AODISSEIA
Filmes

Crítica: Caça-Fantasmas (2016)

15 de julho de 2016 - 12:40 - Tiago Soares

Who ya gonna call? ♪


100171.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxxGHOSTBUSTERS! Que saudade de ouvir essa música novamente. Apesar de não ser um grande fã do clássico de 1984, é importante dizer que Os Caça-Fantasmas original foi um filme extremamente importante na cultura pop, visto e revisto na Sessão da Tarde, além é claro, da música tema chiclete. Tivemos uma sequência bem questionável, mas, 27 anos depois, o universo fantasmagórico volta com um grupo de mulheres dispostas a “limpar a cidade” de Nova York de terríveis fantasmas e um vilão cartunesco.

Com um primeiro trailer fraco, os fãs do clássico não estavam tão confiantes assim. O mesmo trailer bateu o recorde de deslikes no Youtube, sendo o mais rejeitado da história. Desde então abriu-se a questão: O filme seria ruim de fato, ou estamos lidando com o machismo gritante? Se você analisar os comentários na postagem do dito cujo, saberá do que estou falando. Mas, machismo em 2016? Em Hollywood? Sim, infelizmente sim. Por todas estas questões fui ver o filme sem expectativa e muito menos de forma condenativa, e venho com orgulho dizer que estamos diantes de um dos filmes mais divertidos do ano.

Atualmente uma respeitada professora da Universidade de Columbia, Erin Gilbert escreveu anos atrás um livro sobre a existência de fantasmas em parceria com a colega Abby Yates. A obra, que nunca foi levada a sério, é descoberta por seus pares acadêmicos e Erin perde o emprego. Quando Patty Tolan, funcionária do metrô de Nova York, presencia estranhos eventos no subterrâneo, Erin, Abby e Jillian Holtzmann se unem e partem para a ação pela salvação da cidade e do mundo. Em homenagem as quatro protagonistas maravilhosas, esta crítica será dividida em quatro partes:

1) A Química e as Piadas

Frutos de uma das melhores safras do SNL (Saturday Night Live), as quatro moças apresentam um química incrível em cena. É como se uma soubesse o que a outra esta pensando. Méritos do roteiro de Katie Dippold em parceria com Paul Feig (Missão Madrinha de Casamento e As Bem-Armadas). Os termos científicos abordados, assim como no longa original, chamam a atenção e as piadas rápidas, muitas vezes apenas com olhar ou gesto, se tornam fáceis diante do talento dessas meninas. A Erin de Kristen Wiig não foge muito de outras personagens louquinhas que ela já fez, mas isso é potencializado aqui.  Melissa McCarthy, como Abby, dispensa apresentações e entrega uma atuação mais contida, dando espaço para as outras brilharem. A parceria com Paul Feig é mais um grande acerto da atriz.

 224359.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx

Leslie Jones apesar de ser no início, apenas a funcionária do metrô e não uma cientista (gerando algumas críticas), faz Patty, que rouba a cena, sempre com sua voz potente e seu jeito “vida loka” de ser. A atriz é uma das que tem as melhores piadas visuais, além disso, tem muito mais importância do que Winston na equipe original. Mas o destaque e a surpresa fica com Kate McKinnon e sua louquinha Jillian. Eu particulamente não conhecia a atriz e fiquei impressionado com seu time cômico, sempre torcendo para vê-la em cena. As quatro juntas fazem piadas com machismo, com comentários da internet, com o papel da mulher na sociedade, com os homens, com os esteriótipos, piadas, piadas e mais piadas. Nem Patrick Swayze está salvo.

2) O coadjuvante de luxo

Apesar de nomes de peso como Charles Dance, Andy Garcia, Matt Walsh, Michael K. Williams e o vilão Neil Casey (segundo o filme, “são sempre os solitários” HAHAHA), ninguém foi tão engraçado como o atrapalhado recepcionista Kevin (Chris Hemsworth). A sacada genial de colocar um homem bonito, abobalhado, extremamente idiota, que só liga para o porte físico, rende cenas que vão arrancar risos da plateia. É como se o esteriótipo da “mulher gostosa” e o da “loira burra” se invertessem. Não sou um grande fã de Chris, e o considero um ator mediano, mas é justo dizer que ele faz o melhor papel de sua carreira e se entregou a zueira totalmente.

221234.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx

3) As Referências e participações (muito especiais)

Nunca usando os personagens ou situações do filme original de âncora para benefício próprio, o novo Caça-Fantasmas, surpreende ao apresentar lugares, situações (algumas surgem na tela do nada) e na volta dos atores em forma de homenagem, não interpretando as mesmas personagens (ou sim… não quero estragar a surpresa). Bill Murray, Dan Aykroyd, Ernie Hudson, Sigourney WeaverAnnie Potts fazem ótimas participações para brindar os fãs mais saudosistas, não de maneira gratuita. Assim o fan service é feito e move a história. História essa, muito bem dirigida por Paul Feig, que mostra evolução, sabendo dosar humor, um pouco de drama e os efeitos incríveis dos fantasmas (até os clássicos são homenageados).

4) (Opinião) O Machismo existe?

Infelizmente sim. O número de deslikes no Youtube, os comentários machistas, a nota do filme no IMDB era 4 até ontem, votado por mais de 10 mil pessoas, sendo que o mesmo ainda nem tinha sido lançado. Tudo isso é prova de que estamos em um mundo machista, seja no cinema, na TV, na música, em todas as áreas do entretenimento. A cena final do filme é uma prova da luta das mulheres contra esse machismo, quatro mulheres sozinhas contra um exército de fantasmas prestes a destruir Nova York. Me emocionei ao ver que a mensagem transmitida, mesmo que de maneira cômica, é poderosa: Mulheres, vocês podem.

068270.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx

Você pode se perguntar, porque não criar uma franquia diferente com essas atrizes? Porque utilizar o título Caça-Fantasmas? E eu respondo: precisamos de vozes que mudem o mundo intolerante em que vivemos. Utilizar o nome de uma franquia primeiro para chamar a atenção para si, e futuramente abrir espaço para essas ótimas atrizes terem algo pra chamar de seu. Agradeço por este filme ser maravilhoso, e calar a boca de muitos haters por aí. Me pergunte, qual a importância de termos personagens femininas fortes? Te respondo com esta foto:

CnDYkWBWgAAV8QE


Obs 1: Se puder veja em 3D, sustos garantidos, além da profundidade na batalha final. É como se estivéssemos ao lado das meninas em Nova York.

Obs 2: Fique na poltrona até o fim. Na verdade os créditos inteiros irão te prender nela.

Obs 3: A homenagem a Harold Ramis (que viveu Dr. Egon Spengler, um dos Caça-Fantasmas no filme original) foi muito sutil e deveria ter mais tempo.


odisseia-06