AODISSEIA
Filmes

Crítica: CORRA!

Entre o terror psicológico e a crítica social

18 de Maio de 2017 - 12:28 - Tiago Soares


Antes de chegar aos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira, Corra! já é um enorme sucesso no mundo todo. Não apenas pelo seu trailer insano, que desperta nossa curiosidade – mas o filme – filmado em 28 dias por um diretor estreante (Jordan Peele), que custou 4, 5 milhões de dólares já arrecadou 214 milhões no mundo todo, até a data de publicação deste texto – se tornando um dos filmes de terror de maior bilheteria  e retorno financeiro. Unindo tudo isso, a expectativa era grande, já que apesar de todo o sucesso de público, o filme também ganhou a crítica, obtendo impressionantes 99% no agregador de críticas Rotten Tomatoes. Tardiamente, o filme chega ao Brasil nos gerando a dúvida: será que é tudo isso mesmo? E com o perdão do trocadilho respondo: Corra para o cinema!

 

O filme conta a história do jovem fotógrafo Chris, que namora Rose há 4 meses, e recebe o convite da mesma para passar o fim de semana na casa dos pais da moça. Desde o início, Chris parece relutante, já que Rose é branca e ele negro. Chris gostaria que isso fosse avisado de antemão, mas recebe o conforto de Rose, que fala que os pais não são racistas e votariam no Obama por um 3ª vez se fosse possível.

 

É claro que chegando lá, inúmeras coisas esquisitas e inesperadas começam a acontecer ao redor de Chris. É curioso perceber o esmero na direção e no roteiro do estreante Jordan Peele (Keanu: Cadê meu Gato?) – acostumado apenas a comédias, Peele deixa sua marca já no prólogo, em um incrível plano sequência, que inverte posições e já cria o ar de tensão ao mostrar um jovem negro sendo sequestrado por um carro branco. Metáfora? Sim, apenas uma de muitas que o filme trará.

 

 

Desde o caminho de Chris até a casa dos pais de Rose, o preconceito velado já aparece na figura de um policial, e desde então só aumenta com a presença de empregados negros, a família tentando ser super cool, culminando na festa, o momento mais desconfortante da produção. Inteligentemente, Peele filma a cena do encontro inicial de Chris com os pais de Rose num grande plano aberto, e não em planos detalhe ou médios como é de costuma em um primeiro encontro.

 

Lembro que mencionei isso a um amigo que estava comigo na sessão e disse: “o diretor quer mostrar a falta de ligação entre eles, que ele está lá, mas não pertence aquele lugar, que ele é convidado, mas não é bem-vindo”. O que se torna verdade, auxiliada pela sagacidade do roteiro em fazer com que nós nos identifiquemos com o protagonista, que além de ser carismático, também está alheio a tudo que acontece. Seja nas sessões de hipnose, nos misteriosos empregados, nas atitudes estranhas dos convidados da festa, a sensação de WTF só aumenta a cada minuto.

 

Na maioria das vezes nossa mente se perde, porque estamos tão imersos na narrativa que sentimos tudo o que Chris sente. O ótimo trabalha de Daniel Kaluuya (Black Mirror) é suficiente para gerar um sentimento de empatia imediata com o personagem. Apenas com os olhos, o ator transmite todo o desespero, confusão e desconforto. Allison Williams (Girls) é outra surpresa. Este é o primeiro longa da atriz, que mostra confiança, frieza e controle ao transitar entre personalidades.

 

 

Mas os atores veteranos Catherine Keener (O Virgem de 40 anos) e Bradley Whitford é que dão segurança a produção como os pais de Rose. Ele mais contido – mais interessado no diálogo com inteligência e certa manipulação involuntária (ou voluntária dependendo do ponto de vista) – ela, mais carismática, sutil e arrebatadora as vezes – a atriz é o elo entre nossa realidade e aquela mostrada no filme, num roteiro em que qualquer atriz só seria robótica ou teria inúmeros trejeitos, Catherine opta pelo simples, mas eficiente.

 

É claro que a comédia, berço do diretor, não poderia ficar de fora, e quando não estamos rindo de nervoso, soltamos algumas gargalhadas, principalmente pelo personagem de LilRel Howery. Ele interpreta Rod, o amigo de Chris, e além de ser a o alívio cômico da produção, rende diálogos incríveis com o protagonista. O interessante é que o personagem é da TSA (orgão que faz a segurança e imigração nos aeroportos), instituição que não é muito adorada nos EUA – e o diretor o coloca como principal válvula de escape e simpatia.

 

 

O terror em Get Out (título original) – está além do bizarro e da revolta – está no racismo velado. O racismo do “eu não sou racista, tenho até amigos que são negros”, se confunde com empatia e normalidade. Jordan Peele usa do terror para fazer essa crítica social, que ocorre não só nos EUA, mas por aqui também. O diretor e roteirista teve a ideia de fazer o filme depois de ir a um stand-up de Eddie Murphy, que relata o dia que foi conhecer os pais de sua namorada branca. Algo aparentemente normal, se torna motivo de debate e necessária discussão. Misturando terror, drama, suspense e leve dose de humor – Corra! vai além do plot twist estilo Shyamalan – que pode tirar alguns do filme pela falta de “realismo” – mas tenho certeza que você não vai desgrudar os olhos da tela no eletrizante e bem filmado último ato.

 


 

Obs 1: Assisti ao filme duas vezes, e isso me deu outras perspectivas, principalmente quando você já sabe o final.

 

Obs 2: SPOILER (SE VOCÊ NÃO VIU CORRA NÃO LEIA) – Jordan Peele pensou em encerrar o filme com a polícia de verdade chegando no fim e Chris sendo preso pela morte de todos, o que refletiria o cenário atual – mas o diretor mudou de ideia e quis dar um “final feliz”, por achar o original muito pesado.