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Crítica: House of Cards – 4ª temporada

14 de março de 2016 - 15:00 - felipehoffmann

“Nós não nos submetemos ao terror. Nós o criamos.”


Talvez você encontre algum spoiler nesse texto. Talvez.

hocNão há como assistir House of Cards sem confrontar a realidade quase fictícia do mundo atual. Cada episódio é possível sobrepor com nossas vidas e até entender um pouco em que pé está o mundo. A corrida presidencial americana dá o tom principal na temporada e a verossimilhança assusta em certos momentos, justamente por acreditarmos que tais situações podem de fato ocorrer mesmo sem termos ideia de quando e onde.

Frank Underwood (Kevin Spacey) é um democrata de se duvidar, sem limites ou questionamentos para poder chegar onde está. Suas atitudes são justificáveis, contudo você não precisa concordar com aquele método nem que seja a melhor solução para o problema. São essas atitudes que botam em cheque a dramatização, pois suas ameaças intimidam mas não a ponto de uma pré-candidata, como  Catherine Durant (Jayne Atkinson), desistir de sua candidatura, por exemplo.

Há um foco considerável nos personagens coadjuvantes nessa temporada, muito em parte pela saída de Beau Willimon, criador e roteirista chefe da série. É possível perceber um cuidado maior de Beau em fechar todos os arcos que criou, até pra amaciar o terreno para a chegada de Frank Pugliese e Melissa James Gibson. Nesse aspecto, Claire (Robin Wright), ganha uma importância tamanha a ponto de repensar um futuro para a série, já sem Frank Underwood.

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Robin cresce em atuação (e direção), sempre serena, na medida certa para uma primeira-dama aspirante à vice-presidência. Só a responsabilidade de ser a mulher do presidente não basta para Claire. Suas pretensões estão acima disso e ela faz, assim como seu marido, o que precisa para chegar onde deseja. A morte da mãe, uma viagem diplomática e uma condução tensa com extremistas islâmicos fazem dela a queridinha democrata para ser o contrapeso de um instável candidato partidário.

Não há vilões em HoC, cada um tem seu interesse e é aí que Will Conway (Joel Kinnaman) aparece. O principal nome republicano para confrontar Underwood nas urnas, Conway é governador do estado de Nova York, ex-militar e muito presente nas redes sociais. Todos os seus passos são filmados e a imagem da família americana perfeita é a base para que Conway atrapalhe o presidente. Joel entrou muito bem na série e promete ter um personagem importantíssimo em mãos para o desenrolar da quinta temporada.

Além de um emaranhado e bem conduzido jogo de intrigas, a atual temporada também tem muito a dizer sobre questões que permeiam o debate público, em especial nos Estados Unidos. Ao passar da série, vemos a abordagem necessária de um maior controle sobre a comercialização de armas de fogo, sobre como a ascensão de um grupo como o estado islâmico (que aqui recebe outro nome) se deu em parte pela conivência do governo estadunidense e também sobre os perigos do uso irrestrito dos aparelhos de vigilância do governo.

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Alguns fatos podem incomodar, como o atentado ao presidente, feito por Lucas Goodwin (Sebastian Arcelus) ou então o esquecimento de alguns diálogos tensos, com possíveis ocorrências futuras. Cabe o questionamento da facilidade em que o ex-jornalista, recém liberto de uma prisão, consegue com facilidade se aproximar de Frank e efetuar vários disparos. Todavia os ocorridos não estragam, tampouco comprometem o desenvolvimento do conjunto.

– Nós podemos trabalhar com o medo.
– Yes, we can!

A temporada encerra sem o fim da corrida presidencial mas com a promessa de uma ferrenha guerra contra os terroristas e a necessidade de implantar o medo na população. Foi uma boa volta, muito melhor que a terceira temporada, e está nas mãos dos novos showrunners o fôlego necessário para retomar a caminhada rumo à presidência americana.


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