AODISSEIA
Filmes

Crítica: Castelo de Areia

4 de Maio de 2017 - 11:35 - Flávio Pizzol

Um pequeno passo para a Netflix, um grande passo para Fernando Coimbra


É bem provável que a Netflix seja a produtora de conteúdo que mais invista em produções originais atualmente. A maioria das séries encontraram seu público característico e se tornaram sucessos quase imediatos, porém precisamos admitir que os filmes não representam grandes acertos desde Beasts of No Nation (a primeira produção do grupo). Mesmo assim, os investimentos só aumentam para que os astros de Hollywood encontrem outra casa para seus projetos – Brad Pitt estreia seu novo filme exclusivo em maio. Mesmo com alguns problemas, Castelo de Areia funciona como um exemplo positivo dessa busca, além de representar um passo gigantesco para a carreira do brasileiro Fernando Coimbra.

Baseando-se em parte de sua próprias experiências na guerra, o roteirista Chris Roessner desenvolve uma crônica de guerra que à primeira vista não foge de nenhum padrão narrativo do gênero. Nele, Ocre é um jovem soldado que precisa conviver com uma guerra sem motivações válidas, após ter se alistado por pura influência da sociedade. Essa perspectiva vai ganhando novas camadas no decorrer das missões, culminando na tentativa de conviver com os habitantes de uma pequena vila cujo o abastecimento de água está sendo restaurado.

Todos os questionamentos são obviamente permeados por tiroteios, discussões morais e conflitos emocionais um tanto quanto batidos em filmes que colocam os conflitos americanos no Oriente Médio em foco, mas o roteiro encontra espaço para trabalhar uma abordagem mais intimista que me interessa bastante. A guerra em grande escala ainda marca sua presença com boas sequências de ação, no entanto o filme ganha corpo quando se concentra nos soldados isolados e sua relações com os próprios iraquianos, permitindo uma análise focada nas reações de cada camada da sociedade àquela situação.

Nesse contexto, Roessner consegue explorar desde soldados patrióticos que enxergam a guerra como uma espécie de honra até iraquianos contrários a invasão norte-americana, passando em alguns momentos por uma parcela do população que parece aprovar certos aspectos da atuação do exército. O protagonista acaba ganhando ainda mais valor no meio dessa confusão, afinal ele não compreende todos os reflexos do conflito e acaba atuando como um guia para o público ao se espantar com certos contrastes e ideais. Inclusive, o seu arco como personagem foge completamente do padrão por ser justamente sobre suas mudanças de opinião.

Ao mesmo tempo, essa particularidade tão oportuna do texto só funciona por dar alguma (não tanta quanto deveria) importância e voz para os próprios iraquianos. Não é nada profundo nem gera personagens realmente marcantes, mas professores, engenheiros e moradores comuns possuem mais função narrativa do que na maioria dos filmes de guerra americanos. Eles são peças fundamentais tanto para fomentar fomentar certas discussões como escancarar realidades. O diálogo em que um dos engenheiros deixa Ocre incrédulo ao revelar que, ao contrário dos EUA, o Iraque fornece educação superior gratuita garante seu lugar como um dos melhores momentos do filme.

terceiro ato, infelizmente, volta seu olhar para as missões especiais novamente, cai no maniqueísmo e perde muito do que havia sido tão bem explorado no meio da produção. Me incomoda um pouquinho, mas ainda funciona graças ao trabalho incrível de Fernando Coimbra por trás das câmeras. Ele sabe como impôr urgência e extrair tensão de momentos cotidianos, criando sequências proporcionalmente valiosas tanto na invasão que movimenta o clímax quanto em uma simples distribuição de água no meio do nada.

Além disso, o diretor parece estar muito à vontade com a liberdade criativa oferecida pela Netflix, repetindo inclusive vários elementos narrativos que também podem ser vistos tanto em O Lobo Atrás da Porta quanto nos episódios de Narcos comandados por ele. Castelo de Areia funciona como uma história parcialmente fictícia que se apropria de um contexto brutalmente real, enquanto planos-sequência e travellings laterais surgem com certa frequência no meio da guerra para acompanhar os soldados com a tal urgência necessária.

Isso sem contar que Coimbra repete aqui seu bom trabalho como diretor de atores. O roteiro escorrega um pouco na construção de algumas motivações, mas Nicholas Hoult (X-Men: Apocalipse) e Logan Marshall-Green (O Convite) se destacam. O primeiro por conseguir transmitir as transformações do personagem com a sutileza de pequenos olhares e o segundo por ser uma espécie de representação da sabedoria apesar da juventude. Enquanto isso, Henry Cavill (Homem de Aço) só ganhou um lugar no pôster pelo nome famoso, já seu personagem possui poucas cenas realmente importantes para a narrativa.

No final das contas, Castelo de Areia consegue atravessar o tiroteio de erros e sair com vida. É um filme um tanto quanto lento que aproveita caminhos incomuns do texto e a boa direção de Coimbra para explorar uma versão mais intimista da guerra. Uma guerra onde grandes cenas de ação podem ser facilmente substituídas por conflitos morais internalizados ou momentos de pura tensão sem perder a atenção do espectador. Não chega aos pés da obra prima que Fernando entregou em O Lobo Atrás da Porta, mas é um exemplar interessante tanto para o catálogo da Netflix quanto para promissora carreira internacional do diretor.