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Crítica Dear White People – 1ª Temporada

6 de maio de 2017 - 19:01 - felipehoffmann

Mais um tema complicado abordado com maestria pela Netflix


Um dos grandes trunfos da Netflix é apostar em conteúdos que tocam em pontos importantes da sociedade. Vimos isso recentemente em 13 Reasons Why, abordando temas como bullying e suicídio. Agora, a empresa norte americana joga suas fichas em Dear White People, uma série que não tem medo de botar o dedo na ferida e tratar de questões raciais sobre diferentes óticas.

A produção, criada por Justin Simien e derivada de um longa homônimo de 2014 dirigido por ele, não foca em um personagem específico, mas sim no racismo como um estigma social, mascarado pelas instituições de ensino. Dear White People se passa na fictícia Universidade de Winchester e tem como plano de fundo um grupo de alunos negros e o desrespeito para com eles dentro da instituição.

Vale lembrar que em fevereiro desse ano a Netflix divulgou um teaser sobre a série e chegou a ser acusada, por internautas, de incentivar o “genocídio branco” e praticar o “racismo reverso”. Vários assinantes resolveram boicotar o serviço e começaram a cancelar sua assinatura.

A trama é estruturada em episódios com pouco mais de vinte minutos, focado no ponto de vista de cada personagem. Essa fórmula é muito assertiva pois não cria nenhuma barriga durante as passagens. Uma das grandes sacadas de Dear White People foi criar uma montagem não linear dos fatos, situando o espectador sobre certos acontecimentos porém, revelando-os nos episódios seguintes. Existe ainda a presença de um narrador onipresente, mas ele pouco aparece. Seria mais sensato deixar Samantha White (Logan Browning) como essa figura, já que a mesma conduz o programa de rádio com o nome da série e é a principal responsável pelos questionamentos da universidade.

Como cada episódio aborda um personagem diferente, temas recorrentes da vida universitária, como consumo de drogas, sexo, homossexualidade e violência policial são explorados com um humor sarcástico aliados a um drama bem interessante. O quinto episódio, por exemplo, dirigido por Barry Jenkins (Moonlight), é focado em Reggie (Marque Richardson) no qual é vítima de uma desproporcional truculência policial durante uma festa no campus. O diretor cria o momento de maior tensão durante toda a série, em uma cena bastante apreensiva, produz um sentimento de indignação muito forte.

Aliás, a estética da série é primorosa. Justamente no intuito de criar esse desconforto, a fotografia, repleta de tons pastéis, enfatiza planos mais desarmoniosos, com os personagens falando para fora do quadro em diálogos um pouco mais tensos. A quebra da quarta parede também é constante, percebendo a real intenção de passar a mensagem diretamente para o espectador.

O jovem elenco, em sua maioria negro, se comporta muito bem. O desenvolvimento dos personagens é amarrado de forma bastante clara, elevando cada um à partir de diferentes motivações. Contudo, justamente o personagem de Reggie foi que recebeu menos atenção. Tirando o forte quinto episódio, Marque Richardson se abraça em um poético triângulo amoroso que se desconstrói ao final.

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Dear White People se mostra corajosa por, além de enfatizar o grande problema do racismo, aponta a vitimização de quem o pratica, tentando inverter a situação e mais preocupados em não receber tal rótulo do que pensar na sua atitude. Há ainda o olhar interno da situação, identificando pequenos conflitos dentro do próprio movimento negro. O preconceito intrínseco ressalta o relacionamento entre um rapaz branco e uma moça negra, ou até em músicas nas quais as pessoas estão escutando.

Apesar dos diálogos simples em sua maioria, Dear White People se distância do enredo adolescente e dos dilemas amorosos dessa idade. A mensagem por trás consegue ser mais forte que a vida universitária. Os dramas expostos, ao final se justificam mas deixam várias pontas soltas para uma evidente segunda temporada. Mais uma bela produção da Netflix, modernizando um tema pesado e botando o dedo na nossa cara, para falar que o racismo está presente no dia a dia e que precisa ser combatido.