AODISSEIA
Filmes

Critica: Interestelar

21 de novembro de 2014 - 13:00 - Flávio Pizzol

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Um ficção científica pura. Muita física, dobras espaciais, viagens no tempo e tudo o que os fãs podem querer é o que o diretor Christopher Nolan apresentou em seu novo filme. Uma obra interessante que consegue entreter sem perder aquele contorno complexo e científico.

O filme se passa em um futuro onde o planeta Terra está com os dias contados. A única salvação é apresentada quando uma anomalia gravitacional leva Cooper, um ex-piloto e engenheiro que virou um fazendeiro infeliz nesse novo mundo, para uma sede escondida da Nasa, onde está sendo construída uma nave para levar os seres humanos para outro planeta. A missão de Cooper e outros três astronautas é exatamente identificar que novo planeta possui as qualidades necessárias para abrigar nossa raça.

É uma história que na sua essência é muito parecida com boa parte das ficções que giram em torno de viagens espaciais. Toda essa metáfora com a humanidade, essa missão de reconhecimento, os buracos de minhoca e os momentos de contemplação já foi vista em muitas obras, em particular 2001: Uma Odisseia no Espaço. Sendo reconhecido pelo próprio Nolan como uma das suas grandes inspirações, muito do filme de Stanley Kubrick pode ser facilmente reconhecido em Interestelar, mas existe uma diferença muito clara que se sobressai no cinema de Nolan e acabou sendo o que mais me incomodou aqui.

Enquanto a obra de 1968 trabalhava muito mais com o desconhecido, deixando mais dúvidas do que explicações, esse filme é muito mais didático, sequenciado e arrumadinho. Em certo grau, eu aceito que isso é importante para o grande público (desacostumado com filmes desse tipo ou desconhecedores de física teórica) consiga acompanhar o filme, entretanto isso passa a incomodar quando é repetido ao extremo. Para dar um exemplo, o roteiro repete pelo menos umas 5 vezes explicações sobre o buraco de minhoca, enquanto o clímax tem um acontecimento importante que soou ocasional demais por não ser explicado. O pior é a falta de nivelamento desse didatismo.

Faltou só isso mesmo, já que o restante do roteiro me agradou muito. O primeiro ato passa muito rápido e apresenta e desenvolve de maneira certeira, sem rodeios e emocional, as personalidades de Cooper e seus filhos. Depois que entramos na nave, o filme perde em agilidade, mas não fica menos interessante. Aqui Chris e seu irmão, Jonathan Nolan, lidam muito bem a abordagem das questões éticas e as discussões sobre fé, amor e os limites da ciência, entrecortando tudo com cena de ação e boas reviravoltas.

Todos esses pontos de virada são construídos com sutileza, sendo que podem ser até percebidos com certa antecedência. Já a última reviravolta vem de maneira um pouco surpreendente e dar um nó no público, mas vai sendo explicada aos poucos como tudo no filme. Isso não quer dizer que todos são obrigados a entender o longa, tanto que um cinema americano resolveu até vender combos para as pessoas verem o filme quantas vezes fosse necessário. Por já ser acostumado com esse tipo de filme, eu não tive problemas, mas não devo cobrar isso de todos.

O roteiro em si consegue prender atenção, mas o visual é realmente impressionante e completa o trabalho de manter o público atento. Usando muitos efeitos práticos, Nolan cria um visual bem realista (dentro do possível, claro) e texturizado que me surpreendeu positivamente. A junção entre os efeitos visuais, fotografia, direção de arte e a câmera de Christopher funciona com perfeição ao lado de uma das melhores sonoridades que eu já vi.

O que acontece nas caixas de som do cinema sempre é um fator importante para gerar tensão e ditar o andamento do longa, mas o que Chris faz aqui é inacreditável. Os efeitos sonoros são espetaculares e a trilha sonora de Hans Zimmer (uma ópera com toques eletrônicos) casam muito bem com o longa, ampliando a experiência sensorial que vem junto com um filme desse tipo.

Fechando as qualidades do filme, Nolan acerta em cheio na escolha e na condução do seu elenco. Matthew McCounaghey continua na sua saga de filmes fortes e atuações carregadas sem perder o pique. Cooper é um personagem complexo, que tem ótimos diálogos, questionamentos morais e pelo menos umas três cenas com grande capacidade de emocionar o público. Curiosamente – ou não – todas essas cenas estão ligadas de alguma maneira à sua filha Murphy. A despedida dele no fim do primeiro ato e o momento ele assiste os vídeos dos filhos são particularmente sufocantes.

A filha também é uma ótima personagem muito bem interpretada por Mackenzie Foy (10 anos), Jessica Chastain (30 e poucos) e Ellen Burstyn (na melhor idade). O destaque, considerando iclusive o tamanho da participação, é das duas primeiras, sendo que Mackenzie mostra uma carga emocional que não foi liberada quando ela foi mal conduzida na Saga Crepúsculo e Chastain comprova que é uma das grandes atrizes dessa geração.

O elenco ainda conta com boas participações de Casey Affleck, Michael Caine, John Lithgow, Wes Bentley, Matt Damon e Anne Hathaway. O maior destaque está nos dois últimos e eles não decepcionam. Anne também tem cenas bem emotivas e fortes, enquanto Damon faz um personagem que soa caricato mesmo tendo grande importância para o desenvolvimento do último terço do longa.

Algum destaque também merece ser dado para os robôs do longa, ainda que eles não parecem tão funcionais por conta da sua movimentação. Entretanto, sendo uma mistura inspirada na inteligência artificial criada por Douglas Adams em O Guia do Mochileiro das Galáxias junto com as funções de Hal 9000, eles ganham importância no decorrer do longa e conseguiram me conquistar.

É um filme que tem seu valor, ainda que a insistência no didatismo continue sendo algo comum e fraco dentro da carreira de Nolan. Não digo que o filme precisa ser como 2001, mas brincar com o mistério um pouquinho mais não atrapalharia. É como se o filme perdesse mais tempo explicando as regras do que usando-as e até quebrando-as. É um problema que não merecia estar ali e poderia ter deixado essa história curiosa e emocionante muito melhor. O bom perdeu a chance de ser espetacular, mas não perdeu seu valor.

OBS: Observem como vários aspectos visuais e até as características de personagens são completamente retirados de 2001. De fato, essa parece ter sido a grande inspiração de Christopher Nolan.