Crítica: Combo Outcast – Série + HQ

Extremamente fiel ao seu material original, série revoluciona o terror na TV.


Lançada pela Image Comics em junho de 2014, Outcast prometeu algo diferente do maior sucesso de Robert Kirkman, criador também de The Walking Dead. Kirkman desde o início disse que TWD não se trata de uma HQ/série de terror, e sim sobre pessoas. Já em Outcast, Kirkman queria que isso fosse dividido. Teríamos personagens fortes, mas teríamos bons sustos, até mesmo lendo a HQ. Felizmente ele estava correto, a mesma história nas duas mídias, assusta bem mais que muitos filmes de terror por aí.

Diferente do que aconteceu comigo em TWD (do qual sou muito fã, e comecei a ler as HQs depois da 2ª temporada da série), assim que Kirkman anunciou seu novo título, que logo em seguida teve seus direitos adquiridos pelo Cinemax, passei a ler desde o princípio. E a notícia de uma série de televisão trouxe alegria e certo receio, já que seria ótimo ver Kyle Barnes e companhia em tela, mas também podia ser uma grande decepção. Felizmente tudo que foi adaptado, funcionou dentro da narrativa, e temos que entender que se trata de uma mídia diferente, que teve que apresentar a série não somente para fãs, mas para o grande público.

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Desta vez ao lado de Kirkman, surgem Paul Azaceta (Artista), Elizabeth Breitweiser (Colorista) e Rus Wooton (Letras). Para contar a história de Kyle Barnes, um homem que desde criança é atormentado por possessões demoníacas. Elas não acontecem com ele, e sim com pessoas que ama no decorrer da vida. Ocorreu com sua mãe quando criança, em seguida com sua parceira, fazendo-o voltar a sua cidade natal, aonde vai tentar descobrir o motivo disso tudo. Além disso quando ele toca nos possuídos, tem o poder de retirar seus demônios. De início, é conveniente dizer que a história não vai prendê-lo, já na edição 3 e 4, temos uma certa direção, e ficamos curiosos para saber, quem é Kyle Barnes e o que ele representa para os demônios.

Ao lado do Reverendo Anderson, Kyle vai em busca de conhecer mais sobre si, sempre chamado de outcast (exilado) por eles, se sente amaldiçoado de certa forma. Além deles, temos Megan, a irmã de Kyle, que tenta ajudar o irmão, mas também vive em conflito com seus demônios interiores e seu marido Mark. A adição da figura misteriosa de Sidney,tido por muitos como o próprio diabo encarnado, aumenta o mistério sobre Kyle e sua jornada na pequena cidade de Rome, na West Virginia.

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Os desenhos de Paul Azaceta, contam com perfeição e cada página parece um grande espetáculo. Com um visual que vai do realista ao fofo, Paul dá a sensação de algo agradável de ver, com traços redondos e bordas mais grossas. Pequenos quadrados inseridos, para dar enfase a reação de dado personagem, é uma técnica que poucos usam, mas se torna necessária,e denota foco. As cores de Elizabeth também são de grande importância, já que diferente de TWD, todas as edições são coloridas.

Para a série de TV, Kirkman se uniu a Chris Black, que tem inúmeros trabalhos na TV. Juntos escalaram Patrick Fugit para Kyle Barnes. Que apresenta um personagem fiel a HQ, parecendo sempre que algo o incomoda, afinal está longe da mulher e da filha. Junto da belíssima atuação de Philip Glenister como Reverendo Anderson, que vive em constante conflito com sua fé, que parece abandoná-lo nos momentos mais difíceis. Ambos partem numa jornada de auto conhecimento, cada um com seus motivos. Fazendo da série uma colagem de eventos da HQ na telinha.

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Kirkman e Chris fazem um certo rodízio de diretores e escritores, e conseguem passar a dualidade necessária que os personagens tem que ter. Principalmente os possuídos. Diferente de séries de sucesso como Supernatural ou filmes de possessão, o assunto aqui é abordado de maneira diferente. Vemos que estar possesso nem sempre é um martírio, acaba se tornando uma benção pra alguns, mostrando que aceitam aquilo e se sentem bem. Muitas vezes as pessoas são piores que os próprios demônios. Algo que também é abordado é a questão de que sempre após um exorcismo, algo é levado da pessoa possuída, muitas vezes não dando margens para a volta a normalidade, como acontece com a mãe de Kyle.

Tramas paralelas como o caso de estupro no passado com Megan (a incrível Wrenn Schmidt), e uma investigação do Chief Giles (Reg E. Cathey), envolvendo uma possível ligação de Ogden (Pete Burris) com as possessões, parecem desconexas no início, mas acabam sendo muito importantes para o todo, principalmente em seu final. A figura de Sidney vivido por Brent Spiner traz todo o cinza que o personagem necessita. Cinza esse que demonstra o ar sombrio de Rome, destacada na bela fotografia, aonde até lugares iluminados parecem ser afetados.

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A trilha sonora também é algo a se lembrar, importante para criar tensão, principalmente quando os personagens estão indo a loucura, algo feito com perfeição pelo vários diretores em câmera tremida. Planos em contra plongée mostram que metaforicamente o mal vem de baixo, além de enquadramentos fechados em personagens que estão próximos a sofrer uma possessão. Afinal, o que querem Sidney e seus possessos? Pela visão deles, Kyle é o verdadeiro inimigo, o que dá a série camadas e diferentes pontos de vista.

Apesar dos 5 episódios inicias serem ótimos, podem não ter muito movimento e desagradar as mentes desesperadas por ação. Mas você encontrará uma boa narrativa e personagens bem profundos, os discursos do reverendo Anderson que o digam. A partir do episódio 6, com uma pequena passagem de tempo, a série liga o pé no acelerador, mas com muito cuidado, avançando a história e revelando mais sobre o Outcast.

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Por ser semanal, os cliffhangers imperam, e a cada episódio acabado, surge o desespero pelo seguinte. Cliffhanger este, poderoso, que termina esta temporada, mas concluindo em parte sua história, não algo ridículo como em TWD. Talvez a mão de Kikrman como consultor tenha ajudado bastante, pois não há enrolação em Outcast, sendo que as vezes um episódio aborda duas edições da HQ.

Na HQ estamos na edição 18, a série já abordou os fatos até a edição 15, e até a 2ª temporada em julho do ano que vem, mais edições virão, e muitas mudanças incorporadas a série foram e serão bem vindas. Outcast revoluciona o terror na TV, por fugir da luta do bem contra o mal, anjos e demônios e em vez disso apresentar personagens ricos e dúbios. Com toda certeza, um dos melhores acertos do ano.


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