AODISSEIA
Filmes

Crítica: Extraordinário

Um melodrama que merece ser visto com o lencinho de papel na mão

20 de dezembro de 2017 - 11:17 - Flávio Pizzol

Extraordinário, o livro escrito por R.J. Palacio, entrou na minha vida graças a uma promoção casual na livraria e me marcou de uma que dificilmente será medida por palavras. Eu fiquei encantado pela quantidade gigantesca de doçura contida em uma trama que pode ser considerada pesada, me identifiquei com alguns dos dilemas que cercam o personagem, fiz questão de escrever uma review e comecei a contar os dias para a estréia desta adaptação. Só agora, depois de toda essa saga, posso respirar aliviado e garantir que Auggie e sua família chegaram às telonas com mensagens que merecem/precisam ser aprendidas por todas as pessoas desse lugar que chamamos de Terra.

Mais do que isso, o longa não poderia ter estreado em um momento melhor do que no final de um 2017 marcado por tantos discursos que destilam ódio e discriminação. Se, como muitos dizem, essa é realmente a hora perfeita para relembrar e meditar sobre tudo que aconteceu até aqui, acompanhar as aventuras cheias de esperança de um garotinho com o rosto deformado que decide encarar o preconceito da escola e mudar para sempre a vida de quem o rodeia deve oferecer muito material para reflexão.

O roteiro, escrito à seis mãos por Jack Thorne (Harry Potter e A Criança Amaldiçoada), Steve Conrad (À Procura da Felicidade) e Stephen Chbosky (As Vantagens de Ser Invisível), pode ser facilmente classificado como um trabalho de adaptação acima da média. Mesmo com algumas pequenas mudanças na participação da cachorrinha Daisy e da avó de Auggie, todas as características narrativas e os grandes momentos do material original estão impressas no longa com uma similaridade rara. O longa consegue repetir a experiência de ler o livro com uma fidelidade rara e, com isso, alcançar as mesmas metas propostas pelo livro. Em outras palavras, ambos cativam o interlocutor, usam o bullying sofrido pelo protagonista como uma ferramenta de reflexão e, por fim, arrancam uma lágrima.

Apesar de toda esse apreço pela história, Extraordinário sofre um pouquinho mais quando tenta adaptar um dos elementos narrativos mais importantes da história original: a mudança entre os pontos de vista dos personagens. Essas transições são precisas e necessárias quando se trata de desenvolver os coadjuvantes e apresentar com eficiência todas as complexidades da irmã do protagonista, porém deixam o segundo ato arrastado ao ficarem presas entre cortes bruscos e passagens sem nenhuma sintonia. A verdade é que, na ânsia de fazer uma adaptação fiel, os roteiristas não entenderam que a mesma dinâmica que eleva a qualidade do livro pode não funcionar no cinema, gerando um incômodo desnecessário ao arrancar o espectador, sem aviso prévio, da história de um protagonista que conquista todo mundo desde os primeiros segundos de filme.

Apesar de insistir em algumas escolhas burocráticas demais, o mesmo Stephen Chbosky faz um trabalho um pouco melhor por trás das câmeras ao acertar em cheio na construção de um equilíbrio entre drama e comédia que permeia a uma narrativa do início ao fim. Através de boas escolhas estéticas, o diretor aproveita os diálogos ágeis e algumas gags visuais surpreendentes (Chewie, estou falando de você) para construir bons momentos de descontração, mas não esquece de arrancar litros de lágrimas do espectador ao explorar os momentos mais emotivos. Nesse caso, o equilíbrio entre essas duas partes é o trunfo de uma trama que precisa tocar em questões pesadas e incômodas sem perder a esperança que a torna tão marcante.

 

No entanto, não posso negar em nenhum momento que a grande força motriz de Extraordinário está no seu elenco estrelar e escolhido a dedo: Jacob Tremblay (O Quarto de Jack) entrega sua alma ao personagem, demonstra emoções como se estivesse de cara limpa e parece sentir na pele todos os dilemas de Auggie; Julia Roberts (Jogo do Dinheiro) encarna seu lado materno com uma força inexplicável; Owen Wilson (O Grande Hotel Budapeste) cumpre seu papel de alívio cômico e companheiro do filho sem dificuldades; Noah Jupe (The Night Manager) conquista o público com o olhar doce de Jack Will; Mandy Patinkin (Homeland) está se divertindo em cada uma de suas poucas cenas; e, por fim, Izabela Vidovic (Supergirl) brilha ao construir com brilhantismo a personagem mais complexa do longa. Até a diva brasileira Sônia Braga (Luke Cage) brilha em sua única e arrebatadora cena.

O resultado dessa adaptação brilhante é um filme eficiente, agridoce na medida certa e tão necessário que consegue, apesar dos poucos problemas de roteiro, conquistar plateias de todas as idades, cortar o coração de qualquer ser humano com o bullying sofrido pelo protagonista, arrancar soluços que ecoam pelo silêncio da sala de cinema e amarrar tudo com uma mensagem de esperança e autoestima. Extraordinário pode ser um pouco clichê e melodramático demais para uma parcela do público, mas tem potencial para surpreender os distraídos como o livro fez comigo. Tudo que você precisa fazer é entrar com o coração aberto, se preparar para refletir sobre todos os momentos em que discriminou ou julgou alguém e, de repente, levar mais do que uma caixa de lenços. Um pano de chão deve ser o suficiente pra enxugar as poças que vão ficar no cinema…