AODISSEIA
Filmes

Crítica: Carol

10 de Fevereiro de 2016 - 13:14 - Flávio Pizzol

Um olhar que grita por liberdade


186551Se tivesse que resumir Carol de maneira rápida, eu diria que esse é um dos filmes elegantes que eu já vi nos últimos tempos. Não seria algo errado, mas seria injusto resumir dessa forma um longa que enche a tela de beleza e conteúdo como poucos, mostrando que apenas um olhar pode ter milhares de significados.

O filme, baseado em romance publicado por Patricia Highsmith em 1952, conta a história do relacionamento amoroso entre Therese e a personagem que dá nome ao filme depois que elas se conhecem em uma loja de departamento. Uma história de amor muito bonita que precisa sobreviver ao casamento inacabado de Carol, as indecisões de Therese e, é claro, ao grande preconceito vivido pelos homossexuais em plena Nova York dos anos 50.

O roteiro, adaptado por Phyllis Nagy, consegue traduzir justamente isso durante as quase duas horas de filme. Começa como um texto realmente bem simples e chega muito perto de deixar claro que o centro da história é um romance típico, mas isso não passa do caminho escolhido para falar de tantos assuntos polêmicos de uma forma sutil e extremamente bonita. Então não se assuste, se você for descobrindo novas camadas a cada cena e se ver pensando sobre a existência do machismo e do preconceito na nossa sociedade, porque, acima de tudo, Nagy consegue fazer com que o seu texto seja tremendamente atual.

O melhor é que ela faz isso sem tentar chamar atenção, abrindo espaço para que os diálogos ambíguos e os olhares cheios de poder ganhar vida através da direção pontualmente perfeita de Todd Haynes. O diretor, que tem fama de ser extremamente perfeccionista, conduz o desenvolvimento do filme sem pressa nenhuma, cria a ambientação perfeita (com a ajuda dos ótimos trabalhos de direção de arte e fotografia) para que o filme encha os olhos da platéia e prepara o clima para falar sobre todos esses temas que já fazem parte o seu trabalho há um bom tempo.

Mesmo assim, o grande destaque está na maneira como ele decide dirigir a própria relação das duas protagonistas, dando muito espaço para que os gestos e os olhares passem tantos significados diferentes em cada cena e criando uma metáfora poderosa através da forma como elas sempre se observam através de vidros, frestas e lentes de câmeras. O relacionamento delas não era algo bem-vindo para aquela sociedade e elas nunca podem permitir que os seus olhares se encontrem sem nenhum obstáculo, inclusive quando todo mundo imagina que elas finalmente conseguiram.

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E, se isso tudo são motivos mais do que válidos para comprovar que Haynes deveria ter sido indicado ao Oscar, pelo menos podemos aceitar que o preconceito da Academia poupou as atuações praticamente perfeitas de Cate Blanchett e Rooney Mara. Enquanto a primeira sabe demonstrar todo sofrimento de sua personagem ser perder a altivez e a sensualidade garantidas pela experiência, a segunda surpreendente ao conseguir guiar o público através de um olhar preenchido por curiosidade e paixão. São trabalhos intensos e fortes que ainda encontram companhia nas boas participações de Sarah Paulson e Kyle Chandler.

No fim das contas, Carol é um filme elegante, emocionante e poderoso que merece ser mais conhecido, discutido e reconhecido, inclusive no próprio Oscar que deixou duas vagas de Melhor Filme sobrando sem incluir essa obra-prima. Inclusive, podemos usar ele como tema para pensar sobre a nossa sociedade e reconhecer onde estão esses mesmos olhares que significam tanto e se escondem enquanto gritam por liberdade e reconhecimento.


OBS 1: A edição do filme é feita por um brasileiro, chamado Affonso Gonçalves. Ele não tem nenhum grande projeto no Brasil, mas é bem reconhecido lá fora pelos seus trabalhos em Inverno da Alma, Mildred Pierce, Indomável Sonhadora e na primeira temporada de True Detective.


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