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Crítica: Kingsman – O Círculo Dourado

Manchete do dia: "Espiões são pegos na armadilha da continuação, mas escapam"

29 de setembro de 2017 - 02:18 - Flávio Pizzol

 

Kingsman – Serviço Secreto é um filme que marcou marcou bastante; não só por autoparodiar de forma brilhante o gênero de espionagem e acabar sendo uma das melhores surpresas de 2015, mas também por conter as primeiras cenas exclusivas que vi como imprensa cadastrada na CCXP. Só isso já seria o suficiente pra deixar a ansiedade para a continuação lá no teto, e essa tende a ser um dos poucos problemas do longa – ao lado de certas armadilhas clássicas das continuações. Mesmo assim, já vou dar um spoiler da paz: O Círculo Dourado continua sendo uma das produções de ação mais exageradas, despretensiosas e bem filmadas dos últimos anos.

 

Depois de uma cena de abertura completamente insana, a trama começa de fato quando todas as sedes dos Kingsman são destruídas por uma supervilã envolvida com o tráfico de drogas. Apenas Eggsy (ou Galahad) e Merlin sobrevivem, tendo que recorrer a uma agência similar chamada Statesman e localizada no meio dos Estados Unidos. Só então eles podem recarregar as energias, descobrir novos segredos e se preparar para salvar o mundo outra vez.

 

 

A travessia do Atlântico e a inclusão de uma motivação curiosa da antagonista são os elementos que funcionam como peça de expansão da franquia, mostrando, assim como John Wick 2, que o escopo daquele tipo de espionagem não está restrito ao contexto britânico. É verdade que muito pouco é alterado em termos de estrutura narrativa, mas o filme faz uma reciclagem válida (e, de certa forma, honesta com sua proposta comercial) de tudo que agradou o público anteriormente, incluindo o humor sujo, a ação surtadíssima e os personagens que refletem estereótipos de suas profissões ou nacionalidades. Dentro desse aspecto, os Statesman um espelho caricato dos protagonistas faz parte da proposta da franquia e não merece ser crucificado pela relativa falta de desenvolvimento de personagens que estão ali apenas para serem preparados pro futuro.

 

O elenco – bem mais grandioso – abraça esse espírito com perfeição e carisma mais uma vez. Taron Egerton (Voando Alto) aproveita que Eggsy é um dos poucos personagens com um arco demarcado para carregar o longa nas costas; Mark Strong (O Jogo da Imitação), Halle Berry (X-Men) e Colin Firth (O Discurso do Rei) cumpre seu papel de coadjuvantes de forma emotiva (alguns deles) e funcional; Julianne Moore (Para Sempre Alice) se destaca com os olhares apáticos de uma vilã que só busca reconhecimento; Pedro Pascal (Narcos) assume a dianteira dos agentes americanos com a personalidade melhor construída; Elton John (Os Simpsons) surge com uma ponta que, apesar de repetitiva, deixa claro o tom escrachado de Kingsman; Jeff Bridges (A Qualquer Custo), Channing Tatum (Anjos da Lei) e Michael Gambon (Ave, César!) estão à vontade com suas participações curtas e cachês garantidos; e, por fim, até a sueca Hanna Alström (Crossing Lines) ressurge para continuar dando voz aos diálogos sexuais da Princesa que influenciou a mente do protagonista com suas propostas indecentes.

 

 

Na mesma vibe, a direção de Matthew Vaughn (Kick-Ass) mantém o exagero, a irreverência estética e os movimentos de câmera insanos (aliados a edição afiada de Eddie Hamilton) que marcaram a produção original, crescendo o campo de atuação na medida do possível. Contando com efeitos especiais visivelmente aprimorados e uma trilha sonora magnífica, o diretor constrói peças de ação que surgem como os pontos altos de Kingsman – O Círculo Dourado. Elas estão posicionadas no momento certo e levantam o filme – e o astral do público, obviamente – quando ele chega perto de escorregar naquelas cascas de banana que foram jogadas pela própria produção.

 

Em outras palavras, esse mesmo exagero que pode ser considerado intrínseco à franquia surge como uma faca de dois gumes na continuação, justamente nas tais armadilhas que visam crescer o escopo da produção sem pensar no limite ou nos roteiros. O filme tem uma duração longa demais, subtramas demais, piadas repetitivas demais e momentos escatológicos demais. Considerando a aura despretensiosa do filme, seria uma espécie de estupidez reclamar, por exemplo, da forma bizarra como trouxeram Colin Firth de volta, porém se torna necessário admitir que toda a sua participação é completamente desnecessária pra trama e ainda colabora com a lista de momentos que roubam a objetividade de Kingsman. Assim como é necessário dizer que levar o plano-detalhe da vagina de uma mulher ao extremo ultrapassa alguns limites de bom senso que também soam deslocados.

 

 

Eu sei que o filme não se leva a sério e, por isso mesmo, me senti na obrigação de ignorar a aparição de gadgets desconhecidos de acordo com a necessidade do roteiro e diversos outros exageros, porém é impossível não deixar claro que Kingsman – O Círculo Dourado tem diversos problemas que o tornam bastante inferior ao primeiro. Um deles acaba sendo a ausência do fator originalidade, já que o espectador já sabe o que esperar de uma continuação como essa. Talvez seja até desnecessária dentro de alguns contextos de Hollywood, mas consegue vencer os percalços para encontrar seu lugar como um filme pipoca de ação acima da média. Se esse é o seu objetivo, qual é o problema?