Crítica: Feud – 1ª Temporada (Bette and Joan)

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A maior rivalidade da história do cinema, contada de maneira espetacular


Confesso que quando Feud foi anunciada, minha expectativa não era das maiores – já que a cada ano – Ryan Murphy anunciava que ia realizar no mínimo 5 temporadas de suas séries, incluindo séries novas. Não sobraria tempo pra se dedicar inteiramente a outras que tanto amo, como é o caso de American Horror/Crime Story. Além disso não conhecia muito bem as estrelas que seriam retratadas nesta temporada, e resolvi pesquisar mais sobre elas. Hoje posso dizer que foi um escolha acertada – tanto ler sobre elas – como ver tudo diante dos meus olhos, toda a relação de amor e ódio entre essas duas. Pra você que não conhece essa relação, aqui vai um breve resumo sobre as vidas de Bette Davis e Joan Crawford:

Bette Davis se chamava Ruth Elizabeth Davis e nasceu em 1908 em Massachusetts. Começou a sua carreira de atriz em 1929, e assinou um contrato com a Warner em 1930. Nessa década e na seguinte, teve o seu auge, vencendo dois oscars por Perigosa em 1935 e Jezebel em 1938, e ainda foi indicada em 1950 por A Malvada. Joan Crawford se chamava Lucille Le Seur e nasceu em 1905 no Texas, em 1925 foi a Hollywood, e teve que trocar de nome devido a exigência de um produtor da MGM. Com a produtora, fez inúmeros filmes ao longo dos 18 anos de contrato, indo ao ápice, quando assinou com a Warner em 1943 e ganhando o Oscar dois anos depois por Almas em Suplício, além de dois filmes de sucesso: Precipícios d’Alma em 1952 e Jhonny Guitar em 1954. Não se sabe ao certo o que levou as duas a se tornarem inimigas mortais – muitos dizem que seria por conta de um affair, uns pela disputa de papéis principais,  outros falam que a beleza de Joan sufocava o talento de Bette e vice-versa, a questão é que essa inimizade foi levada ao máximo quando as duas trabalharam juntas em, O Que Teria Acontecido a Baby Jane.

Apesar de ambas terem muito em comum – viviam em pé de guerra – e o diretor Bob Aldrich aproveitou a situação para convidá-las para o seu filme, que se tornaria um grande sucesso. O filme ajudou ambas, que estavam em decadência na época – a ganhar outros papéis – mas nada foi fácil. Joan exigiu um camarim maior, Bette disse que “camarins grandes não fazem bons filmes”. Joan era viúva do presidente da Pepsi e mandou instalar uma máquina de bebida no set, no dia seguinte Bette mandou instalar uma da grande rival, Coca-Cola. Joan foi chutada por Bette, em uma das cenas que Jane precisava agredir sua irmã – Joan não deixou barato, e em uma cena em que Bette precisava carregá-la, amarrou pedras em seu corpo, fazendo com que Bette desse um jeito na coluna, se ausentando das gravações por 3 dias. Seria tudo isso realmente verdade? Feud não se importa, e resolve abordar  de maneira intimista, as histórias de ambas – de igual modo – não mostrando se há alguém certo ou errado, começando desde os bastidores de Baby Jane – passando pelo lançamento e divulgação do filme. Aborda o novo filme de Joan, Almas Mortas e outro que ambas poderiam ter voltado juntas: Com a Maldade Na Alma.

Ryan Murphy decide abordar tudo através de um documentário dentre da série, sendo narrado por várias pessoas que faziam parte da vida de ambas, como  Olivia de Havilland (Catherine Zeta-Jones) e  Joan Blondell (Kathy Bates). Dirigindo a maioria dos episódios, Murphy, ao lado dos também criadores Jaffe Cohen e Michael Zam nos transportam para a década de 60 e parte dos anos 70 com total perfeição. O figurino e direção de arte da série são impecáveis, e a forma como trata os fatos, boatos, sejam eles mitos ou não, é respeitosa. É como se a equipe amasse aquelas mulheres e mais do que isso – a história que está sendo contada – honrando a memória de Bette e Joan. A honra começa na escalação das atrizes que farão as protagonistas, duas lendas do cinema merecem ser interpretadas por outras duas lendas.

A amiga de longa data de Ryan, Jessica Lange traz toda a beleza e sensibilidade de Joan Crawford. A atriz vai além de seus papéis de liderança que ocupou em outras séries do showrunner e traz certa vulnerabilidade a figura de Joan, ao mesmo tempo sendo uma mulher forte – assim como Susan Sarandon no papel de Bette Davis. A atriz faz um trabalho de voz e trejeitos maravilhoso, e em nenhum momento você consegue ver a pessoa, apenas a personagem. Como dito antes, o espaço dado as duas é bem dividido, algo feito de maneira bem didática no episódio final, dando metade do episódio a Joan e outra a Crawford, unindo-as em uma cena de partir o coração. A narrativa flui perfeitamente ao abordar suas vidas profissionais, amorosas e as relações não tão boas assim com os filhos. Elas eram bastante diferentes, mas tinham inúmeras coisas em comum.

O elenco de apoio não fica atrás com um Alfred Molina inspirado no papel de Robert Aldrich, diretor de Baby Jane e Com a Maldade na Alma. Stanley Tucci encarna Jack Warner, um produtor escroto que visa apenas o dinheiro, não se importando muito com a matéria prima. Judy Davis como  Hedda Hopper, integrante da imprensa manipuladora, que tanto valorizava e muitas vezes expandia essa rixa. Alison Wright como Pauline, tentando o seu lugar ao sol numa sociedade arbitrariamente machista e Jackie Hoffman como a fiel Mamacita. É impressionante a capacidade que Ryan tem de unir tantos talentos em uma só produção, indicações ao Emmy virão com certeza.

Com uma grande dedicação, resultando em um incrível apuro técnico (o plano sequência no episódio da entrega do Oscar que o diga) – Ryan Murphy entrega mais uma surpresa em 2017, e mais uma focando em mulheres fortes, as vezes manipuláveis, mas que nunca deixando de ser quem são – ou alguém dúvida que Feud e Big Little Lies dividirão as premiações esse ano?


Obs: Se você deseja aumentar sua experiência de imersão ao ver Feud, existe um modo melhor de assistir. Antes da série, assista ao filme “O Que Teria Acontecido a Baby Jane” – depois veja até o episódio 06 e pare pra ver “Almas Mortas” – em seguida veja o episódio 07, e pare pra assistir “Com a Maldade na Alma” – conclui com o incrível episódio 08 (season finale).


 

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