AODISSEIA
Filmes

Viagem no Tempo: Feitiço do Tempo (1993)

5 de setembro de 2014 - 19:00 - Flávio Pizzol

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Feitiço do Tempo é um filme extremamente original, mas, se pararmos pra pensar, sua premissa e seu desenvolvimento são igualmente muito simples. Aí eu te faço essa pergunta: porque um filme desses consegue dividir o status de clássico com longas muito mais autorais e complexos? E já te adianto que quando assistir, você vai ver que a resposta é estupidamente simples. Sem piadinhas ou trocadilhos, Feitiço no Tempo é um filme que não envelhece.

O filme segue Phil Connors, um jornalista, especializado em meteorologia, arrogante, insensível e egocêntrico, que ainda se acha uma celebridade. Todo santo ano, Phil e sua equipe são escalados para cobrir o icônico e folclórico Dia da Marmota em Punxsutawney, Pensilvânia. Tudo o que Phil quer é fazer seu trabalho e sair da pequena cidade, mas uma nevasca e um fenômeno inexplicado o deixam preso por muito tempo no mesmo dia.

Como já disse a premissa é relativamente simples, mas vários aspectos do desenvolvimento do ótimo roteiro podem ser destacados. Escrito por Danny Rubin e revisado pelo diretor Harold Ramis, o script é extremamente divertido e sarcástico, mas também balanceia muito bem o romance (que surge do nada, mas a gente deixa passar isso) e os momentos mais emociantes. É interessante como isso faz com que o filme consiga atingir um público muito amplo. Qualquer pessoa – não importa idade, sexo, cor ou religião – acaba se identificando com alguma parte do filme.

E a criatividade dos escritores é o elemento chave dessa abrangência que o filme alcançou. Toda aquela repetição de acontecimentos, que, convenhamos, tinha tudo pra ser extremamente chata, é a melhor coisa do filme. Vemos Phil tratar cada personagem ou cada momento de diversas maneiras diferentes, sempre acompanhado de alguma piada ou situação divertida. Também vemos alguns gloriosos momentos aleatórios, como o assalto ao carro-forte e a sequência insana de suicídios mal sucedidos.

E é nesse ponto que também podemos destacar o trabalho de Ramis por trás das câmeras. Todas essas cenas repetidas são filmadas de maneira idêntica e simétrica, ou seja, mesmos quadros e ângulos, mas diálogos diferentes. Isso cria uma ambientação natural para o espectador, além de ajudar a surpreender, já que em diversos momentos o público já espera algo acontecer, mas isso é subvertido de alguma maneira pelos atores. É como se o filme criasse seus próprios clichês, mas não cai na pegadinha preguiçosa de usá-los em todos os momentos.

E é fácil perceber que o foco do filme é explorar essas repetições e fazer piada com elas, já eles nem explicam o que é que deixa o protagonista preso nesse dia insuportável por muitos anos. E, na boa, isso é uma decisão genial, por que assim ele evita tomar partido e cada espectador explica da maneira que quiser, usando seu repertório pessoal.

E mesmo sem tomar partido, o filme ainda acerta nas lições de moral passadas em segundo plano. Em nenhum momento, você vai ver algum personagem tentar justificar o que fez ou virar para o público e empurrar os ensinamentos goela abaixo, como muitas comédias fazem hoje em dia. O foco é a piada e a autorreferência (esse foco parece estar voltando em alguns filmes, como Vizinhos e Anjos da Lei), mas se prestar atenção, o espectador vai acabar pensando em como vive sua rotina, na importância de cada minuto, nas atitudes em relação ao próximo. Sim, além de insanamente hilário, Feitiço do Tempo é belíssimo e tocante.

Mas tudo isso precisava de um elenco bom para funcionar e Bill Murray é o ator perfeito para o personagem perfeito. Ele mostra um total domínio de todos os aspectos de Phil, se saindo bem em todos os momentos e, principalmente, deixando claro seu ótimo timing cômico. Em alguns momentos ele faz alguma piada e pausa, como se estivesse, ao vivo, esperando o público digerir o que aconteceu e o aplaudir. Isso sem falar da grande quantidade de improvisos gerados por Bill e filmados com naturalidade por Harold (seu parceiro em Os Caça-Fantasmas).

Bill Murray é tão genial, que ele consegue passar o desenvolvimento do jornalista de maneira peculiar, mas, ao mesmo tempo, natural. Ele faz o espectador se importar e ser cativado pelo Phil arrogante, pelo Phil surpreso, pelo Phil empolgado por dominar o tempo, pelo Phil depressivo e suicida e, finalmente, pelo Phil que aceita seu destino e muda sua vida. Nós nos divertimos com ele, choramos com ele, ficamos com pena dele e aprendemos com ele.

Os coadjuvantes também são bons, mas é evidente que Murray carrega o filme sozinho e abre pequenas frestas para o restante fazer o simples. É o que acontece com Andie MacDowell e Chris Eliott, que não tem tanto espaço pra surpreender, mas isso não os impede de ter boas piadas. Entretanto alguns atores tem o dom de roubar cenas e Stephen Tobolowski é o único que consegue roubar um pouquinho do brilho de Bill em suas curtas aparições.

Feitiço do Tempo é um filme que prende o público de maneira fluida e natural. É um conto com elementos fantásticos, engraçados, sarcásticos e morais. Também é muito inteligente, original, sensível e atual até hoje. Merece ser cultuado por ser completo e quase perfeito. Para a sorte dos cinéfilos e dos amantes das boas comédias, Feitiço do Tempo existe e está preso para sempre na nossa linha temporal.

OBS 1: Harold Ramis faleceu no início desse ano e Bill fez um linda homenagem ao diretor e amigo quando foi entregar o Oscar de Melhor Fotografia desse ano.

OBS 2: Obviamente você já viu essa história ser referenciada, homenageada e copiada em vários outros filmes e séries, como How I Met your Mother, Supernatural e no novos Questão de tempo e No Limite do Amanhã.

OBS 3: Existem várias teorias sobre quanto tempo Phil ficou preso no Dia da Marmota e elas falam de dias até milhares de anos. Isso também não é definido pelo filme, logo use sua imaginação.

OBS 4: Feitiço do Tempo é 34º colocado da lista dos 100 filmes mais divertidos de todos os tempos do American Film Institute.

OBS 5: Em uma edição especial da revista Total Film, o longa foi considerado o melhor filme de 1993, batendo filmes mundialmente conhecidos e vários clássicos, como A Lista de Schindler, O Piano, Em Nome do Pai, Jurassic Park, Free Willy, O estranho Mundo de Jack, O Pagamento Final, Um Dia de Fúria, Filadélfia, A Família Buscapé e Uma Babá Quase Perfeita (os dois últimos estão na minha lista das melhores comédias já feitas junto com esse filme).