AODISSEIA
Séries

Crítica: Godless

Apesar da propaganda enganosa, minissérie da Netflix é o produto pra TV mais bonito do ano.

27 de dezembro de 2017 - 09:39 - Tiago Soares

Prestar homenagens aos clássicos westerns é algo que têm ocorrido com frequência ultimamente. Tarantino vêm fazendo isso com louvor em seus últimos longas, e mesmo aqueles que se passam no ambiente moderno, tem elementos desse gênero que tanto nos enche os olhos. Westworld é um último exemplo da revitalização do western, sem esquecer é claro, dos famigerados clichês: o mocinho, o vilão, o índio e sua ligação com o místico, a trilha sonora, o feno e por aí vai.

Eu não sou uma grande fã dos antigos faroestes, e particularmente não é um gênero que chama tanto minha atenção, mas o respeito e gosto de conferir produções que tentam trazer algo diferente, além de amar um dos maiores expoentes do estilo, o compositor Enio Morricone.

Juntando o útil – que é revitalizar o gênero – e o agradável, que seria o desejo da Netflix em apostar em séries limitadas (minisséries), Scott Frank (roteirista de Minority Report, Marley & Eu e Logan) aproveitou a oportunidade para lançar seu produto, que segundo ele já estava em desenvolvimento desde a década passada.

Godless conta a história da cidade de La Belle, que após um acidente numa mina – principal fonte de renda da cidade – é habitada apenas por mulheres, crianças e idosos, já que todos os maridos morreram no processo. Paralelo a isso está Roy Goode, um desertor do grupo de Frank Griffin, que via Roy como um filho/irmão. Roy vai parar na fazenda de Alice Fletcher, uma moradora de La Belle que mora afastada da cidade com sua sogra e filho índios, viúva 2 vezes, Alice não tem uma boa fama na cidade e é conhecida por amaldiçoa-la.

Desde então é que começa a propaganda enganosa de Godless. No trailer, parecíamos acompanhar a história de mulheres guerreiras, que protegem sua cidade a qualquer custo. O que se vê na verdade é um jogo de gato e rato, que é estendido exageradamente por 7 episódios (alguns com mais de 1 hora de duração). As mulheres e La Belle são meros coadjuvantes na batalha pessoal de Frank e Roy.

Tirando isso, Godless é uma série magnífica, com um visual soberbo e cada frame merece ser o descanso de tela do seu computador. Scott se inspira nos clássicos para trazer imagens que seriam simples em outras séries, mas aqui ganham um peso maior graças a fotografia de Steven Meizler (operador de câmera em vários filmes de Scott) e complementada pela direção de arte da dupla Adam Davis e Mark Garner.

Godless conta sua história através de imagens belíssimas, seja no presente com imagens desde o contra-luz e muito contraplongée (Scott abusa do recurso) – e no passado com um preto e branco beirando ao sépia, deixando apenas alguns personagens coloridos. Mas a produção não vive apenas da beleza, é importante ressaltar as atuações que estão acima da média.

Jack O’Connell (Invencível) entrega um Roy atormentado pelo passado, que apenas tem a fama de mau, mas que ganha nossa empatia imediata. Michelle Dockery (Downton Abbey) é uma Alice que no início parece fazer cosplay de uma mulher durona, mas que vai se desenvolvendo e tem uma das cenas mais fortes da produção. Merritt Wever (The Walking Dead) é a melhor personagem feminina da série. Sua Mary Agnes é uma mulher que foi moldada pelas diversidades, ela precisa ser durona, porque ninguém mais fará isso por ela.

Thomas Brodie-Sangster (Game of Thrones) é a clara construção de empatia. Você começa não gostando de sua persona, até que é tomado por seu senso de justiça. Scoot McNairy (Argo) também se destaca como o xerife Bill, mas perde espaço quando está longe dos protagonistas. E é claro não podemos esquecer do dúbio Frank Griffin de Jeff Daniels. Um vilão, mas não no sentido clássico da palavra. Frank é frio, sanguinário e seguro de si, mas também é amoroso quando deve, tem um poder de persuasão invejável e podemos ver que houve um passado cruel além da casca.

Godless é uma série que gosta de contemplações e apesar de muitos julgarem isso como um ritmo lento – que a série até apresenta em alguns momentos – é inegável não aplaudir cenas que aparentemente seriam longas, mas que são importantes para o todo. A cena em que Roy ensina Truckee (Samuel Marty) a montar num cavalo é uma das mais belas que já vi na TV. 

Com uma história que poderia ser contada em menos tempo e focar mas em La Belle, Godless é impecável tecnicamente e tem uma entrega genuína de todo seu elenco. A violência do western também está presente, e cenas de revirar os olhos não faltam, mas todas cumprem sua função narrativa. Palmas a Netflix, e que ela invista mais em produções curtas e com histórias fechadas.