AODISSEIA
Filmes

Crítica: Cidades de Papel

15 de outubro de 2015 - 23:23 - Flávio Pizzol

 

Não existe nenhum outro jeito de começar esse texto a não ser admitindo que tenho algum preconceito em relação aos livros de John Green. Não é nada contra ele (já acompanhei seu canal no YouTube por muito tempo) ou contra a sua escrita, a questão é que eu prefiro histórias que envolvam grandes doses de crimes, suspense ou ciência e, por isso não me arrependo de não ter lido seus livros. Entretanto, também tenho que admitir que errei em estender esse preconceito para o cinema, já que acabei encontrando um filme que poderia simplesmente ser sobre mim.

 

Cidades de Papel conta a história de Quentin, um garoto que, no fim do ensino médio, divide sua vida entre seus planos de virar médico (isso inclui ser o mais certinho possível) e um amor platônico pela sua vizinha, Margo. Toda a sua vida vai acabar mudando quando a garota desaparece logo depois de uma noite de aventuras e ele resolve arriscar tudo em uma viagem para se declarar.

 

Por conta dessa sinopse e de todo o material de divulgação, eu achei que iria assistir apenas mais um filme de romance, mas acabei tendo uma grata e inesperada surpresa no decorrer dos seus 109 minutos de duração. De fato, Cidades de Papel é o típico filme de romance daqueles que segue o desenvolvimento padrão do gênero e preenche boa parte do seu tempo com alguns clichês, mas ele também pode ser muito mais do que isso. Digo que pode ser, porque é necessário que você seja, de alguma maneira, parte do seu público-alvo.

 

 

Esse não o meu caso quando se trata de filmes de comédia romântica, mas o roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber (roteiristas de The Spetacular Now, 500 Dias sem Ela e A Culpa é das Estrelas) possui um grande diferencial quando se trata da linguagem usada para contar essa história. Não sei se isso também acontece no livro, mas o filme fala diretamente com a juventude sobre os dilemas desse momento da vida e eu me vi representado ali com todos os amores platônicos, conversas nerds e momentos de despedida que mudaram minha vida durante o ensino médio. E acabei indo ainda mais longe, porque me vi perfeitamente refletido em Quentin.

 

E a partir do momento em que percebi o quanto sou parecido com o protagonista, eu não consegui deixar de me envolver e simplesmente torcer por cada um dos personagens. Até posso dizer que o roteiro peca no uso das coincidências para resolver alguns momentos e também erra um pouquinho no final, mas tenho que admitir que embarquei na história de uma maneira tão forte que eu, provavelmente, deixei alguns problemas passarem direto.

 

Isso é um acerto tanto do roteiro, quanto da eficaz direção de Jake Schreier. Ele não faz um trabalho excepcional, mas demonstra ter uma grande noção de fluidez, um ótimo gosto musical através da trilha sonora e um bom controle do seu elenco. E considerando que é raro um filme desse tipo não pecar pelos excessos, encontrar um filme que, além de funcionar muito bem, consegue passar muito rápido e levar o espectador para dentro da história é, na minha humilde opinião, um feito marcante.

 

 

Mas, acima de tudo isso, eu acho que o grande truque do filme está nos seus personagens principais, que conseguem ser extremamente genuínos, já que possuem dramas palpáveis e diálogos que são a representação perfeita de uma conversa entre amigos que se conhecem desde quando eram fetos. E o melhor é que eles encontram os interpretes perfeitos em um elenco que parece ter sido escolhido a dedo, mesmo sem ter um grande nome ou um trabalho individual impecável.

 

Entre todos eles o destaque fica quase todo com Nat Wolff, que, mesmo com toda a pinta de galã adolescente que provavelmente é, consegue passar, de maneira singela e real, toda a diversidade de emoções que Quentin passa durante o filme, incluindo a timidez inicial, o coração partido e a nostalgia da ida para a faculdade. Ainda assim, tudo isso seria muito difícil sem o apoio constante e os momentos claramente improvisados de Austin Abrams e Justice Smith (não é mais um filho babaca do Will). Os três funcionam tão bem em cena que eu fiquei com a impressão de que eles também são amigos de longa data do lado fora das telas.

 

O restante dos coadjuvantes, como Halston Sage e Jaz Sinclair, recebem menos atenção, mas tem seus momentos de importância dentro da história e conseguem segurar o papel. A exceção aqui fica por conta de Cara Delevingne, que tem grande importância para o andamento do longa mesmo sem aparecer muito. Entretanto eu deixei ela por último, porque encontrei (ao contrário de todo o resto) algumas dificuldades para aceitar ela como essa figura de grande imponência e força, que chega a ser tratada como “milagre” pelo longa. Ela não faz um mal trabalho, mas também não parece ser a escolha certa para o papel em questão.

 

 

Mesmo assim, isso não é um grande problema para um filme simples que, apesar de alguns erros de roteiro, consegue envolver, divertir e surpreender o espectador com um final que não costuma ser utilizado em comédias românticas. Mas isso só é possível porque o filme, assim como o decente A Culpa é das Estrelas, não é sobre o amor entre os protagonistas. É sobre um algo mais que, nesse caso, traduz perfeitamente a vida de muitos jovens de todo o mundo que lidam diariamente com o amor, com a amizade e com a nostalgia de todas as primeiras vezes que marcam uma vida inteira.


OBS 1: Não tem como falar com a juventude sem falar de cultura pop, então parabéns pelas referências a Game of Thrones e Pokémon.