AODISSEIA
Filmes

Crítica: Carros 3

O velho Catchau

23 de julho de 2017 - 23:08 - felipehoffmann

ATENÇÃO! Esse texto contém alto índice de spoileranyum.

 

Desde o primeiro trailer lançado para a divulgação de Carros 3, a Pixar deu a entender que esse seria um filme mais dramático, com uma pegada dark. De fato, Carros 3 é mais trágico, porém não tira a beleza da evolução de seu personagem principal e apresenta um costumeiro tom emocional, diferente dos outros dois filmes da franquia.

 

 

Carros 3 pode ser visto como uma redenção do segundo filme. O longa, lançado em 2011, apresentava uma história de espionagem um tanto quanto estranha, longe dos padrões que estamos acostumados a ver. É de se espantar, pela qualidade vista a cada obra, que esse seja o pior filme da Pixar até hoje. Talvez por isso o hype para Carros 3 não estava alto. Fui assistir a obra pela obra, sem expectativas, numa sessão recheada de crianças. E esse foi o meu maior termômetro para sentir a redenção da franquia.

 

O longa tem um início muito bom, com McQueen nos seus dias áureos, feliz com o esporte e a vida que levava, mesmo sem ganhar todas as corridas. Quando o novato Jackson Storm chega, surpreende a todos com sua jovialidade e tecnologia. Relâmpago Marquinhos sente-se contrariado ao perceber que já não compete no mesmo nível que os jovens e entra num processo de incômoda aceitação que, já no segundo ato, vira o momento de maior “barriga” do filme.

 

 

Por focar em um tom mais dramático, a Disney explora essa decadência natural de qualquer ser humano, ou carro, no caso. Cruz Ramirez é uma técnica, responsável pelo treinamento de McQueen, na tentativa de fazer volta-lo a ocupar o topo da Copa Pistão. É justamente com Ramirez que Carros 3 se ancora para um ponto de virada muito interessante.

 

Sempre gostei da temática velhice. A dissemelhança com a juventude e o processo de aceitação de quem você realmente é sempre rendem boas histórias. E é aqui que McQueen se encaixa. Ele percebe que o segredo não é a velocidade e sim a inteligência. Ayrton Senna ganhou muitas corridas assim. Quando corria pela McLaren e as Williams tinham um carro extremamente veloz e tecnológico, isso no início da década de 90, ele usava da estratégia para derrotá-las.

 

 

Contudo, o plot twist que fez a criançada vibrar, não foi uma vitória do Catchau. Ramirez, a técnica, sempre se mostrou notória corredora e McQueen percebeu isso. Ele a transformou na pilota principal e a impulsionou para a vitória. As crianças ficaram loucas. Nunca imaginariam que ELA seria a vencedora. Que tiro certeiro da Pixar! Colocou seu personagem principal na pele de quem o fez um competidor e transformou uma outra personagem em campeã. Aí você percebe que, na verdade, Carros 3 é a história de Cruz Ramires pelo ponto de vista de McQueen.

 

Ali, no momento da vitória, é possível sentir o Tempero Pixar. Um choro suave que não contive me mostrou, novamente, que uma animação pode sim te emocionar e trazer lições para a vida real. Carros 3 pode não ser o melhor filme de todos, mas tem sua própria essência, que fora esquecida no título anterior. É uma história de superação, de redenção e aceitação que surpreende no final. Claro, não está no nível de Toy Story e Divertidamente, mas possui a alma que só a Pixar tem.