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Filmes

Crítica: Ben-Hur (2016)

19 de agosto de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Ben-Hur só para millennials!


ben-hur-2016-posterBen-Hur é certamente um dos filmes mais marcantes do cinema. Um épico de primeira qualidade que catapultou Charlton Heston ao status de astro nos anos 60 e ganhou nada mais nada menos que 11 Oscars (posto alcançado apenas por Titanic em 1997). Um obra prima que não dialoga com uma geração que não consegue ficar 4 horas apreciando um longa-metragem, sendo essa a principal justificativa para essa releitura. Com um pouco de empatia por esse público, o novo Ben-Hur consegue apresentar sua história clássica e divertir como verdadeiro blockbuster.

O longa segue praticamente os mesmos passos do filme de 1959 e acompanha a jornada de vingança, sobrevivência e perdão de Judah Ben-Hur, um príncipe judeu acusado de traição por seu próprio irmão adotivo. Em outras palavras, o roteiro mantém quase todas as relações principais, as guerras marítimas, os encontros com Jesus, a famosa corrida de bigas e tudo mais que tornou a história tão conhecida. Entretanto, mesmo sabendo que o objetivo é readaptar o livro de Lew Wallace sem ser uma simples refilmagem, continua sendo impossível deixar as comparações de lado.

É certo afirmar que o principal objetivo desse longa é entregar as mesmas mensagens do livro e do filme de uma forma mais enxuta e, para dar conta disso, o roteiro de Keith R. Clarke (Caminho da Liberdade) e John Ridley (12 Anos de Escravidão) precisa abraçar alguns recursos básicos de texto, como a narração in off, a cartela com as passagens temporais, o maniqueísmo simples e puro, a exclusão decertos pontos e algumas resoluções rasas. São elementos que podem incomodar quem, assim como eu, gosta muito da forma como o longa de 1959 usa as imagens para mostrar muito mais do que falar, todavia também precisamos entender que ele tinha muito mais tempo para fazer esse exercício e seria assistido por um público completamente distinto.

Sendo bastante otimista em relação ao que eles tentaram fazer, é necessário admitir que existem tantos pontos positivos quanto negativos no todo. Na parte boa do jogo, o roteiro consegue abrir espaço para desenvolver a relação entre Judah e Esther com mais tranquilidade, incluir Jesus de forma mais ativa e divertir o público com um clímax bem enérgico. Por outro lado, o restante da trama fica mais apressado e o lado mais épico e teatral perde um pouco do seu espaço. Apesar da presença mais constante de Jesus, também é inegável que o filme perde um pouco da sua religiosidade ao reduzir a longa caminhada que salva a família de Ben-Hur da lepra a uma simples chuva.

Jack Huston Morgan Freeman Ben-Hur 2016 remake

A direção do russo Timur Bekmambetov, como já era esperado, segue as tendências dos blockbusters atuais, aproxima o visual de um jogo de video game e abusa da câmera na mão, da edição picotada e dos muitos planos em primeira pessoa para conquistar os millennials que vão cinema pelo espetáculo. Entretanto ele também acerta ao conseguir balancear esse lado mais corrido com alguns momentos que exigem um pouquinho mais daquela estética mais clássica, voltada para a contemplação.

Outro bom acerto está na união entre a estilização gigantesca das cenas de ação (elemento recorrente na filmografia do diretor) e o uso dos efeitos mais práticos e singelos. Apesar de deixar escapar um dois ou três momentos que claramente foram concebidos em tela verde e abusar dos planos médios, Timur conseguiu utilizar a computação gráfica a favor do filme e equilibrar os efeitos com os sets construídos externamente. O resultado pode ser claramente percebido – e aprovado – na ótima cena do naufrágio e na clássica corrida de bigas, que consegue passar toda sua agilidade e tensão com muita facilidade.

BEN-HUR

Infelizmente, ele acaba falhando miseravelmente na hora de dirigir e arrancar emoções genuínas de um elenco bem interessante. Jack Houston até se esforça, mas não tem o carisma necessário para fazer o público ficar conectado com sua jornada. Rodrigo Santoro funciona como Jesus, apesar de não ter grandes picos emocionais. Toby Kebbell funciona como antagonista, mesmo escorregando nos momentos mais dramáticos. Morgan Freeman não faz nenhum esforço para fazer algo diferente de si mesmo. E, por fim, Ayelet ZurerPilou Asbæk, Sofia Black-D’Elia e a linda Nazanin Boniadi tem muito pouco pra fazer com textos rasos e curtos.

No fim das contas, o resultado é simplesmente um filme que consegue transmitir todas as mensagens clássicas com uma divertida cobertura de blockbuster. Ele obviamente não chega perto de ter as mesmas qualidades de algumas das adaptações anteriores e pode até ser um exemplar bem esquecível, entretanto também passa bem longe de ser algo horroroso. O icônico clássico de 1959 é infinitamente melhor em quase todos os aspectos e ainda merece ser visto, mas o novo Ben-Hur também vale o ingresso para quem quer ter os primeiros contatos com essa grande história.


OBS 1: O final de novela mexicana não estraga o filme, mas tira um pouco do peso de toda essa jornada.


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