Crítica: Em Ritmo de Fuga

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Uma aula de direção, montagem e trilha sonora


Edgar Wright (Trilogia Cornetto e Scott Pilgrim Contra o Mundo) é certamente um dos cineastas mais criativos que surgiu nos últimos anos e quem acompanha a carreira do diretor já sabia mais ou menos o que esperar de Em Ritmo de Fuga. Com um pouco mais de orçamento e um elenco cheio de estrelas, o diretor entrega uma trama clássica de ação que subverte as expectativas dentro do gênero, brinca com estereótipos sem medo de ser feliz e diverte o público com sua mistura estilosa de assaltos, corridas e playlists musicais.

É impossível negar que história do motorista de fuga/criminoso que se apaixona e decide largar tudo após o último serviço é extremamente repetitiva dentro do cinema, porém Wright pode ser considerado uma prova viva de que a criatividade também pode estar na forma inusitada de se contar essa mesma história. Ele já havia seguido o mesmo caminho em Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso ao surpreender o público com recursos muito mais visuais que propriamente escritos e faz o mesmo aqui. Em Ritmo de Fuga embala essa reutilização de clichês – afinal “nada se cria, tudo se copia” – com uma aplicação espetacular da boa e velha linguagem cinematográfica.

O longa é um show visual e sonoro totalmente apoiado na direção, na montagem e na trilha sonora, porém o encaixe das peças é tão cuidadoso e bem pensado que fica difícil separar as responsabilidades de cada aspecto. Mesmo assim, considerando que o próprio roteiro foi escrito em cima de uma lista de músicas já escolhidas, podemos dizer que o som tem um lugar de destaque na essência do longa.

A música em si tem um papel decisivo na construção do protagonista, está presente em 95% das cenas do filme e, acima de tudo, é conduzida com uma sincronia absurda em relação ao todo. Listando algumas técnicas mais inventivas, podemos destacar que: as letras substituem vários diálogos ou são incluídas na tela através de grafites; ruídos, passos, freadas de carro, tiros sempre estão perfeitamente encaixados na canção; e, por fim, Wright toma o cuidado de fazer com que a maioria das cenas comece e termine junto com a música, mesmo que para isso Baby tenha que voltar algumas delas para o início.

No entanto, fica claro que muitas dessas sacadas só seriam possíveis com a sincronização entre as outras partes citadas. Contando com um editor que já montava um protótipo da cena dentro do set, o diretor consegue dar voz e personalidade para seus movimentos de câmera, perseguições capturadas da forma mais realista possível e alguns planos-sequência bastante complexos. E, mesmo apoiada em uma quantidade assustadora de cortes, vale destacar que montagem tem como finalidade criar ritmo – e tensão em momentos específicos – ao invés do puro caos (ouviu, Michael Bay?).

Por fim, voltando ao roteiro, uma grande parte da alma do longa também está nos seus personagens interessantes, ricos e bem desenvolvidos. Com exceção de duas viradas de personalidade levemente forçadas no terceiro ato, todos eles conquistam o público do início ao fim, se relacionam muito bem entre si, evoluem de forma consistente e terminam seus respectivos arcos diferentes de como começaram. Inclusive, preciso admitir que a conclusão de um desses relacionamentos chegou muito perto de me arrancar uma lágrima.

O elenco logicamente acompanha com perfeição toda a construção narrativa proposta pelo roteiro de Wright. Ansel Elgort (A Culpa é das Estrelas) constrói Baby com a quantidade de carisma exata para fazer o público amar incondicionalmente um protagonista que – querendo ou não – é um bandido. Lily James (Cinderela) – que não tinha me chamado atenção até aqui – forma um par romântico digno de torcida por um final feliz. Kevin Spacey (House of Cards) usa sua voz baixa para soar fraternal e ameaçador ao mesmo tempo. E, finalmente, Jon Hamm (Mad Men), Jon Bernthal (The Walking Dead), Eiza González (Um Drink no Inferno) e Jamie Foxx (O Reino) funcionam como alívios cômicos ou possíveis elementos surpresa, mesmo tendo menos material para trabalhar. Isso sem contar a participação sensacional de CJ Jones – que é surdo de verdade! – como o pai adotivo do protagonista.

E a construção do clímax do longa ainda revela certo potencial para surpreender o espectador, visto que não tem medo de abraçar seus próprios exageros. Por mais que esse seja o filme mais pé no chão de Edgar Wright, ele atinge seu ápice quando se permite ser verdadeiramente surtado. Porém, mesmo se você não for pego de surpresa por essa insanidade, pode esperar um filme cool (em todas as suas traduções), estiloso e divertido do primeiro ao último segundo. Em Ritmo de Fuga promete uma mistura entre música, corrida e humor, e entrega tudo isso como o mais puro entretenimento!


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