AODISSEIA
Séries

Crítica: Black Mirror – 4ª Temporada

Isso nem é tão Black Mirror assim

4 de Janeiro de 2018 - 11:12 - Tiago Soares

E Black Mirror voltou! A 4ª temporada estreou dia 29 de dezembro, ali pertinho do fim do ano para desgraçar sua cabeça com suas reviravoltas, tecnologias e perigos para o futuro. Mas, será que realmente causou esse efeito?

O foco de Black Mirror inicialmente era jogar na nossa cara a forma como o ser humano lida com a tecnologia e como ela pode nos afetar em um grau mais evoluído, ou também, como o futuro pode ser bem estranho com todas essas inovações.

Charlie Brooker teve 2 anos para produzir 12 episódios para a Netflix. Bem diferente dos 4 anos que teve anteriormente com o Channel 4 para produzir 7. É muito mais tempo para pensar em tramas bem amarradas. Muito mais tempo para desenvolver personagens e muito mais tempo para transformar Black Mirror na série que é atualmente.

Para essa quarta temporada, vamos analisar episódio por episódio e ver aqueles onde Brooker perdeu a mão e onde ele foi certeiro pra dizer que “isso é muito Black Mirror”.

 

1º – USS Callister

Dirigido por: Toby Haynes (Sherlock;Doctor Who) / Escrito por: Charlie Brooker e William Bridges

O episódio que abre essa temporada era o mais cercado de desconfiança. O trailer foi aquele que menos agradou e parecia mais uma homenagem a Star Trek do que uma crítica a tecnologia. Por sorte estávamos enganados. Apesar de ser taxado como um episódio que não parece ser de Black Mirror, este é um episódio da série em sua essência, pelo menos da nova fase da série, a pós Channel 4 e na atual era Netflix.

Acompanhamos a história de Robert Daly (Jesse Plemons), CTO de uma empresa chamada Callister, que desenvolve um jogo de realidade virtual que funciona através de um dispositivo mental que te coloca dentro de um universo realista. Daly criou para si uma própria versão do jogo, baseado em USS Callister, um programa que ele é fanático – sendo um acumulador de DVDs e afins – rendendo um momento divertido em que a Netflix é citada.

USS Callister é claramente uma paródia à Star Trek, pelo menos em seu início animado. Mas animado não combina com Black Mirror e logo você percebe que existe algo errado. O capitão da nave não é tão benevolente assim, e todo o processo de inclusão dos personagens no jogo causa polêmica aos fãs mais ferrenhos da série (Black Mirror é um retrato dos perigos da tecnologia ou um sci-fi?). A chegada de Nanette (Cristin Milioti) a empresa e a obsessão de Daly por ela são elementos suficientes para mudar a perspectiva do episódio, e como fora divulgado pelos criadores, teremos protagonistas femininas em todos os capítulos dessa temporada.

Quebrando e subvertendo expectativas, USS Callister acerta, seja no visual, no enredo e nas piadas hilárias. A falta de genitais nos tripulantes da nave beira a breguice de Star Trek e Flash Gordon. Os efeitos especiais estão incríveis, a trilha é orgânica e os 76 minutos tornam o episódio um longa metragem que passa imperceptível. As atuações são maravilhosas, com destaque para a versátil Michaela Coel e Jimmi Simpson.

Além disso tudo, USS Callister é um tapa na cara dos nerds. Em tempos de Star Wars: Os Últimos Jedi, os fanboys afetados que se acham os donos de um determinado produto, querendo assim alterar sua história, são o principal foco desse episódio. Black Mirror sempre usou tecnologia como pano de fundo para nos ensinar algo – e o ensinamento está claro – aceitá-lo, é outra história.

 

2º – Arkangel

Dirigido por Jodie Foster (Jogo do Dinheiro) / Escrito por Charlie Brooker

Um episódio dirigido por Jodie Foster e focado em super proteção materna. Não tinha como dar errado correto? Bem, Arkangel tem seus acertos, mas seu ritmo – mais curto do que o anterior – não é um deles. O episódio já demonstra em seu curto prólogo, o desespero de Marie e o super cuidado que ela teria com sua filha Sara.

Após um rápido desaparecimento da filha, Marie (Rosemarie DeWitt) decide procurar a tecnologia da Arkangel, que ainda está em fase de testes, utilizada na super proteção dos filhos. Com ela, Marie vê o que Sara (Brenna Harding) está vendo, pode controlar, através de filtros, o que ela pode ver ou não e localiza-la sempre. A medida em que a menina vai crescendo isso se mostra um erro, até que a mãe resolve “aposentar” o uso do Arkangel, deixando a filha viver.

Mas como a vida da maioria dos adolescentes é cheia de experimentações, Sara começa a ter as primeiras relações sexuais, uso de drogas ilícitas e as mentiras começam a vir à tona. Cabe a Marie tirar o dispositivo Arkangel da aposentadoria e invadir a privacidade da filha de modo nada saudável. A linha tênue entre cuidado e controle começa a aparecer, e é aí aonde o episódio fica mais interessante.

Apesar de exageros na parte final, e de um fim meia boca, Arkangel toca num tema relevante. É aquele episódio que se tivesse um pouco mais de apuro técnico e tempo de desenvolvimento, seria um dos melhores da temporada, já que é um dos mais originais.

 

3º – Crocodille

Dirigido por John Hillcoat (Os Infratores) / Escrito por Charlie Brooker

Crocodile talvez seja um dos episódios mais fracos de Black Mirror. Ele conta duas histórias paralelas, que culminam em um mesmo final, mas a volta que gasta com coisas desnecessárias, afeta demais o ritmo e o enredo se torna desinteressante, ganhando fôlego e muita suspensão de descrença apenas no fim.

O episódio conta a história de Mia, vivida pela camaleoa Andrea Riseborough (digo isso porque a atriz muda a aparência para cada novo trabalho), que quando jovem se envolve em um acidente, esse acidente envolve um corpo, um passado sombrio e um segredo escondido. Quinze anos depois, Mia está estabelecida profissionalmente, tem marido e filho, mas o passado volta a bater em sua porta.

Do outro lado está Shazia (Kiran Sonia Sawar), uma analista de sinistros, que usa um dispositivo capaz de revisitar memórias e desvendar o que ocorreu em acidentes, para assim facilitar o processo contra empresas/pessoas. Sei que você é inteligente e já ligou os pontos, e o jogo de gato e rato do início se mostra sem nenhum propósito e até desinteressante. Quando as personagens interagem – e isso se dá em mais da metade do episódio – aí que a trama ganha força.

A fotografia de Crocodile merece atenção especial e o uso do visual gélido casa perfeitamente com uma protagonista que já não possui mais alma. Afim de esconder seu passado, Mia se enrola em uma – com perdão do trocadilho – bola de neve, ou de sangue pra ser mais exato. A protagonista que antes fazia o que fazia para salvar a si mesmo e seu futuro – perto do fim – parece outra pessoa, alguém descontrolada.

A direção do episódio é excelente em certos momentos, mas o roteiro se mostra inverosímel, e faltou tempo para que respirássemos a cada nova reviravolta e traquinagem de Mia. O fim deixa um gosto de repulsa com um sorrisinho de lado, mas Black Mirror precisa trabalhar melhor a tecnologia apenas como pano de fundo se quer focar em outros assuntos.

 

4º – Hang the DJ

Dirigido por Timothy Van Patten (Game of Thrones) / Escrito por Charlie Brooker

Burn down the disco. Hang the blessed D. J. Because the music that they constantly play. It says nothing to me about my life.

Assim é o refrão de Panic, música da banda britânica The Smiths, que serve de inspiração para o título desse episódio. A letra em si não é lá muito amigável. Ela fala da sanidade que as pessoas perdem, do pânico que as ruas tomam e a insistência de alguém dizer algo sobre você, mesmo que não tenha nada a ver com sua personalidade.

Em Hang the DJ, um aplicativo escolhe um parceiro para o usuário, marca o encontro e dá uma data de validade para o casal. Quando essa data de validade acaba, ele oferece um novo parceiro, com uma nova data e um novo encontro, e assim por diante até que a pessoa encontre seu par ideal para o resto da vida.

O Episódio do Tinder, como já está sendo chamado, bota o dedo justamente nessa ferida dos aplicativos de relacionamento, mesmo que de forma branda. Indicar seu parceiro ideal com base em gostos em comum, personalidades semelhantes e então estipular um tempo para os dois antes mesmo de conversarem entre si, pode parecer um tanto quanto abstrato mas o futuro indica isso. O problema é que máquinas não amam e amor não se mede com um superlike em alguém bonito.

Podemos até, se fizermos um esforço romântico, considerar Hang de DJ um sucessor espiritual de San Junipero. Ambos são o quarto episódio da 4ª e 3ª temporadas, respectivamente. Ambos falam sobre relacionamento de uma forma menos incisiva, permeando sempre o amor e seu sentimento avassalador com o par perfeito. A tecnologia talvez seja o segundo plano de uma história romântica de um casal apaixonado, porém, é essencial para que essa aconteça.

Em San Junipero, as jovens senhorinhas passam por preconceitos e adversidades e quando a vida lhes oferece uma nova oportunidade, elas agarram. Aqui, idem. Algumas horas pode ser muito pouco para um casal que se dá tão bem e, por mais que sintam isso, o respeito pelo app parece travar seus libidos.

O plot twist ao fim do episódio chega a ser previsível, porém, se os roteiristas tivessem mais tempo para trabalhar a ideia, acredito que seria um episódio ainda melhor. 12 horas para um relacionamento pode ser pouco. Para um roteiro que tenta sempre chocar quem acompanha, é menor ainda.

 

5º – Metalhead

Dirigido por David Slade (American Gods) / Escrito por Charlie Brooker

Em Metalhead talvez seja o futuro mais distante que Black Mirror já chegou. A humanidade parece ter sido reduzida a quase nada graças à perseguição das máquinas. O ritmo de urgência dá ao episódio uma característica ainda mais marcante, acentuada belo preto e branco presente durante todo o tempo.

Aqui, um grupo de pessoas invade um galpão aparentemente abandonado, para roubar uma caixa com um conteúdo que não é revelado no momento. Repentinamente surge um robô assassino em forma de cachorro (metalhead) para matar quem estava ali. Uma moça consegue escapar, iniciando então um episódio inteiro de perseguição até seus últimos momentos.

Metalhead é o episódio com a menor duração da temporada. Mesmo assim, seu ritmo é interessante, causa agonia e sofrimento para a resolução da história. Contudo, ele não oferece ao espectador nenhuma reflexão sobre o futuro ou dá um background do passado das máquinas e dos humanos. Somos situados naquela região específica e a partir daí a história avança sem se preocupar muito em dar detalhes sobre o motivo da perseguição ou o plano dos personagens para o roubo da carga.

Por mais ansioso que seja, a história acaba se tornando previsível durante o decorrer do episódio. Black Mirror sempre foi excelente em criar reviravoltas ou explosões mentais com suas revelações. Nesse episódio, temos uma fraca tentativa disso. Fica a sensação de que Metalhead poderia render mais, só não sabiam por onde ir e acabaram ficando no meio do caminho.

 

6º – Black Museum

Dirigido por Colm McCarthy (Sherlock) / Escrito por Charlie Brooker

O mais importante em Black Museum, último episódio da temporada, é entender que o universo de Black Mirror é sim, interligado. No museu do crime em que os personagens da trama se encontram, temos vários e vários easter-eggs dos últimos episódios. Isso responde a teoria de grande parte do público da série, que sempre afirmou a conexão da distopia de Black Mirror.

Um médico fica viciado em sentir a dor das pessoas graças a uma rebimboca implantada no pescoço. Seu vício o leva a cometer um assassinato e o capacete que o médico usava para receber as sensações de terceiros fica exposto como item do museu.

Uma mulher é morta em um acidente e usa o transplante de consciência para dentro do marido, que passa a conviver com sua “voz interior” por alguns anos. Eles começam a se desentender e a consciência da moça vai para um ursinho de pelúcia. O urso também se torna um item do museu.

Por fim, a atração principal do museu é a alma aprisionada de um condenado à cadeira elétrica. A diversão das pessoas era puxar a alavanca e ver o homem morrer, várias e várias vezes e ainda recebia um souvenir de lembrança de sua dor. Tantas e tantas mortes depois, o homem já não tinha mais a capacidade de falar. Era apenas dor e sofrimento.

Todas essas histórias dariam um episódio de Black Mirror, mas parece que Charlie Brooker ficou sem ideias e resolveu unir tudo em uma season finale. Novamente, sua tentativa de plot twist foi previsível, sendo entregue no meio do caminho. Se o roteiro focasse apenas nessa última história, desenvolvendo os personagens e a motivação para uma vingança, seria tão avassalador quanto vários outros episódios. Picotado assim, ficou apenas um fragmento de boas ideias que se perderam no andar da carruagem.

 


 

A quarta temporada de Black Mirror deixou bem explicito a forma corrida como os roteiros foram desenvolvidos. Isso tirou a série do rumo em que sempre buscou tomar. Em termos artísticos, a temporada não deve em nada. Todos os episódios são muito bem dirigidos, com um acabamento primoroso, todavia, essa quantidade de episódios levou Black Mirror para o comum, sem nada surpreendente, e perdendo sua principal característica: chocar as pessoas com uma forte crítica social utilizando a tecnologia como elemento principal. E isso não foi nem um pouco Black Mirror.


Essa crítica foi escrita por mim (episódios 1, 2 e 3) e Felipe Hoffman (episódios 4, 5 e 6).