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Filmes

Crítica: Bingo – O Rei das Manhãs

Um maravilhoso mergulho na fama, na televisão e na década de 80

26 de agosto de 2017 - 11:28 - Flávio Pizzol

 

Entre apresentadoras quase peladas dançando com crianças e brigas declaradas pela audiência, ninguém pode negar que a televisão dos anos 80 era completamente surtada. Criado nos EUA em 1946, importado para terras tupiniquins como sucesso mundial e interpretado por vários atores que nunca podiam ser revelados, o palhaço Bozo certamente se tornou uma das figuras mais icônicas desse período. Mesmo assim, Arlindo Barreto ficou conhecido pelo tempo em que encarnou o personagem e acabou virando inspiração clara para Bingo – O Rei das Manhãs.

 

Contando com quase todos os nomes modificados por questões de direitos autorais e liberdade criativa, a trama acompanha Augusto Mendes, um ator de pornochanchada que vê o papel de Bingo como sua grande chance de ser reconhecido nacionalmente. No entanto, por mais que sua carreira – entre ascensões e quedas – funcione como o fio condutor clássico de histórias sobre a mídia, vale ressaltar que Bingo é muito mais do que mais um filme biográfico lançado pelo cinema nacional. Ele é uma mistura única entre estudo de personagem e período histórico.

 

 

Repleto de frases que já nasceram prontas para virar bordões, o roteiro de Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças) constrói um protagonista extremamente complexo e um universo cheio de cultura popular, misturando comédia, loucura e drama na medida certa. E não se deixe enganar pela figura de um palhaço sorridente no pôster: Bingo é um longa adulto e dramático que usa a comédia e as loucuras – da mídia e da mente – como uma maquiagem que esconde o peso da trama. O último terço do longa fica um pouco corrido e perde impacto, mas, na maior parte do tempo, todas as peças estão muito bem posicionadas. Ou seja, o que é pra ser engraçado é muito engraçado; e o que é pra ser dramático consegue emocionar e mexer com o espectador.

 

A atuação brilhante de Vladimir Brichta (Justiça) ajuda bastante nessa organização, já que o baiano abraça todas as facetas com vigor e muita presença de palco picadeiro. Ele tem um timing cômico muito bom (já visto em diversos outros projetos) e consegue construir um protagonista que pode ser encarado, ao mesmo tempo, como um ator talentoso, um pai amoroso e um ser humano que precisa provar seu valor para todos à sua volta. Isso sem contar com as brilhantes cenas que se passam em sua imaginação e um momento de catarse emocional que, apesar de curto, passa muito perto de ser um dos trechos mais marcantes do longa graças a união entre atuação e um belo plano-sequência.

 

 

Da mesma forma, as relações com os coadjuvantes também são decisivas para a trama. Leandra Leal (O Lobo atrás da Porta) surge contida, mas construindo um contraponto interessante entre a religião e a perversão da televisão; Augusto Madeira (Malasartes e o Duelo com a Morte) transforma um personagem pequeno em atração principal com sua risada icônica; Ana Lúcia Torre (Verdades Secretas) funciona como a fonte de inspiração e amor de Bingo; o novato Cauã Martins se destaca como a força motriz do protagonista, resumindo de forma relativamente forçada do sentimento do seu pai em poucas frases; e até o saudoso Domingos Montagner (Vidas Partidas) faz uma participação especial pequena e quase autobiográfica.

 

Quem comanda tudo isso com perfeição semelhante é Daniel Rezende (montador indicado ao Oscar por Cidade de Deus). É impressionante como seu trabalho ao lado de grandes nomes como Fernando Meirelles, José Padilha e Terrence Malick criou um diretor de grande talento e ritmo. O trabalho com os atores, o jogo de câmera, os ângulos diferenciados, a sincronização das cenas musicais, escolha da paleta de cores e, principalmente, os longos planos-sequências funcionam com brilhantismo. Pode ser contraditório para um montador, mas esse não passa de um elemento muito bem usado dentro de uma direção completa.

 

 

Além disso, tanto o texto quanto o visual se dedicam para fazer um retrato característico de uma época onde a televisão era movida pelo politicamente incorreto. Fotografia, direção de arte, figurino, maquiagem e alguns elementos menores como legendas de VHS, papéis de censura e vários easter eggs ainda criam um exercício de imersão na época que consegue ser informativo, divertido e nostálgico em uma tacada só. Um filme sobre cultura pop não poderia existir sem esse cuidado, assim como qualquer produto sobre a televisão oitentista não poderia ser produzido sem fazer piada com a Globo, a Xuxa e a Gretchen (brilhantemente interpretada por Emanuelle Araújo).

 

Como todos os elogios já deixam claro, o resultado é uma produção que diverte, cria boas reflexões sobre a fama e a mídia, emociona como bela relação entre pai e filho, passa voando dentro das quase duas horas de projeção e, logicamente, beira a perfeição em aspectos técnicos. Bingo é um personagem que tem tudo pra ficar gravado na cultura pop com a mesma força que sua fonte de inspiração e seu filme, mesmo com as pequenas correrias o clímax, já merece ser classificado como uma obra-prima do cinema nacional.

 


OBS 1: Algumas cenas de sexo são bem bizarras e podem te pegar desprevenido, então se preparem.

OBS 2: Fiquem atentos a quantidade assustadora de referências que enche a tela, incluindo até a participação de diversos personagens conhecidos da internet com caracterização e tudo.

OBS 3: Minha frase favorita do filme é “até a audiência pra subir tem que ter tesão”. Simplesmente genial!