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Filmes

Crítica: Blade Runner 2049

Replicando o ser humano e suas reflexões sobre identidade

6 de outubro de 2017 - 01:13 - Flávio Pizzol

 

Mesmo com uma recepção muito baixa (pouco mais de US$ 32 milhões e muitas críticas negativas), Blade Runner – O Caçador de Andróides colocou Ridley Scott nos holofotes de Hollywood, recebeu o título de clássico cult e tornou-se uma das maiores referências visuais e narrativas dentro da ficção científica. O fato do longa ter envelhecido bem e continuar bastante atual na sua temática fez com que a chegada de uma continuação não fosse vista com bons olhos pelos fãs, porém Blade Runner 2049 – em referência ao ano em que a produção se passa – comprova seu valor ao construir um belíssimo conto sobre humanidade, identidade e a importância das memórias na definição de tudo isso.

 

Resumindo apenas aquilo que já foi mostrado nos trailers ou nos curtas promocionais, a trama acompanha um jovem caçador de androides, chamado apenas de K, cuja a responsabilidade é aposentar os modelos de replicantes desenvolvidos antes do empresário Niander Wallace comprar o que sobrou de uma falida Tyrell Corporation. Durante uma dessas investigações, ele acaba tropeçando em alguns segredos com potencial para transformar o mundo e vai atrás de respostas com nosso velho conhecido Rick Deckard.

 

 

Falar mais do que isso seria um gigantesco desserviço para com um roteiro surpreendentemente construído com calma e muita inteligência por Hampton Fancher (roteirista do original) e Michael Green (Logan). Eles preparam o cenário com a paciência necessária, entregam várias camadas distintas para a maioria esmagadora dos personagens e posicionam, sabiamente, vários detalhes instigantes no decorrer do texto, porém são espertos o suficiente ao ponto de evitar que o resultado seja dependente de uma única reviravolta (como aconteceu com o primeiro, na minha opinião). Não se engane, esse momento de “explodir cabeças” existe e funciona muito bem, mas perde sua importância narrativa – não a força – quando o próprio longa já decidiu abrir mão de possíveis segredos nos primeiros minutos de projeção.

 

É dentro desse contexto que Blade Runner 2049 se torna um filme vinculado essencialmente ao seu clima e permite que o canadense Denis Villeneuve (A Chegada) se consagre, de uma vez por todas, como diretor de ficção científica. Ele confecciona um filme hipnotizante e imersivo que transita entre a grandiosidade dos planos abertos demarcados por uma publicidade futurista aprimorada pelos efeitos de ponta e a intimidade dos pensamentos que viajam pela mente dos protagonistas, usando os frames capturados pelo mestre Roger Deakins (Sicario: Terra de Ninguém) para demarcar a diferença com sensibilidade e beleza. Mais do que isso, se você ouvir alguém falando que grande parte das cenas poderiam ser utilizadas como protetor de tela do Windows, acredite, porque eu mesmo já devo ter feito isso nesse momento.

 

 

Mesmo sem abrir mão de grandes cenas de ação no caminho, Villeneuve movimenta sua câmera com a paciência que o roteiro pede e deixa que suas escolhas estéticas (precisas) falem muito mais que o texto em um verdadeiro deslumbre sonoro e visual. Os enquadramentos improváveis deixam o olhar do espectador preso na tela, o design de produção faz um ótimo trabalho ao misturar o universo sombrio e envelhecido do longa original com tecnologias inovadoras dignas dos textos de Philip K. Dick, as cores ajudam a compor a personalidade dos personagens e até a ótima trilha sonora de Benjamin Wallfisch (It – A Coisa) e Hans Zimmer (Dunkirk) sabe a hora de deixar o silêncio angustiante preencher a sala com uma tensão pulsante.

 

Acompanhando esse conjunto que funciona como um relógio em perfeito funcionamento, o diretor continua fazendo um trabalho digno com seu elenco. Ryan Gosling (La La Land) comanda Blade Runner 2049 com uma apatia inerente ao seu personagem e brilha justamente quando os poucos momentos de emoção externada surgem em contraste. Apesar de aparecer bem menos do que os trailers indicavam, Harrison Ford (Star Wars – O Despertar da Força) também esbanja presença de tela como um Deckard ainda mais complexo e cheio de nuances que acompanham as descobertas acerca de sua natureza. Ana de Armas (Cães de Guerra), Jared Leto (Esquadrão Suicida), Sylvia Hoeks (Berlin Station), Robin Wright (House of Cards), Mackenzie Davis (Black Mirror) e Dave Bautista (Guardiões da Galáxia Vol. 2) ainda completam o elenco com pelo menos um momento que mereça algum destaque.

 

 

Além disso, vale ressaltar que o diretor merece receber os méritos por encaixar todas as peças do quebra-cabeça sem perder o ritmo. O filme é bastante longo (163 minutos), porém nunca chega perto de ser cansativo para quem consegue mergulhar na atmosfera proposta pela produção. Blade Runner 2049 não foi feito para qualquer espectador e pode até soar um pouco frio demais para o público comum (eu, por exemplo, não consegui estabelecer uma conexão emocional como aconteceu com Mãe!), mas consegue surpreender a cada instante, expandir o universo em questão ao entregar respostas e estabelecer novas perguntas, e, acima de tudo, encerrar-se reflexivo e filosófico como só um verdadeiro Blade Runner conseguiria fazer.