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Filmes

Crítica: David Lynch – A Vida de Um Artista

Nada é normal se tratando de David Lynch

31 de agosto de 2017 - 22:58 - Tiago Soares

Antes de mais nada, devo dizer que é uma honra para mim escrever a minha primeira crítica de um documentário justamente falando sobre um dos meus diretores favoritos. Criador de obras como Twin Peaks, Veludo Azul, O Homem-Elefante e Cidade dos SonhosDavid Lynch conseguiu chamar a atenção com seu estilo peculiar, mas que se olhado de uma forma diferente e com uma cabeça aberta a novas experiências, faz total sentido. Lynch nunca buscou o chocar apenas pelo espetáculo, somente deseja contar a história do seu jeito – que na mente dele e de muitos fãs assim como eu – funciona e impressiona.

 

Sendo assim, realizar um documentário sobre a vida do artista que é Lynch, que pra quem não sabe – dirige, escreve, atua, pinta, canta, toca alguns instrumentos, realiza a edição de som de alguns dos seus trabalhos – se torna uma total incógnita sobre que lado do artista será abordado. O diretor Jon Nguyen (que tinha feito outro documentário sobre o diretor em 2007), em parceria com Rick Barnes e a editora Olivia Neergaard-Holm optam pela pintura, e grande parte deste documentário é sobre esse amor da vida de Lynch. Para quem esperava destrinchar clássicos do diretor como Eraserhead e O Homem- Elefante vai se decepcionar um pouco. Digo isso porque minha sessão lotada – parcialmente perdia público – sem contar aqueles que dormiram – um pecado se tratando de uma obra tão bonita.

 

Fugindo do óbvio e quebrando expectativa como a maioria das obras de Lynch, vemos o diretor pintando no seu estúdio nas colinas de Hollywood, as vezes sozinho, as vezes ao lado de sua pequena filha Lula. O mesmo narra alguns eventos de seu passado, que são intercalados com fotos e vídeos antigos, sendo eles em preto e branco ou não, ao mesmo tempo que suas obras da adolescência e juventude, ou até aquelas que ele realiza ao vivo para nosso deleite, são mostradas. Assim os diretores deixam a obra mais pessoal – sem a participação de terceiros – fazendo também com que algumas falas do diretor sejam inconclusivas e realistas – tudo auxiliado por uma bela fotografia no presente, com cores quentes, a uma escuridão no passado – reflexo da vida de David, que saiu de uma pequena e calorosa cidade do interior para se aventurar na escura Filadélfia a ponto de seguir seu sonho – algo que o mesmo considera como uma decisão difícil, mas extremamente importante.

 

 

O filme não foca apenas na vida de Lynch como diretor, mas mostra a influência que sua família – principalmente sua mãe e seu pai – do qual fala com um carinho incrível. Desde a infância e depois a adolescência, quando começou a se apaixonar pela pintura, era perceptível que a cabeça de Lynch não era “normal” e muitas de suas obras já estavam sendo pensadas de antemão. A arte de pechinchar com o pai, a medida que começava a se apaixonar pela coisa e ajudar a bancá-la, até o fato de ter um porão cheio de animais se decompondo – para ver como funcionava esse processo – são coisas que mostram o que uma mente idílica e surrealista estava preparando pra nós.

 

Apesar de não abordar os filmes em si, é possível perceber as inúmeras referências de seus filmes nesses trabalhos – como sua facilidade em trabalhar com modelagem ou “massinhas”, que foram importantes para fazer o designer do bebê em Eraserhead, desde o conceito do Homem-Elefante. O que mais me impressionou particularmente é que muitas artes conceituais de Lynch foram usadas na atual temporada de Twin Peaks. É possível notar a criatura “mãe” de Bob e a mulher chamado Naido, que aparece nos primeiros episódios. O restante vou deixar que descubram para não estragar a surpresa.

 

 

Aliás, um ponto importante a se tratar é este: até quando uma obra precisa se bastar pro si só? David Lynch: The Art Life (no original), é um filme feita pra fãs. Quem não conhecer as obras anteriores de Lynch ou o jeito de filmar do diretor ficará completamente perdido, pois apesar de não ser uma obra necessariamente dele, muitos de seus trejeitos são retratados. Aliás, a edição e a trilha sonora inquietante, com um belíssimo trabalho sonoro, assim como períodos de longo silêncio são características do diretor – algo que pode trazer alguns problemas de ritmo – o que não me afetou, mas que foi perceptível em parte do público.

 

Portanto, David Lynch: A Vida de Um Artista passeia pelos primeiros curtas do cultuado do diretor, ocultando suas maiores obras (com Eraserhead sendo apenas citado) e focando justamente naquilo em que o fez se tornar o que é hoje. Desde os traumas de infância, até a passagem pela noir Filadélfia (o que influenciou e muito o visual de seus filmes), o documentário se importa justamente em abordar aquilo que difere a vida real da ficção, a linha tênue entre eles e o que Lynch tirou dessas experiências oníricas e como as usou em seus trabalhos, seja no cinema, na TV ou em suas pinturas e músicas. A mente de Lynch parece um poço efervescente de ideias criativas e isso é nítido só de olhar para ele. O documentário analisa o artista idiossincrático e o mesmo tempo faz um retrato de sua personalidade, assim como o de seu processo criativo, se é que é possível saber o que se passa na cabeça desse gênio.