AODISSEIA
Filmes

Crítica: It – A Coisa

Enfrente seus medos, sejam eles quais forem...

15 de setembro de 2017 - 19:24 - Flávio Pizzol

 

O medo é algo que está presente na vida de todo ser humano, assumindo – dentro de sua infinidade de formas – tanto uma função vital na nossa sobrevivência, quanto o aspecto de um obstáculo que precisa ser enfrentado. It – A Coisa entende a amplitude desse sentimento (não é a toa que o monstro é denominado por um pronome que pode ser usado para praticamente tudo) e seu potencial dentro do universo do terror. No entanto, apoiado pelas ideias do mestre Stephen King, esse filme vai além e cria um belíssimo conto sobre amadurecimento, perda, bullying e amizade.

 

Assim como no gigantesco livro que o originou, o longa concentra quase toda atenção no Clube dos Perdedores – traduzido por aqui como Clube dos Otários – e nos seus membros, que fazem parte da faixa etária que mais desaparece na cidade: as crianças. Eles são os responsáveis por enfrentar seus maiores medos para derrotar o palhaço Pennywise, mas também são a principal força motriz de uma produção que não comete um erro sequer dentro desse aspecto.

 

 

Os diálogos cheios de humor injetam leveza ao filme, o clima nostálgico remete constantemente ao sucesso de Stranger Things (as criações de King são referência declarada da série e a escalação de um dos garotos não é aleatória), e a construção deles como indivíduo e grupo conquistam o público logo de cara. O argentino Andy Muschietti (do terror Mama) entende a importância disso, trabalha o clima juvenil com calma e usa todo o tempo necessário para fazer com que o público se importe com cada um deles. Alguns são obviamente mais desenvolvidos do que outros, mas todos funcionam de uma forma que facilita o relacionamento com o espectador, a compreensão de suas atitudes e torcida tanto pela superação dos obstáculos, quanto pela manutenção da amizade.

 

A escalação dos atores acompanha esses acertos, porém aqui a falta de aprofundamento prejudica certos atores. Jaeden Lieberher (Um Santo Vizinho), Jeremy Ray Taylor (Alvin e os Esquilos: Na Estrada),  a quase novata Sophia Lillis (Objetos Cortantes) e o próprio Finn Wolfhard (Stranger Things) se destacam com as personas mais complexas e dinâmicas, enquanto Chosen Jacobs (Hawaii Five-0), Jack Dylan Grazer (Tales of Halloween) e Wyatt Oleff (Guardiões da Galáxia) ficam presos a estereótipos mais batidos. Isso não esconde o fato de que Grazer apresenta um timing cômico espetacular, mas também não permite que ele realmente brilhe como Sophia faz em sua subtrama envolvendo abuso sexual.

 

 

Do outro lado do ringue (ou esgoto), temos Pennywise, a personificação do mal brilhantemente encarnada por Bill Skarsgård (Atômica). Ele tem uma presença de cena que mantém a sensação de ameaça e medo em alta graças, em parte, a uma sequência inicial que pode entrar para a história como uma das grandes apresentações de vilão do cinema. No entanto, apesar de se sustentar muito bem nos diálogos e na caracterização repulsiva, o palhaço perde boa parte de sua força maligna quando a direção pesa a mão nos efeitos digitais com o único objetivo de ampliar o jumpscare. O personagem não precisava disso, mas essas escolhas só reforçam minha teoria de que o pior aspecto de It está justamente no elemento do terror.

 

A direção de Muschietti – fã inegável do material original – transita muito bem entre o suspense, o drama adolescente e a comédia (o segundo ato é muito engraçado), mas curiosamente se enrola um pouco mais quando chega a hora de trabalhar o medo. Ele sabe coordenar o jogo de câmeras de maneira inventiva e construir aquele clima de tensão que deixa o espectador na ponta da cadeira, não se engane, porém repete exaustivamente a mesma estrutura narrativa nas alucinações, abusa das técnicas de jumpscare mais batidas (umas duas até funcionam, mas perde o impacto no decorrer do filme) e, como já disse, pesa a mão no uso de uma computação gráfica que contrasta com uma construção de cenários realista e praticamente perfeita.

 

 

Esses pequenos erros incomodam em alguns momentos e quase tornam o filme arrastado, mas a verdade é que It – A Coisa consegue se sustentar, manter o público interessado por longos 135 minutos e despontar como uma adaptação digna- e nostálgica – de Stephen King. O roteiro é muito consciente e consistente (as sacadas de dividir as linhas temporais e diminuir as explicações mitológicas são ótimas), a direção sabe misturar emoção no meio do terror fantasioso e o elenco constrói uma intimidade que vai tornar o desenvolvimento da segunda parte muito mais fácil. Pode não ser a obra-prima do medo que nomeia o livro e o telefilme da década de 90, mas entra certamente na lista de melhores longas de terror do ano.