AODISSEIA
Filmes

Crítica: Eu, Daniel Blake

3 de Fevereiro de 2017 - 09:26 - felipehoffmann

“Eu, Daniel Blake, exijo uma data para minha apelação antes que eu morra de fome. E que se mude a merda da música no telefone”


Eu, Daniel Blake não é um filme fácil de assistir. Não por que é ruim, longe disso. Mas o drama vai te jogando na cara a suposta incompetência de um Estado que se faz omisso e descrente perante um idoso com problemas de saúde.  E o que choca mais é que toda essa problemática é presente na Inglaterra, na Índia, no Brasil e em grande parte do mundo.

Daniel Blake (Dave Jonhs) é esse idoso, viúvo, que recebe recomendações médicas para se afastar do trabalho, pois possui um grave problema cardíaco. Blake precisa então pedir ajuda do governo para bancar seus custeios, já que não pode trabalhar. O grande problema mora na burocracia do Estado, que impede esse auxílio, alegando falta de documentos. Katie (Hayley Squires), jovem mãe, dois filhos, enfrenta problemas semelhantes e o caminho dos dois se cruzam, nascendo uma relação paternal entre a jovem desempregada e o idoso combalido.

O diretor Ken Loach (Ventos da Liberdade) passeia pelo tema social, mostrando uma base da pirâmide sendo desmoronada não por culpa vossa, mas sim pela incapacidade pública de resolver problemas. Isso vai criando um sentimento de indignação familiar, pois é a manchete pronta em qualquer jornal do Brasil. O desemprego que assola e as contas que não fecham, agonizam o dia a dia do mais humilde cidadão, que não rouba tampouco se humilha diante do problema.

Daniel Blake procura assumir uma postura forte a princípio, lutando contra aquilo que deveria lhe ajudar, e Katie está no limite da sua força. Com dois filhos, no rígido inverno inglês, nem a conta de luz pode pagar e a calefação não pode esquentar suas crianças. O início do filme já é o fim de Katie, numa batalha injusta contra a tradicional sociedade moderna. Cabe ao árduo roteiro de Paul Laverty uma das cenas mais fortes que já vi, quando a mulher abre uma lata de molho de tomate, desesperadamente escondida em um canto, pois a fome estava prestes a vencer.

A história flui no seu tempo, sem dissipar a atenção, consumindo-nos de angústia perante o extremo controle emocional do personagem. Nem os poucos momentos de humor – que lembram bastante as obras de Douglas Adams satirizando o Estado por meio de metáforas – quebram esse sentimento. E quando Daniel Blake finalmente externa seu desespero, a cena entristece, pois sabemos que ali era o limite da rejeição que um ser humano pode sofrer.

O filme, sem trilha sonora, termina mudo. Os créditos sobem e metade da sala está chorando. É comovente ver a realidade e pensar que vale mais para o Governo deixar uma pessoa morrer enferma do que prestar assistência durante os anos de sua vida. Eu, Daniel Blake é extremamente sensível nesse ponto e toca bem no meio da ferida. Um grito vazio, sem voz, diante de um poder ausente por vontade própria.