AODISSEIA
Filmes

Crítica: Festa da Salsicha

7 de outubro de 2016 - 13:00 - Flávio Pizzol

Sexo, drogas e supermercados


font-b-sausage-b-font-font-b-party-b-font-poster-movie-art-silk-wallA melhor forma de começar esse texto é com uma pergunta bem simples: você gosta de Vizinhos, É o Fim, A Entrevista, Segurando as Pontas ou Superbad? Todas essas comédias são frutos da parceria entre Seth Rogen e Evan Goldberg e são marcadas por um humor sarcástico e agressivo que não agrada todo o tipo de público. Se você não faz parte desse grupo, pode tirar Festa da Salsicha da sua lista. Eu faço parte desse grupo: sou fã, gostei muito de todos os trailers divulgados e, infelizmente, acabei a sessão um pouco decepcionado.

O longa conta a história de alguns alimentos de supermercado que acreditam que os humanos são deuses e vivem na eterna expectativa de serem os escolhidos para conhecer o paraíso. O problema surge quando um deles volta para as prateleiras após uma dessas expedições e entrega todas as coisas ruins que acontecem do lado de fora. Tudo isso com aquele jeitinho típico de Seth e Evan que garante muitas piadas sexuais, estereótipos raciais, personagens maconheiros e um cardápio completo de críticas.

Baseado em uma ideia do ator Jonah Hill e desenvolvido em parceria com Kyle Hunter e Ariel Shaffir, o roteiro começa como uma paródia muito clara ao jeito Pixar de contar suas histórias, mas logo se dividem em dois aspectos bem distintos. O primeiro desenvolve um plano de fundo religioso que conduz a narrativa com boas ideias e algumas críticas bem pesadas, enquanto o segundo permanece focado em um ploto de vingança que não convence.

Esse é só o primeiro exemplo de instabilidade em um filme que não tem nenhum equilíbrio entre piadas físicas, nojeiras e críticas ácidas. No entanto, ainda estamos falando de uma comédia que possui uma grande dose de nonsense e muitos momentos impressionantes, sendo que a maior parte disso vem do espaço multicultural permitido pelas sessões de um grande supermercado. Eles vivem em uma comunidade alimentada por brincadeiras e referências que vão desde Stephen Hawking até cenas icônicas do cinema, passando por pães árabes e judeus que brigam por uma prateleira entre eles.

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Por incrível que pareça, essa brilhante reflexão sobre a situação política no Oriente Médio é mais um ótimo exemplo de instabilidade, porque ela acaba cansando muito rápido. Aos poucos isso vai acontecendo com quase todos os elementos do filmes e Festa da Salsicha chega em um ponto na segunda metade onde a história fica cansativa e todas as piadas perdem a graça ou ficam desprezíveis. E, na minha opinião, piora ainda mais quando elas começam a realmente incomodar, saindo das hilárias sugestões sexuais entre os alimentos para efetivar esses relacionamentos.

Realizadas pelo Porta dos Fundos, a tradução do texto e a dublagem também funcionam em partes durante todo o filme, sendo um trabalho cercado de ideias que certamente pareciam boas no papel. Já quando são colocadas em prática, as constantes piadas com Kléber Bambam e Malandramente soam simplesmente deslocadas da essência do original. A mesma coisa acontece com a enorme quantidade de palavrões que não adicionam nada efetivo a história, indo muito além daquele xingamento natural que sai quando você bate o dedinho na quina. Parece ser apenas uma saída para reforçar o lado adulto de uma comédia que já deixa isso claro nas situações e nos diálogos.

Infelizmente, eu não tenho como confirmar se esse é um problema do próprio filme ou apenas da dublagem brasileira, já que no resto do longa Antonio Tabet, Fábio Porchat, Gregório Duvivier e sua trupe fazem um trabalho decente. Eles são atores profissionais, já trabalharam em animações anteriormente e sabem o que estão fazendo, mesmo tendo a dura tarefa de substituir grandes nomes como Seth Rogen, James Franco, Michael Cera, Salma Hayek, Jonah Hill, Edward Norton, Kristen WiigPaul Rudd. Por via das dúvidas, eu vou recomendar a sessão legendada.

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A único aspecto que eu não acho mereça ser contestado é a direção de Greg Tiernan (Thomas e seus Amigos) e Conrad Vernon (Shrek 2). A qualidade da animação certamente está alguns degraus abaixo do que é produzido pela Pixar, mas eles consegue manter o ritmo do filme com um maravilhoso jogo de câmera entre as realidades do alimentos e dos humanos. Gostei de como eles criaram muitas piadas visuais e uma sequência genial de batalha, partindo da ideia de que esses mundos possuem proporções de espaço e tempo diferentes.

Ainda assim, o filme é bastante instável e pode incomodar até quem curte o humor politicamente incorreto da gangue de Seth Rogen. Tem pelo menos meia dúzia de cenas interessantes que talvez paguem o ingresso, mas poderia funcionar ainda mais com um roteiro mais redondinho e uma tradução menos afetada. Festa na Salsicha não me agradou como eu esperava, mas tem um final genial e arranca algumas risadas que podem satisfazer aquele público adulto que está ansioso por conteúdos fora do padrão.


OBS 1: Essa não é uma animação para crianças!

OBS 2: Os cinco minutos finais são realmente brilhantes. É sério!


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