Crítica: Guardiões da Galáxia Vol. 2

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Existe o limite da insanidade e existe James Gunn…


Por mais difícil que tenha sido dar os primeiros passos, a Marvel Studios sempre apostou em sucessos certos até o anúncio do primeiro Guardiões da Galáxia. Ninguém parecia ter grandes expectativas em um grupo desconhecido, mas a bilheteria de $773 milhões de dólares garantiu duas coisas: liberdade total para James Gunn brincar com o universo espacial e pressão dos fãs que queriam ser surpreendidos mais uma vez. A resposta do diretor chega com um Vol. 2 mais frenético, mais colorido, mais divertido, mais insano e, principalmente, mais emocionante.

O segredo para fazer isso sem perder o controle pode ser percebido desde os créditos iniciais do longa: enquanto uma cena de ação grandiosa acontece em segundo plano, a câmera acompanha um inocente show de dança em plano-sequência. Mais do que um paralelo com a apresentação de Peter Quill ao som de Come and Get Your Love, essa cena já deixa claro que estamos vendo um filme focado puramente em personagens e suas distintas conexões familiares.

James Gunn não precisa – nem tenta – reinventar a roda em termos de estrutura narrativa, mas quebra alguns padrões da Marvel ao permitir que toda a grandiloquência das perseguições entre Guardiões, Soberanos, Ravengers e Ego seja apenas uma simples e deliciosa desculpa para desenvolver os protagonistas. Entre novas adições e participações maiores de velhos conhecidos, ele aproveita cada segundo para criar arcos individuais ou conexões que levam todos personagens para lugares emocionalmente inusitados. A tocante relação entre Yondu e Rocket fica entre os destaques, mas o filme não para por aí: até o Baby Groot (que já passou por toda sua evolução emocional no primeiro longa) deixa sua função puramente cômica e possui pelo menos um momento de crescimento no terceiro ato.

Apesar disso, Gunn conduz uma ópera espacial que não se leva a sério em nenhum momento. Quase todas as cenas mais emotivas são interrompidas por alguma piada e isso deixa de ser um ponto negativo quando impede que o longa caia em um melodrama exagerado. Guardiões da Galáxia Vol. 2 se permite ter alguns momentos de seriedade no terceiro ato, mas continua sendo um filme de comédia cuja a alma está depositada nas tiradas “levemente” sexuais, nos diálogos depreciativos e na insanidade cada vez maior que o diretor transforma tanto em humor físico, quanto em referências oitentistas que vão de Pac-Man a David Hasselhoff.

Sem nenhum limite imposto pela Marvel, a inventividade de James Gunn nas cenas de ação também alçou voos ainda mais surtados com os efeitos especiais de primeira linha, o design de produção multicolorido de Scott Chambliss (Star Trek) e a maquiagem perfeita que transforma milhares de raças alienígenas (inclusive Vigias) em criaturas reais. As referências do diretor para esse universo espacial são tão surtadas que chegam ao ponto de deformar rostos como se estivesse em um desenho animado ou colocar armas gigantes nas mãos dos protagonistas. Em outras palavras, não existe nada mais próximo da piração presente nos quadrinhos do que esse filme.

A escolha das canções que vão compor o novo Awesome Mix talvez seja a única coisa que fique um pouquinho abaixo do esperado, principalmente pela ausência de um hit tão grudento quanto Hooked on a Feeling. No entanto isso acaba sendo só uma impressão inicial, já que TODAS as letras e melodias – um pouco mais melancólicas – ajudam a contar a história. Guardiões funciona mais do que nunca como um musical e “Father and Son“, de Cat Stevens, tem o poder de arrepiar os braços de qualquer ser humano nos últimos minutos do longa.

E pra completar esse volume 2 com chave de ouro, o elenco está mais afiado do que nunca. Chris Pratt (Parks and Recreation) esbanja seu carisma habitual, mas reforça o aspecto emocional de Peter Quill ao lado de um Kurt Russell (Fuga de Nova York) que explora perfeitamente a composição freudiana do seu personagem. Zoe Saldana (Avatar) e Karen Gillan (Doctor Who) colocam seus dilemas em dia como verdadeiras irmãs fariam. Bradley Cooper (Sniper Americano) acrescenta novas camas emocionais na voz de Rocket e funciona perfeitamente ao lado de um Michael Rooker (The Walking Dead) ainda mais maduro.

Além disso, Dave Bautista (Blade Runner 2049) e Pom Klementieff (Oldboy: Dias de Vingança) são surpresas que merecem quase um capítulo a parte. A química entre Drax e Mantis é instantânea, profunda e simplesmente hilária, principalmente quando eles fazem piadas sem perceber o que estão fazendo. Isso sem contar as participações pequenas e importantíssimas de Sylvester Stallone (Rocky), Elizabeth Debicki (Evereste), Sean Gunn (Gilmore Girls: Um Ano para Recordar) e Vin Diesel (que está aqui porque sua voz só fica reconhecível nas cenas pós-créditos).

Guardiões da Galáxia Vol. 2 pode não ter o fator surpresa ao seu lado, mas no final das contas é uma experiência mais madura, emocional e divertida por áreas desconhecidas do universo espacial da Marvel. James Gunn conhece sua criação como poucos e potencializa exatamente o que os fãs querem: altas doses de ação despirocada, piadas que fogem propositalmente das regras, aprofundamento verdadeiro de personagens, descompromisso com a realidade e referências que vão além dos já citados anos 80. Talvez poderia se levar mais a sério, mas correria sérios riscos de ficar preso em limites que tirariam um pouquinho das surpresas encontradas em cada planeta. Esqueça a fórmula Marvel, aperte os cintos e aproveite a viagem mais insana já produzida pela Casa das Idéias!


OBS 1: Eu ainda estou anestesiado e realmente não sei se consegui expressar o tanto que gostei do filme no texto. Em todo caso, vou repetir de forma resumida: Guardiões da Galáxia Vol. 2 é foda pra caralho!!!

OBS 2: O filme tem cinco cenas pós-créditos que envolvem piadas e duas revelações muito importantes para o decorrer do MCU.

OBS 3: Guardiões da Galáxia consegue fazer com que até os créditos em si sejam extremamente criativos. A tela não fica preta em nenhum instante, sendo preenchida por mais referências, piadas visuais e até uma aparição surpresa de Jeff Goldblum.

OBS 4: ADAM FUCKING WARLOCK IS COMING!

OBS 5: Será que teremos um filme com os Guardiões clássicos? Starhawk e companhia são muito bem-vindos!


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