AODISSEIA
Filmes

Crítica: Fragmentado

27 de março de 2017 - 11:03 - Flávio Pizzol

O bom filho à casa torna (com muito estilo)


M. Night Shyamalan precisou de pouco tempo para realizar o sonho de qualquer diretor: estremeceu o cinema no lançamento de O Sexto Sentido, conquistou seu espaço em Hollywood com os ótimos Corpo Fechado (meu favorito), Sinais e A Vila – em menos de cinco anos – e chegou a ser chamado de “novo Steven Spielberg“. Infelizmente, o peso dos plot twists e os filmes feitos sob encomenda pela família Smith começaram a afundar seu nome com a mesma velocidade até agora. E, se A Visita já dava sinais do seu retorno ao bom cinema, Fragmentado é a prova cabal disso.

Isso acontece, em primeiro lugar, porque ele realmente quer contar a história desse jovem que tenta conviver com suas 23 identidades diferentes, enquanto prepara três garotas sequestradas para um ritual bizarro. O diretor revela um prazer quase sádico que o permite construir as cenas de tensão com muita paciência, mexer com as percepções do espectador desde os primeiros minutos e nos mergulhar na realidade do protagonista através dos sufocantes close ups filmados com uma grande angular. Sem contar que o seu estudo (específico e nada realista) sobre a extensão da mente humana brinca como vários temas recorrentes da sua carreira, como a relação do homem com o desconhecido, a revelação dos monstros interiores e a dualidade entre natural/sobrenatural.

Pode parecer bizarro ou confuso ler tudo isso sem o suporte visual do filme, porém é delicioso acompanhar toda essa construção na telona. Shyamalan tem total controle sobre o desenvolvimento minucioso da narrativa, designando funções específicas para cada personagem e transitando entre comédia, drama, suspense psicológico e horror sem perder o ritmo ou parece esquizofrênico. Na verdade, são essas mudanças repentinas que enriquecem o texto, sustentam a narrativa sem a necessidade aparente de um plot twist e deixa o público mais aberto aos dilemas internos – bem construídos – de Kevin e Casey. E não se engane: até os flashbacks, que parecem um tanto quanto desnecessários, se encaixam em algum momento.

Em meio a todo esse caos organizado, Betty Buckley (Carrie, a Estranha) e sua Dra. Fletcher surgem como uma espécie de guia para o público, apresentando Kevin e o funcionamento da sua mente com a dose certa de didatismo. É como uma apresentadora que nos prepara para o grande espetáculo da noite, já que é James McAvoy (O Último Rei da Escócia) que brilha nos complexos papéis de Kevin, Barry, Dennis, Patricia, Hedwig, Crumb, Orwell, Jade e The Beast. Expansivo e detalhista na forma como constrói as especificidades de cada uma das identidades e viaja por elas, ele chega ao ponto de mudar de personagem em um mesmo plano ou até interpretar uma persona imitando a outra. É o melhor trabalho da sua carreira e poderia ter descolado, facilmente, um lugarzinho nos prêmios de 2016 (só pra constar, Edward Norton fez algo parecido em As Duas Faces de um Crime e conseguiu).

Ao mesmo tempo, Anya Taylor-Joy (a revelação do ano passado com A Bruxa) entrega uma atuação contida que funciona como oposto e complemento aos personagens de McAvoy. Casey substitui o desespero de Haley Lu Richardson (Quase 18) e Jessica Sula (Recovery Road) pela inteligência, muda de reação de acordo com a revelação das identidades de Kevin e vai revelando os seus próprios traumas no decorrer da trama. A personagem, inclusive, é a responsável por incluir um subtexto muito poderoso sobre abusos – em suas diversas formas – que começa a amarrar todos os pontos do brilhante roteiro de Shyamalan.

O conjunto disso tudo resulta em um longa original, tenso, assustador, intrigante, divertido e, acima de tudo, consistente como nenhuma das últimas obras de Shyamalan. E talvez fosse esse pequeno detalhe que impedisse a decolagem de alguns dos seus trabalhos, já que ele nunca deixou de ter boas ideias ou criar cenas que realmente fazem o público roer todas as unhas de uma vez. Fragmentado é um filme que acerta em todos os aspectos, surpreende sem precisar de viradas alucinantes e ainda crava o retorno do diretor com um possível – e delicioso – universo compartilhado. Se o nível for mantido, já pode liberar a compra antecipada desde já!


OBS 1: Assista a versão legendada, porque a atuação de James McAvoy possui uma quantidade absurda de sutilezas e modulações de voz que merecem ser conferidas na íntegra.

OBS 2: Se possível, assista Corpo Fechado e outros longas da carreira de Shyamalan antes de ir ao cinema. A experiência promete ser mais completa e reveladora.