aos filmes de espionagem, os gadgets, os vilões espalhafatosos de motivações simples e tudo mais que você imaginar.

 

 

No entanto, o roteiro não se perde nisso e acaba deixando todo o resto de lado, como faz, por exemplo, a trilogia Mercenários. O texto, escrito por Matthew Vaughn e Jane Goldman, sua colaboradora habitual desde Stardust, tem um desenvolvimento simples e que pode até ser considerado óbvio por alguns, mas sabe a hora exata de usar as referências, de desenvolver sua própria trama, de explorar a ação, de fazer piadas e de construir a tensão. É simples, mas é certeiro de uma maneira que nem todos os roteiros conseguem ser.

 

Deixando tudo encaixadinho dentro da narrativa, o exagero do filme fica por conta da direção de Vaughn, que cria cenários super coloridos, cenas muito bem trabalhadas e uma ação que não tem medo se ser completamente cartunesca. Não tem algo mais 007 e cartunesco do que uma ajudante de vilão com espadas no lugar das pernas e Matthew não tem medo de usar isso ou de apelar para as câmeras lentas para provar que o filme não se leva a sério.

 

 

Mesmo mantendo um estilo constante durante toda a projeção, as cenas de ação (que não poucas…) são os momentos onde percebemos que Vaughn se diverte de verdade. Ele cria cenas visualmente perfeitas e intensas através de um jogo entre a edição mais rápida e planos mais longos que dão um aspecto diferenciado a tudo o que é feito. Tem uma cena de ação na igreja que merece aplausos por sua filmagem complexa em plano-sequência e por sua grande quantidade de violência estilizada.

 

Violência essa que marca presença de uma maneira inesperada dentro do filme, porque o trailer não dava nenhum indício de que teríamos todo aquele sangue derramado na tela. É verdade que Matthew Vaughn sabe disfarçar a violência através da câmera lenta e outros recursos diversos, mas o filme continua sendo violento, pesado e até chocante sob esse ponto de vista.

 

 

O elenco, além de abusar da subversão de esteriótipos, é uma coisa de outro mundo. As duas maiores surpresas ficam por conta dos inspiradíssimos Colin Firth e Samuel L. Jackson. O primeiro, que tem uma carreira restrita a dramas e comédias românticas, está perfeito tanto no papel de mentor e gentleman, quanto no de assassino e espião altamente treinado que tem cenas de ação muito loucas. Enquanto o segundo marca por um papel um pouco menos espaçoso do que o normal, já que Samuel esconde sua voz retumbante sob uma hilária língua presa para viver um vilão que passa mal se ver sangue.

 

Mas eles não os únicos que se saem bem. Ainda temos bons momentos dos gênios Michael Caine e Mark Strong, pequenas pontas de Jack Davenport e Mark Hamill e um ótimo início de carreira para a bela Sophie Cookson e Taron Egerton. Sophie tem um papel interessante que mostra que personagens femininos podem ter bons papéis sem ter que se apoiar em homens e Taron surpreendente como o divertido e esperto Eggsy, mesmo que achando seu desenvolvimento pudesse ser um pouquinho melhor.

 

 

Um filme muito divertido e cheio de uma ação insana, que traz de volta para os cinemas aqueles espiões que não levavam as coisas a sério. Acaba sendo uma paródia bem inteligente e uma ótima homenagem para vários longas que marcaram gêneros e gerações sem perder o que o cinema de hoje pode proporcionar em efeitos, edição, fotografia e trilha sonora. Kingsman funciona, prende o espectador, é forte e só não é perfeito por umas duas piadinhas que não encaixam. A violência talvez afaste uma parte do público, mas Kingsman merece ser visto por ser o primeiro melhor filme desse ano.