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Filmes

Crítica: Fala Sério, Mãe!

Mãe é tudo igual, só muda o endereço...

31 de dezembro de 2017 - 00:34 - Flávio Pizzol

 

O preconceito, como a própria palavra indica, é um juízo pré-concebido que se manisfesta de maneira discriminatória, antecipa um certo desgosto que nem sempre é merecido e, por fim, afasta as pessoas de tal coisa, seja ela qual for. O abandono de tais preconceitos – em todos os aspectos da vida – nos permite enxergar uma produção como ela é de verdade, entender que nem tudo que você não gosta é necessariamente ruim, aproveitar alguns momentos de diversão e, quem sabe, até mesmo se surpreender. Enquadrado nessa descrição, Fala Sério, Mãe! é o tipo de filme que acaba sofrendo alguma rejeição por sua embalagem, apesar de ser divertido e passar longe de ser uma das piores coisas do ano.

 

Adaptação de um dos livros mais famosos de Thalita Rebouças, o longa acompanha a relação entre Ângela Cristina e Maria de Lourdes, mãe e filha, desde o nascimento até o fim da adolescência da segunda. Acompanhamos tanto os perrengues da amamentação, do casamento problemático e da criação de uma criança quanto o amadurecimento de uma menina, o primeiro beijo e micos passados por conta da presença típica de uma mãe. Tudo cercado por companheirismo que cresce com o tempo.

 

O roteiro de Dostoiewski ChampangnattePaulo Cursino (Até que a Sorte nos Separe) e Ingrid Guimarães (Sob Nova Direção) sabe como aproveitar a longa passagem de tempo, a narração in off e quaisquer outros ingredientes que podem surgir de uma relação desse tipo para construir boas piadas, carregar o espectador para momentos de emoção que funcionam razoavelmente e, acima de tudo, criar uma história universal e muito próxima de qualquer tipo de público. Seguindo uma característica recorrente nos trabalhos de Cursino, Ingrid e Thalita, o texto é muito ágil, cotidiano e próximo da realidade.

 

 

Isso é bastante perceptível quando o ponto de vista materno comanda a história e segue a risca a ideia de que mãe é tudo igual. Os dilemas, questionamentos e problemas de Ângela são tão comuns que o público pode acabar dividido – de forma positiva – entre ver sua própria história refletida na tela e adivinhar tudo que a mãe vai aprontar com certa antecedência. Mesmo eu, como menino, consegui compreender como a maternidade é universal, identificar várias atitudes da minha mãe e ser atingido em cheio, emocionalmente, por dois momentos que aconteceram de forma quase similar em minha vida. E, acredite, se você já acompanhou a separação dos seus pais em qualquer, vai acabar identificando parte dos sentimentos que a protagonista descreve nesse momento.

 

A atuação do elenco adulto – vulgo Ingrid Guimarães (De Pernas pro Ar) – é um aspecto decisivo para a construção dessa proximidade. Ela é uma atriz talentosíssima que alcança com facilidade todas camadas de sua personagem com sucesso, liderando um elenco primordialmente jovem, construindo trejeitos que arrancam gargalhadas sempre que são repetidos e conduzindo todas as sequências que, mesmo clichês, necessitam de um pouco mais de sentimentos. E, além de tudo, ela é uma mãe que aparenta estar confortável com o papel e saber do que o público vai gostar.

 

 

Já o lado adolescente de Fala Sério, Mãe!, conduzido por uma Larissa Manoela (Carrossel) levemente carente de experiência e uma direção de atores mais firme, é um bocado mais específico e não convence com tanta facilidade. Parte disso vem, logicamente, do apoio em um universo mais adolescente e feminino que se afasta da minha pessoa para encontrar o apelo necessário em um nicho comandado pelas fãs da protagonista, mas parte dos problemas também acompanham as conveniências de roteiro, as subtramas amorosas que são esquecidas por longos períodos e até uma solução emocional, em forma de bichinho de pelúcia, que não tinha sido citada anteriormente. Pelo menos a química entre Larissa e sua mãe da ficção funciona muito bem e corrige alguns defeitos.

 

No entanto, pra piorar um pouquinho mais e começar a evidenciar problemas que não devem ser ignorados de forma alguma, a direção de Pedro Vasconcelos (diretor geral da novela A Força do Querer) embala a história em um visual cansado, repetitivo e televiso demais no sentido negativo da palavra. As cores lavadas da fotografia caminham no lado oposto de um roteiro que se aproxima tanto da realidade, a edição engasga em alguns cortes, João Guilherme insiste em fazer as notas erradas no violão, a maquiagem falha na aplicação de alguns cabelos e a movimentação de câmera insiste em não fugir do beabá. São problemas pequenos e, de certa, pontuais que poderiam até ser descontados, caso o ótimo roteiro não implorasse e merecesse muito mais.

 

 

Dessa forma, a deficiência em vários aspectos técnicos, acaba rebaixando uma adaptação possivelmente boa (o potencial está ali e não pode ser negado) ao status de filme problemático e mediano que consegue, após suar muito, convencer seu público mais jovem, entregar uma mensagem positiva para a família e divertir pessoas de diversas idades dentro da sala de cinema. Em outras palavras: Fala Sério, Mãe! não é exatamente bom, mas também passa bem longe de ser o desastre que a maior parte das pessoas (e críticos) da minha idade esperariam encontrar. Minha dica é abrir mão de alguns preconceitos, lembrar das figuras maternas – de sangue ou não – que já passaram pela sua vida e aproveitar um entretenimento que distrai, satisfaz e funciona dentro de sua proposta.

 


OBS 1: Pra ser sincero, esse filme merecia o 3,5 que não existe na nossa métrica de notas. Fala Sério, Mãe! tem vários problemas que já foram citados, mas é um pouquinho melhor que um mero mais ou menos.