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Filmes

Crítica: As Aventuras do Capitão Cueca – O Filme

A batalha épica entre alunos criativos, um diretor mal-humorado, um professor zoado e um herói hipnotizado

11 de outubro de 2017 - 14:25 - Flávio Pizzol

 

As aventuras ilustradas do Capitão Cueca – ao lado da Turma da Mônica, provavelmente – tiveram grande participação na minha criação como leitor ao me apresentarem um universo que misturava literatura infanto-juvenil, quadrinhos e piadas muito surtadas. Eu não faço ideia de como anda o sucesso da franquia escrita por Dav Pilkey, mas admito que sempre me perguntei porque nunca pensaram em adaptar as histórias nesse turbilhão de longas sobre super-heróis. Esse momento chegou , e o grande acerto aqui é manter a essência do material original em um filme que pode (possivelmente) ter apelo com crianças e adultos.

 

A trama, que acompanha a jornada de origem do personagem-título pelas mãos dos amigos Jorge e Haroldo, transmite a proposta do filme através de um humor estúpido, escrachado e tanto quanto politicamente incorreto constante nos livros de Pilkey. Sem dar nem tempo pro espectador pensar, o filme já começa ligado nos 220 volts e se dividindo com sucesso entre dois estilos quase opostos: piadas bobas sobre flatulência ou pegadinhas que costumam agradar as crianças pela simplicidade das sacadas; e uma combinação de auto-paródia (“o tipo de humor que estamos fazendo é o pior possível”) e críticas sociais (os salários do professores que não precisam de vilões para serem reduzidos) que só os adultos conseguem entender com plenitude.

 

 

Em perfeito complemento, os aspectos técnicos e visuais – extremamente parecidos com o material original – conduzidos por David Soren (Turbo) aposta em gags construídas por truques de câmera e edição; transições entre a animação digital, o glorioso 2D, fantoches de trapo e o traço do próprio quadrinho nos momentos mais metalinguísticos; músicas originais que já entraram na minha playlist do Spotify; e uma primorosa dublagem original encabeçada por Kevin Hart (Um Espião e Meio), Ed Helms (Férias Frustradas), Nick Kroll (Festa da Salsicha), Thomas Middleditch (Silicon Valley) e Jordan Peele (Corra!).

 

O cenário criado pela união desses elementos reflete muito do que estava armazenado no meu imaginário de fã do Capitão Cueca, mas também soa como algo sutilmente diferente e adequado ao mercado das comédias atuais. Em outras palavras, o filme segue um caminho que poderia ser resumido como uma versão para menores do Deadpool, onde os protagonistas anti-heróis quebram a quarta parede, congelam a cena, usam a narração como piada e enchem a projeção de referências à cultura pop que vão desde créditos que interrompem uma cena até uma certo “rotten potatoes“. Considerando que o roteirista Nicholas Stoller já trabalhou tanto em animações infantis (porém inventivas) como Cegonhas quanto em comédias adultas como Vizinhos 2, eu acredito que ele percebeu o potencial subversivo da obra e o elevou a décima potência.

 

 

Com exceção de algumas piadas que são repetidas até a exaustão e reviravoltas idiotas, a capacidade desse texto complexo de atingir o público-alvo majoritário – as crianças – foi a única coisa que me deixou instigado. Eu acredito que o público infanto-juvenil está ainda mais esperto que aquele que elevou o Capitão Cueca ao patamar do sucesso e potencial parece existir, mas a dúvida quanto a agilidade dos menores perante algumas sacadas realmente me incomodou. A reviravolta citada, por exemplo, é seguida de forma genial por uma auto-paródia, porém, se a piada não for compreendida, o momento fica restrito a uma mera reviravolta rasa.

 

No entanto, As Aventuras do Capitão Cueca funcionou comigo, trouxe uma carga nostálgica que acompanhou as referências do material original e tomou o cuidado de apostar na diversão das crianças e dos adultos que costumeiramente os acompanha (uma característica essencial da animação moderna que Pixar e afins sabem trabalhar como poucos). Eu mantenho minha dúvida quanto a linguagem como uma possível deficiência, mas não posso restringir um filme que faz quase tudo certo a uma possibilidade. De resto, só posso dizer que ver o terceiro ato ser interrompido por um Flip-O-Game (elemento típico dos livros) genial já valeu a projeção pra mim!