Crítica: Homem-Aranha – De Volta ao Lar

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Atenção: Aranha definitivo em formação!


O Homem-Aranha é o meu super-herói favorito desde que eu me entendo como gente e, por mais marcantes que sejam a maior parte os longas anteriores, o personagem nunca teve sua essência adaptada com perfeição para as telonas. Depois de uma tentativa de franquia deplorável nas mãos da Sony, o retorno para sua casa chegou para prometer e cumprir exatamente isso. Esse é o Homem-Aranha que me inspirou por tantos quadrinhos. Esse é o Homem-Aranha que me moldou uma parte do meu caráter como nerd e como pessoa. E, mesmo sem saber, De Volta ao Lar é a adaptação do aracnídeo que eu esperei durante esse tempo todo.

O acerto fundamental desse filme – que começa efetivamente logo após Capitão América – Guerra Civil – está justamente nessa reprodução quase exata do espírito do personagem, seja ele Peter Parker ou seu alter-ego. O primeiro é um jovem sem nenhuma popularidade (ou trejeitos descolados) que precisa sobre ao ensino médio como qualquer outro adolescente. A diferença é que ele também precisa, ao mesmo tempo, aprender a lidar com superpoderes e responsabilidades que muitas vezes fogem dos seus verdadeiros desejos. Apesar do filme não se prender a momentos dramáticos, essa sensação fica muito bem representada nas escolhas difíceis que o personagem precisa fazer durante a trama: guardar seu maior segredo ou ser a pessoa mais popular do colégio; ficar com a garota dos seus sonhos ou derrotar o vilão; e por aí vai.

Do outro lado, ele é simplesmente um super-herói inexperiente que viu seu mundo mudar, de uma hora pra outra, após lutar ao lado dos Vingadores (ou uma parte deles). Quando coloca a máscara, a energia do personagem joga isso na tela com um nível de humor que nenhuma das franquias tinha conseguido alcançar. A forma como as duas vidas se misturam cumpre seu papel como alívio cômico em 95% dos momentos, se aproxima o máximo possível dos quadrinhos e criar empatia verdadeira com o personagem. Assim como acontecia nos quadrinhos, eu entendo todas as reações do personagem, porque faria a mesma coisa se pudesse colocar uma máscara e sair “voando” pela cidade.

Jon Watts (do ótimo Cop Car) e sua equipe de roteiristas entende esse espírito em sua completude e não erram em um momento sequer da transposição, inclusive – e principalmente – na decisão de manter os pés no chão durante todo o longa. Fugindo das relações de causas e efeitos que transformaram Peter em uma espécie de escolhido na franquia anterior, eles constroem uma história de origem divertida que consegue realmente acompanhar um super-herói em plena formação. Isso é refletido com maestria tanto na forma como ele lida com a tecnologia (seja na edição de um mockmentary secreto ou nos tutorias do uniforme), quanto no fato de sua atuação estrar restrita aos prédios baixos do Queens. Ele ainda precisa evoluir, sem nenhuma pressa aparente, para ser aquele herói que se balança pelos intimidadores arranha-céus de Manhattan.

Dentro desse contexto, Tom Holland (O Impossível) entrega a combinação afiada de bom-humor, ingenuidade e uma introspecção pontual, deixando claro que tem tudo pra assumir o papel de showman da Marvel no decorrer das fases. Ao mesmo tempo, sua parceria com o surpreendente – e praticamente iniciante – Jacob Batalon também pode ser considerado uma das grandes sacadas positivas da produção, já que remonta uma relação icônica do universo Ultimate (que também dá as caras num certo easter egg sobre Miles Morales…) com muita química e doses inesperadas de humor. Enquanto Robert Downey Jr. banca o orientador perfeito em sua pequena participação, a dupla formada por Peter e Ned se tornam a força motriz do longa com sua representação palpável da amizade.

Outro grande acerto do filme está na construção do Abutre e, considerando que um grande herói sempre vem acompanhado de um bom vilão, o longa ganha muito com isso. Com uma motivação muito bem construída e totalmente integrada ao Universo Marvel, Adrian Toomes não passa de um ladrão de tecnologia alienígena que tropeça na tentativa do Aranha de se provar para os Vingadores. Ele não quer matar pessoas, destruir o mundo ou se vingar do protagonista por nada, e revela todas as reais intenções em uma das melhores cenas do filme. E muito disso vem, logicamente, da ótima atuação de Michael Keaton (Birdman).

O veterano usa sua voz ameaçadora para se tornar uma das melhores partes de um elenco de coadjuvantes que instiga o espectador a querer saber mais sobre cada um. Marisa Tomei (A Grande Aposta) funciona como uma Tia May mais cool, apesar de cumprir apenas uma cota estratégica de piadas com sua idade; Jon Favreau (Chef) retorna ao papel de Happy Hogan com algumas aparições bem divertidas; Laura Harrier (Os Últimos 5 Anos) e Tony Revolori (O Grande Hotel Budapeste) entregam seus estereótipos do colegial sem grandes dificuldades; e Zendaya (O Rei do Show) surpreende como a personagem mais aleatória da história do cinema. Isso sem contar com uma das melhores pontas já feitas por Chris Evans como Capitão América.

Por fim, os tão criticados trailers não chegam nem perto de estragar a experiência cinematográfica. Os vídeos realmente mostram bastante coisa, mas os 133 minutos de produção – que passam voando, por sinal – tem várias revelações escondidas, incluindo a melhor reviravolta já feita no MCU e um gancho perfeito para as próximas aventuras do Aracnídeo. A única coisa que pode incomodar um pouquinho é a ausência de cenas de ação que sejam realmente marcantes, porém isso não chega a se caracterizar como um problema por dois motivos principais:

  • em relação ao tema e a proposta, esse é um filme sobre formação do herói e não teria porque ele enfrentar algo tão grandioso assim logo de cara;
  • a cenas citadas estão realmente localizadas em continuações que buscam expandir o universo do próprio personagem;

Admito que o clímax, ao contrário das outras lutas, é realmente mal dirigido em relação a ambientação, posicionamentos de câmera e cortes confusos, mas não prejudica um conjunto que aborda a formação de um herói – e a vida de um adolescente – de forma crível, leve, divertida e recheada de boas surpresas. Não é o melhor longa da Marvel ou sequer o melhor do herói, mas Homem-Aranha: De Volta ao Lar também não tem pretensão de ser nada disso. Ele é propositalmente contido e focado em cumprir sua proposta: apresentar o melhor herói da Marvel da forma mais fiel possível ao que fez com que ele chegasse nesse lugar!


OBS 1: Não saia antes da última cena pós-créditos. Ela é simplesmente genial.

OBS 2: Homem-Aranha 2 ainda ocupa o posto de melhor filme de super-heróis da história por motivos que ultrapassam a essência do personagem


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