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Crítica: Gilmore Girls – Um Ano para Recordar

28 de novembro de 2016 - 11:00 - felipehoffmann

Reunindo quase todo o elenco original, Amy Sherman-Palladino e Netflix entregam aos fãs um nostálgico e brilhante revival das Garotas Gilmore.


Gilmore Girls sempre foi uma série sobre mulheres fortes, elas eram a atração principal. Até quando o episódio focava em seus conflitos com o sexo oposto, prevalecia o olhar e o sentimento delas a respeito daquele personagem masculino. Afinal, a trama parte de como uma adolescente de 16 anos criou sozinha (e muito bem, obrigada!) sua filha, apesar de ser a herdeira de uma família rica e tradicional. Lorelai (Lauren Graham), abdicou de conforto financeiro pleno para escapar do controle da família. Por desejo de independência, mas principalmente para proteger a sua filha, Rory (Alexis Bledel), da claustrofobia de ser uma Gilmore.

Durante 7 temporadas a história das garotas Gilmores nos mostrou, com humor leve e inteligente, a relação mãe-filha dos sonhos de muitas jovens. Não era uma relação perfeita, Lorelai e Rory se desentenderam, discordaram e até romperam durante um longo período (que, por sinal, foi de grande tortura para os fãs). Porém, elas eram amigas de verdade, podiam confiar e compartilhar seus segredos uma com outra. Na contramão, havia o relacionamento de Lorelai com sua mãe, Emily (Kelly Bishop), permeado por desentendimentos indissolúveis. A personagem de Kelly Bishop sempre forçava a barra e abusava da hierarquia materna – deve ser realmente difícil mudar esse tipo de relação depois de uma filha já estar adulta e totalmente independente.

Por falar em independência, essa é a palavra-chave para descrever as mulheres de Girlmore Girls. Independentes não como super-heroínas que suportam (e vencem) tudo sempre e sem necessitar de grande ajuda, mas como mulheres comuns. As garotas Gilmores – não apenas às com essa alcunha, mas todas as personagens femininas da série – podiam sonhar com o casamento, com carreira de sucesso, podiam ser mães-solteira ou ser socialites cuidadoras do lar e marido, ser mecânica, baterista, senhoras fogosas, mulher mais velha casada com homem mais novo, adolescente dividida entre amores ou mesmo uma mãe que não se saía bem na maternidade (afinal, ao contrário do que nos contam há séculos, a maternidade não é intrínseca ao sexo feminino). Elas podiam ser o que quisessem! Isso tornava fácil se identificar com elas, com alguma de suas histórias tão próximas da realidade, um dos fatores que fez com que a série deixasse saudades em seus fãs.

Saudades tanta, que fizeram com que Netflix e Amy Sherman-Palladino, criadora da série, produzissem um revival para nos contar, finalmente, como Rory, Lorelai, Luke, Paris, Lane e tantos outros personagens queridos estão.

Um estágio de crescimento a cada nova estação [cuidado, possíveis spoilers abaixo!]

Dividida em quatro episódios, a continuação é ambientada nove anos após o final da série original, quando Rory se despediu de Stars Hollow. Agora, Lorelai passa por uma espécie de “crise de meia-idade”, a vida profissional de Rory não está como o planejado (o lado emocional também deixa a desejar) e Emily está desorientada após a morte de seu marido, Richard (Edward Herrmann) – o ator faleceu dois anos antes do grande retorno acontecer.

Assim, Inverno, o primeiro episódio de Gilmore Girls – Um ano para recordar, é um deleite para os fãs. Rever Stars Holow, Rory e Lorelai de novo no coreto, Luke, Michel, Emily e até o Paul Anka, é um presente nostálgico e comovente! A trama começa com o reencontro de Lorelai e Rory, com um abraço forte e um “senti tanto sua falta” que já transmitem como o fã se sente ao ver Graham e Bledel atuando juntas de novo.

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A primeira hora da trama de Gilmore Girls – Um ano para recordar conta com uma bonita homenagem a Edward Herrmann. Sherman-Palladino abordou o luto da família, principalmente de Emily, como uma forma de manter o ator/ personagem presente na série. Sua morte é o motor para mudanças profundas na vida do trio de protagonistas, que se desenrolam durante o período de um ano ou quatro estações. Assim, por meio de flasbacks e referências a temporadas anteriores, Richard é mantido na história. Esse é um episódio emocionante.

O revival de Gilmore Girls reuniu praticamente todos os personagens originais da série e a maioria já é revista nesse episódio. Por isso, é impossível a Sookie (Melissa McCarthy) não fazer falta. Além de ser a melhor amiga de Lorelai desde que ela chegou a Stars Hollow, ser sócia e chef na Dragonfly Inn, confidentes e comadres, a personagem Sookie é uma das mais divertidas da trama original, sua atuação rendeu algumas das cenas mais engraçadas das temporadas anteriores (não é à toa que a atriz se tornou a estrela da sitcom Mike & Molly!). O papel dela sempre foi fundamental para a sanidade mental de Lorelai.

Mas a ausência (explicada, porém nada convincente) de Sookie, não é o único choque nessa primeira parte. Para quem especulou sobre qual dos três ex-namorados estaria com Rory, já obtém a resposta nesse episódio. Novamente a protagonista se encontra em um triângulo – talvez possa ser chamado até de quarteto – amoroso, como se não tivesse aprendido nada com a experiência “Dean-Rory-Jess” e depois “Rory-Dean-Esposa de Dean”. A princípio, é um pouco revoltante uma personagem com tanto potencial fazendo uma merda dessas, contudo, não é isso o que ocorre com tantas mulheres incríveis na vida real? – insegurança e baixa autoestima mode on.

Primavera

Em Primavera, segundo episódio de Gilmore Girls, segue-se um enredo sem os encantos saudosistas do começo. Mais lento e sem as revelações do primeiro, sobra tempo para suscitar questionamentos diversos: como assim Sookie foi viver no mato? Como pode, depois de quase dez anos, todos continuarem com os mesmos hábitos, fazendo tudo absolutamente igual? E de onde cargas d’água surgiu o pai de Lane (Keiko Agena)? Durante sete temporadas esse pai nunca foi mostrado. Nem quando Lane se casou ou deu à luz aos seus gêmeos, e agora do nada ele brota, por alguns segundos – pareceu um fio solto, proposital, mas sem muito sentido.

É em Primavera que Liza Weil definitivamente rouba a cena com uma Paris Geller tão descontrolada quanto sua versão adolescente. O que, por outro lado, também gera a pergunta: como pode uma mulher tão bem-sucedida como essa personagem continuar com todas as inseguranças da adolescência? Chega a ser injusto não honrar a personagem com um amadurecimento emocional, mínimo que seja. E não somos os únicos a questionar:

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Sim, a Francie (Emily Bergl) também deu o ar da graça no revival.

Verão

Um dos elementos que compunham a fórmula de sucesso de Gilmore Girls, além de diálogos inteligentes e super-rápidos, estavam as inúmeras referências da cultura pop muito bem inseridas em seu texto. E sabiamente a Netflix e Sherman-Palladino mantiveram essa característica. Atrizes e atores queridinhos dessa geração são lembrados (Daniel Radcliffe, Jennifer Lawrence, etc) e, é claro, Star Wars e Game Of Thrones não ficam de fora! Afinal, Rory Gilmore é a Kaleesi de Stars Hollow.

Aqui, há uma Rory que estava em negação quanto ao seu momento de fracasso, tendo que reconhecer (e resolver) a situação. A personagem de Bledel (e até os fãs) esperavam que ela tivesse conquistado o mundo – ela fechou o seriado indo integrar a comitiva de imprensa que acompanharia Barack Obama durante sua campanha presidencial, como diabos isso não resultou em algo importante para a carreira dela poderia ser melhor explicado. Contudo, por outro lado, quando se é jovem a tendência é haver uma expectativa alta sobre onde se vai estar aos 30 anos e nem sempre é o que ocorre. Por isso, o drama financeiro, profissional e emocional de Rory em seus 30 e poucos anos, pode gerar identificação das fãs que acompanharam sua história estando com idade semelhante.

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Quem nunca?!?!

Outono

No episódio final encontramos uma Kelly Bishop com uma personagem renascida. Sua atuação durante o revival foi impressionante, Emily entregou muitas das cenas mais gostosas dessa continuação. Já a Brigada de Vida e Morte de Logan (Matt Czuchry), rende sequências com um belo trabalho de direção de fotografia e som, com um ar de musical elaborado que faz lembrar o clássico Amor, Sublime Amor – sem o elenco cantando, claro. O desfecho é de reencontros e recomeços em um lindo episódio.

Gilmore Girls – Um ano para recordar termina com as já emblemáticas e tão esperadas quatro palavras. E elas vão te deixar em choque, frenesi, vão te fazer pular, derrubar o balde de pipoca e ficar se perguntando “que porra é essa Netflix?” Então, assista!

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Também queremos Rory.

Dica extra:

Casal Palladino fala sobre as tão chocantes quatros palavras do final de Um ano para recordar (livre de spoiler):

O casal Palladino conta para Michael Ausiello do TVLine como foi toda a operação sigilosa que foi preciso para guardar as quatro palavras finais da série. Confira no vídeo legendado e se emocione:

Posted by Gilmore Girls Brasil on Saturday, November 12, 2016