AODISSEIA
Séries

Crítica: Bates Motel – 5ª Temporada

26 de Abril de 2017 - 15:09 - Tiago Soares

Último ano da série reinventa, redefine e renova o clássico Psicose


Na minha crítica da temporada passada, ressaltei a onda de filmes que estão virando séries, algo que recentemente tem acontecido bastante, e emula a falta de criatividade de Hollywood. Depois de 5 temporadas e 50 episódios, Bates Motel chega ao fim sendo a precursora desta onda- e saiu do status de “série que destruiria o clássico de Hithcock” –  para uma obra prima da TV nos últimos anos. Uma pena que tal fato não seja refletido em sua audiência e na sua constante ausência em premiações, mesmo assim o canal A&E merece agradecimentos de todos os fãs – por não abandonar a história e prezar o fechamento de um ciclo, já que o final em 5 temporadas estava pré-estabelecido. É claro que este texto será recheado de spoilers de todas as temporadas.

Os diretores, fotógrafos e produtores tinham uma tarefa difícil pela frente já que Norma Bates (Vera Farmiga) morreu no fim da temporada passada. Como continuar a série sem sua estrela e principal atriz? Mais do que isso – fazê-la voltar – mas sendo parte de Norman e não um ser independente? E é impressionante a forma perfeita em que conseguem transpor para tela, tanto no roteiro apurado, nas conversas entre Norman e Norma – como na direção e fotografia utilizando elementos de cena, reflexos nos espelhos e uma trilha sonora agonizante.

A difícil e última temporada é grandiosa em todos os aspectos e exige o máximo de todos envolvidos. O foco principal está no seu protagonista, em sua doença e fixação pela figura da mãe dócil e super protetora. O desafio se torna maior ainda pelo fato da temporada ter que adaptar o clássico livro de Robert Bloch, e filme de Alfred Hithcock. Os criadores Carlton CuseKerry Ehrin e Anthony Cipriano quebram toda a expectativa ao trazer Rihanna para interpretar a clássica Marion Crane – gerando desconfiança do público – já que a cantora é ainda inexperiente como atriz – e são mais ousados ainda mudando toda a cena do chuveiro, além de resumir o filme clássico em praticamente 2 episódios (5 e 6).

A clássica cena do chuveiro está lá, é emocionante e preparada desde os minutos iniciais, mas não se engane. Tudo muda, e a Marion de Rihanna é forte e muito mais determinada e sexy que a do filme clássico. Sam Loomis (Austin Nichols) é quem sofre o ataque, numa junção perfeita de direção, fotografia e montagem sagrenta – recriando o clássico e ao mesmo tempo atualizando-o de maneira satisfatória e orgânica – que mais uma vez ressalto ser corajosa. Freddie Highmore e Vera Farmiga continuam dando um show a parte e suas ausências em indicações ao Emmy deste ano não serão perdoadas. Ele transita entre as duas personalidades com competência e sem trejeitos, e o mesmo pode se dizer dela. Numa cena incrível em uma bar gay, ambos mostram o poder de atuação que possuem – auxiliados por um belo trabalho de figurino, com Vera sendo o alívio cômico da produção.

Além da saga de Norman/Norma os personagens que os rodeiam tem seu martírios. Dylan (Max Thieriot) e Emma (Olivia Cooke) vivem felizes com sua filha, até serem pegos de surpresa pelo choque da morte de Norma, e isso transformar tudo ao seu redor. Alex Romero (Nestor Carbonell) e sua saga de vingança, que encontra uma resolução digna. Madeleine Loomis (Isabelle McNally) e sua falta de sorte, só por parecer Norma – com isso atraindo a atenção de Norman e por último Chick (Ryan Hurst), fazendo as vezes de espectador de luxo e escritor – o personagem ganha destaque e quase vira um Robert Bloch, trazendo metalinguagem a série e encontrado um fim não tão a sua altura.

Aliás, os atores estão de parabéns não só por suas atuações – mas por seus trabalhos atrás das câmeras também. Freddie Highmore dirige o episódio 8 (The Body) e escreve o episódio 7 (Inseparable). Nestor Carbonell dirige o episódio 5, o da introdução de Marion (Dreams Die First). E Max Thieriot dirige o 4º e um dos melhores episódios da temporada, Hidden – aliás ele estreia na direção, e muito bem por sinal.

O cuidado com o apuro técnico dos produtores e diretores da série é uma forma de respeito e homenagem a obra original. Tomando as devidas liberdades criativas – como a introdução do irmão de Norman que não existe no material raiz – até a mudança da clássica cena do chuveiro – Bates Motel reverencia Psicose (livro e filme) e traz referências até as suas continuações lixosas. Talvez ao lado de The Leftovers, seja a série mais subestimada – e que felizmente conseguiu terminar no seu auge – assim como Breaking Bad e Sopranos.

O final consegue ser triste, maduro e cheio de significado, inclusive em seu último take. Satisfatório – não imaginava outro fim para Norman – a não ser aquele que acabasse com seu sofrimento e com o dos outros. Robert Bloch e Alfred Hitchcock estariam orgulhosos desse Check Out.