AODISSEIA
Filmes

Crítica: Atômica

Sexo, mentiras, videotapes e muita adrenalina

31 de agosto de 2017 - 19:34 - Flávio Pizzol

 

Os filmes de espionagem já fizeram parte da nata do cinema hollywoodiano, apropriando-se do clima noir e das temáticas relacionadas à guerra para criar histórias marcantes. Com o tempo, essas produções ficaram restritas a James Bond, alguns dramas pesados – a maioria baseados nos livros de John Le Carré – e as paródias de gênero. Atômica surfa na onda de Daniel Craig nos últimos 007 para trazer a pegada realista de volta, mas acaba acertando em cheio quando se permite misturar um pouquinho de trejeitos cartunescos, altas doses de adrenalina e um visual de tirar o fôlego.

 

Passando pela recriação de Berlim no final dos anos 80, o uso constante do neon na fotografia em referência clara a John Wick e a escolha da movimentação suave da câmera, o longa consegue fisgar a atenção através da realidade e, mais do que isso, criar um ambiente propício para a imersão do espectador. As notícias políticas, cores frias e vielas escuras acompanham a construção de um mundo soturno e pé no chão (sem super-heróis ou pessoas que pensam no próximo antes de si mesmo), enquanto David Leitch transmite sobriedade até nas cenas de ação mais insanas. O fato de qualquer coisa virar arma em cena poderia tornar essa afirmação contraditória, caso os momentos de pancadaria não fossem mais brutais do que necessariamente gráficos.

 

 

Junto com essa escolha temática, as coreografias intensas também colocam Leitch (co-diretor de John Wick e responsável por Deadpool 2) no patamar de diretores que enxergam o real potencial de uma cena de ação. Tudo é enquadrado e montado com ritmo e precisão na companhia de uma trilha sonora brilhante, seja nas composições originais com toques eletrônicos de Tyler Bates ou na seleção de clássicos da época que, repetidamente, jogam o público dentro do contexto construído. O aspecto sonoro é tão bem utilizado pela direção que some justamente no tão comentado plano-sequência da escada: uma cena memorável em termos cinematográficos que reflete o quão dolorosa pode ser a vida de um espião, deixando ecoar o peso de cada soco ou knockdown.

 

O roteiro que conduz esse espetáculo visual compreende esse peso e emula com decência o clima das tramas de Le Carré, mas não consegue esconder seu conteúdo simples e, de certa forma, previsível. E olha que Kurt Johnstad (300) tanta a fazer isso com diálogos com falsa complexidade e muitas mudanças de ponto de vista ou tempo. No entanto, todo o falatório e desordem de cenas não seria um problema tão grande, se o retorno à sala do depoimento não acabasse quebrando o ritmo da produção e deixassem as reviravoltas acumuladas para os últimos instantes. Para nossa sorte, ao menos os personagens de Atômica são bem construídos e possuem aquelas camadas escondidas típicas dos espiões que são.

 

 

Quem brilha como peça-chave desse cenário e líder dos protagonistas é, obviamente, Charlize Theron (Hancock). Ela abraça mais uma vez sua faceta de astro de ação após o sucesso de Mad Max e faz um trabalho impressionante tanto no âmbito físico, quanto na construção de uma personagem forte, sensual e vulnerável na medida certa. James McAvoy (Fragmentado) não deixa a peteca cair e acerta o tom ao adicionar dois de dedos de loucura ao seu David Percival. Sofia Boutella (A Múmia) é a presença menos importante da trinca principal de espiões, porém injeta ainda mais tensão sexual ao elenco completado pelos ótimos John Goodman (Kong: A Ilha da Caveira), Toby Jones (Sherlock), Eddie Marsan (Heróis de Ressaca), James Faulkner (Game of Thrones) e Bill Skarsgård (It: A Coisa).

 

Dentro de tudo isso, Atômica é uma produção empolgante e divertida que, por muito pouco, não consegue chegar ao status de grandes filmes de ação da história. Falta aquele algo mais que o tornaria um clássico como Estrada da Fúria. Ainda assim, ele passa longe de ser esquecível, afinal a reconstrução história, a trilha sonora e a persona de Charlize Theron tem tudo pra ocupar a memoria do público por muito tempo. E acima de tudo, não se engane: a adrenalina faz com que Atômica seja definitivamente um dos melhores exemplares do gênero (ação/suspense) lançados em 2017.

 


OBS 1: O longa tem apenas uma cena que pesa a mão na câmera lenta e acaba se aproximando do frenesi cartunesco de Kingsman, mas não destoa porque funciona como um respiro de alívio dentro daquele universo.

 

OBS 2: A comparação com John Wick é compreensível, mas descabida porque esse universo é muito mais real, palpável.